Manuel Silva
Fel estraga MEL
Na recente convenção do MEL (Movimento Europa e Liberdade), também considerada conclave das direitas, na sua intervenção o líder do PSD, Rui Rio, afirmou mais uma vez que o PSD não é um partido de direita, mas do centro, procurando aglutinar o centro-direita e o centro-esquerda. Mais afirmou que Sá Carneiro definia o então PPD como partido de centro-esquerda e considerava a social-democracia como via para a construção do socialismo. Ainda bem que o fez, para a ala direita do partido ver que a matriz ideológica do mesmo não tem nada a ver com o seu pensamento, em muitos aspectos coincidente com a alt-right (direita dura). Há pessoas do PSD que elogiaram Trump e Bolsonaro…
Aquela convenção, além dos debates, tinha como objectivo a criação de uma frente de direita contra o PS e outros partidos chamados de esquerda. Tudo correu mal à organização. As intervenções mostraram muitas diferenças entre os partidos e independentes presentes. Dali não saiu sequer o esboço de uma alternativa, nem de um programa de reformas que se materializasse num futuro programa de governo. Cada partido procurou defender o seu espaço e não a unidade, ainda que na diversidade.
Várias intervenções – e não foram só de elementos do Chega – mostraram nostalgia pelo passado salazarista e colonialista, bem como uma formação intelectual retrógrada e contrária aos valores civilizacionais democráticos. Só faltou aqueles oradores dizerem que a origem de todos os males actuais está na Revolução Francesa de 1789 e na queda do absolutismo, no qual o rei era responsável perante Deus e não perante os homens e mulheres que governava.
A direita portuguesa não tem votos, nem força social e política. O CDS é um partido irrelevante, estando em vias de, nas próximas legislativas, não eleger um único deputado. A Iniciativa Liberal está em crescimento, mas ainda é um partido pequeno. Em crescimento está também o Chega. Todas estas forças juntas não seriam alternativa. Daí procurarem capturar o PSD, que poderia trazer os votos para tal. Não é por acaso que o líder mais à direita deste partido, Pedro Passos Coelho, apareceu como um D. Sebastião, apesar de não ter falado.
A intervenção de Rio acima referida foi um autêntico despejo de fel sobre o MEL, que perdeu toda a sua doçura. Ficou claro que, enquanto fôr líder do Partido Social-Democrata não haverá qualquer frente alternativa de “direita”.
É evidente que a direita do PSD, neo-liberal, conservadora e anti-social-democrata, vai fazer tudo para que as próximas eleições autárquicas corram mal, a fim de Rio deixar a liderança do partido. Se tal acontecer, o mais certo, será o partido ser liquidado e criado em seu lugar o grande partido da direita, deixando o espaço central aos socialistas, que esfregarão as mãos de contentes.
PS: Aquando do falecimento da Carmo Bica, disse ao seu tio, Dr. António Bica, ao Dr. António Alexandrino e à Paula Jorge que a melhor homenagem que poderíamos prestar à nossa directora era continuar a sua obra neste jornal, o que temos conseguido sob a direcção de Pedro Soares, seu marido. No passado dia 30 de Maio, foi prestada homenagem pública, em Vouzela, à Maria do Carmo, com a presença de muitas pessoas. Bem merece este reconhecimento pelo seu trabalho em prol desta região.
10/06/2021

Comentários recentes