Manuel Silva
Escravatura em Portugal

Recentemente, uma certa “esquerda” portuguesa (coloco a palavra esquerda entre aspas, porque, como afirmei em anterior artigo, na minha opinião, os termos esquerda e direita estão desactualizados), em nome da denúncia da escravatura e do colonialismo, pretendia derrubar o monumento aos descobrimentos, provavelmente seguir-se-ia a destruição do mosteiro dos Jerónimos, da ponte 25 de Abril, porque foi mandada construir por Salazar, etc.
Nos regimes comunistas, especialmente no tempo do “guia genial dos povos”, Estaline, apagavam-se factos, eliminavam-se figuras da História, especialmente em fotografias, destruíam-se estátuas e até monumentos. A última “vítima” de tais acontecimentos foi o próprio Estaline, cujo sucessor, Krutchev, ordenou a destruição das suas estátuas e fotografias, com excepção de uma estátua na Geórgia, sua terra natal. Mandou ainda retirar o seu corpo de um mausoléu, sepultando-o nos muros do Kremlin.
Curiosamente, não foram os comunistas portugueses a defender aquelas posições, mas os socialistas, destacando-se entre estes Ascenso Simões. Tão preocupados com o passado, não viram que, no presente, se pratica a escravatura de trabalhadores asiáticos em Odemira.
Não fosse a covid 19, tudo continuaria na mesma: aqueles trabalhadores a pagarem 10 000,00 euros aos traficantes de pessoas para arranjarem emprego, a laborarem muitos meses de graça ou recebendo apenas 100,00 euros, para pagarem o “empréstimo” dos traficantes, mais a comida e a renda de casa, servindo um quarto para imensos asiáticos fugidos da fome e da miséria que a divisão social do trabalho causa naquela parte do globo. É caso para dizer: que viva a globalização!
Uma reportagem inserida na edição do jornal “Expresso” do passado dia 14 de Maio mostrava que situações idênticas se verificam no Ribatejo, no oeste, na apanha da amêijoa junto à margem sul do Tejo e em muitos outros locais do país, como todos nós sabemos.
Dizem os patrões que têm de recorrer a mão de obra estrangeira neste trabalho, porque não há portugueses para o fazer. Claro, por estes salários, fazem muito bem recusarem-se a servir aqueles exploradores.
O Presidente da República, o primeiro-ministro e demais membros do governo, bem como autarcas, agora armados em carpideiras, não conheciam esta situação? Claro que conheciam, tendo mostrado, com a sua atitude que, além de vivermos numa república das bananas, vivemos numa república da hipocrisia. Ética republicana é o que falta a esta gente. Eis a explicação para, num inquérito mundial sobre os valores em diferentes estados, Portugal registar 51% a favor de um líder autocrático, enquanto em outros países europeus a média de idênticas vontades é de 20%. Quem tem ouvidos que ouça, especialmente aqueles que, sendo democratas, pretendem normalizar a extrema-direita.
27/05/2021

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