Manuel Silva

Afeganistão: O segundo Vietname dos americanos

O Afeganistão foi o Vietname dos soviéticos e o segundo Vietname dos americanos. Os talibans e outras forças políticas combateram arduamente, nas montanhas, contra a comunização da sua sociedade. Gorbatchev reconheceu a derrota e mandou regressar as tropas soviéticas.

Os talibans foram treinados e armados pelos EUA. Só que, em 11 de Setembro de 2001, a Al Qaeda, de Bin Laden, atacou as torres gémeas e o Pentágono, nos EUA, assassinando cerca de 3 000 pessoas, apoiada, ao que se afirmou na altura, pelo Afeganistão. Nunca se provou que assim tivesse sido.

Bush desencadeou guerra contra o Afeganistão, os talibans cairam e partiram para a guerrilha. Como no tempo da ocupação soviética, mostraram-se invencíveis. No dia em que se completarão 20 anos sobre aquele atentado terrorista, tal como no Vietname, no Laos e no Camboja, em 1975, os americanos vão sair derrotados do Afeganistão.

George W. Bush pensava que quando as tropas americanas chegassem a Cabul seriam aplaudidas pelos afegãos, ansiosos de democracia.

Houve eleições, mas os vencedores tornaram-se corruptos e cleptocratas, a democracia ali existente é apenas formal.

Os soviéticos falharam na adaptação da teoria marxista-leninista à realidade afegã, como falharam na adaptação da mesma a África. Para que um país que sempre viveu no obscurantismo político e religioso passe a acreditar na democracia, que não era o regime implantado pelos soviéticos, é necessária uma evolução de mentalidades, que não se faz por decreto, mas por transformações que demoram, por vezes, séculos. A verdade é esta: a maioria do povo afegão identifica-se com o regime taliban e não é pela força que vai mudar. Antes, pelo contrário, como se observa.

Os americanos afirmavam querer implantar uma democracia de tipo ocidental. Falharam! Os afegãos não querem a liberdade, nem a democracia. Quando as tropas dos EUA abandonarem o seu país, os talibans voltarão a ser poder, com o apoio da maioria da população, que odeia ocidentais e russos, porque mataram, uns e outros, centenas de milhares de compatriotas seus nas duas guerras.

A realidade é esta: os árabes não querem viver num regime democrático e laico, mas num regime teocêntrico e não democrático. Grande parte das mulheres que usaram e usam burka, estão de acordo que assim seja. As “primaveras árabes”, em 2011, foram o fiasco que se viu, tendo reforçado e conduzido ao poder os fanáticos mais radicais. Foi o caso do Egipto.

Há que chegar a uma conclusão: se “os amanhãs que cantam” marxistas foram derrotados, também os “amanhãs” prometidos pelos EUA e demais democracias ocidentais falharam.

Há uns bons anos, Israel invadiu o Líbano, a fim de aniquilar o Hezbollah. Apesar da preparação e armamento do seu exército, não conseguiu vencer a guerrilha, pelo contrário, regressou à sua terra derrotado. Estas guerrilhas são invencíveis. É com esta dura realidade que o Ocidente tem que contar no futuro. O mundo não tem donos.

13/05/2021


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