Manuel Silva

A democracia não é nem pode ser perfeita

A democracia não é nem pode ser perfeita

Segundo uma sondagem publicada no “Expresso” do passado dia 24 de Abril, só 10% dos portugueses acreditam viver em plena democracia. As respostas levantam duas questões: porque a democracia portuguesa é meramente formal ou porque os inquiridos sonham com uma democracia perfeita?

Não somos uma democracia apenas formal como são, por exemplo, uma boa parte das democracias de opereta da América Latina, como diz o escritor peruano e prémio Nobel da literatura, Mário Vargas Llosa.

Com o 25 de Abril, não foram conquistadas apenas as liberdades fundamentais como eleger e ser eleito, poder ser da oposição, expressar o que se pensa, etc. Foram também adquiridos direitos fundamentais no trabalho, ensino, saúde, habitação, etc. É certo que por acção de governos do PSD, do CDS e do PS muitos desses direitos foram revertidos, especialmente no que respeita aos trabalhadores. As reformas da legislação laboral beneficiaram sempre o patronato e prejudicaram os trabalhadores. Não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Daí, a desilusão dos portugueses com esta democracia que se mostra também incapaz de travar e punir a corrupção, tendo aumentado, de há muitos anos a esta parte, as desigualdades socais..

Se as pessoas ouvidas na sondagem sonham com uma democracia perfeita, desiludam-se, porque tal democracia não existe em qualquer parte do mundo. Uma sociedade perfeita seria uma sociedade totalitária, na qual éramos robots manipulados pelo poder, até porque todo o poder, por mais democrático que fôr, tende a abusar. O leitor ainda se lembra dos abusos dos governos de Cavaco Silva e de José Sócrates, quando exerciam o poder com maioria absoluta de um só partido?

Como diz o ex-maoista, hoje conservador-liberal, mais conservador que liberal, João Carlos Espada, “a democracia assenta na superioridade da imperfeição”. Liberdade significa diversidade, a qual é incompatível com a perfeição e o igualitarismo. Karl Popper, grande influenciador de Espada, também assim pensava.

De um modo geral, os intelectuais – intelectual não é aquele que lê muito, mas o que escreve, produz ideias e não banalidades. Como dizia Almada Negreiros, no “Manifesto anti-Dantas”, “O Dantas – Júlio Dantas – é a prova cabal de que mesmo sendo-se escritor pode não se saber escrever” – acreditam em sociedades perfeitas idênticas à perfeição de um livro, um quadro, um filme, um poema ou uma pintura.

Eis a explicação para tantos deles se identificarem com ideologias anti-democráticas e totalitárias, que, com tanta perfeição, se tornaram infernos, o que levou Raymon Aron a falar da “ideologia como ópio dos intelectuais”.

A democracia consolidou-se sem e contra a maioria dos intelectuais.


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