Manuel Silva

Surrealismo nas escolhas autárquicas do PSD

O surrealismo é um movimento cultural, poético e artístico, ao qual estiveram ligados grandes nomes como Salvador Dali, Joan Miró, Mário Cesariny, Almada Negreiros, Alexandre O’Neil e tantos outros. A principal figura desta corrente foi André Breton. Há quem, a pretexto de tudo e de nada, fale de surrealismo em tom depreciativo, por ignorância. A arrogância da ignorância é muito pior que a arrogância pseudo-intelectual.

O surrealismo político significa a incoerência e as contradições no discurso e na acção. É o que se passa com as escolhas dos candidatos a presidentes de Câmara pelo PSD.

Rui Rio esteve bem nas escolhas dos candidatos a presidentes das Câmaras de Lisboa, Coimbra e Setúbal, respectivamente Carlos Moedas, José Manuel Silva e Fernando Negrão. Em Lisboa, sem coligação com forças à sua direita (ainda bem que o Chega não vai entrar nessa coligação), a vitória ou mesmo uma derrota honrosa seria impossível. No entanto, a candidatura de Carlos Moedas não deve alinhar na agenda dessa direita, mas ter um discurso social e de defesa de uma cidade inclusiva. A este respeito, agradou-me uma recente entrevista de Carlos Moedas ao “Expresso”.

No resto do país, as escolhas de Rui Rio são surrealistas, no aspecto político, em concelhos importantíssimos. O líder do PSD, que sempre foi contra a promiscuidade entre política e futebol, foi eleito presidente da Câmara Municipal do Porto, no ano de 2001, também contra Pinto da Costa, apoia como candidato, em Vila Nova de Gaia, o antigo jogador e seleccionador de futebol, António Oliveira, presentemente o maior accionista da SAD do FC Porto. O leitor recorda-se perfeitamente do que se passou com a Olivedesportos, de que era sócio com um irmão, os chamados irmãos Oliveirinha, bem como outros investimentos de ambos. Cereja em cima do bolo, o candidato a presidente da Assembleia Municipal desta cidade é o antigo presidente da C.M. Luis Filipe Meneses, figura mais que queimada politicamente e a contas com a Justiça.

Na Amadora, onde a chamada esquerda é predominante, apoia uma candidata, Suzana Garcia, que defende a castração química de pedófilos e outras ideias do Chega, como fazia nos seus vergonhosos comentários na TVI. Aliás, diz não ter problemas em se coligar com o partido de André Ventura. Num concelho com graves problemas sociais, pobreza e miséria, é esta a escolha do PSD! Que mais virá por aí?

Com Rui Rio na liderança, o PSD lá vai cantando e rindo – como dizia o hino da Mocidade Portuguesa, na ditadura – a caminho da irrelevância. Pior ainda: se Rio fôr embora, o mais certo é o PSD virar novamente à direita, com o regresso de Passos Coelho ou com outra figura. Perante este cenário, o PS vencerá as legislativas de 2023 com maioria absoluta, não precisando do PCP nem do BE para governar.

15/04/2021


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