Manuel Silva
MARCELINO DA MATA, HERÓI OU VILÃO?
Edição 801 (11/03/2021)
Com a morte recente de Marcelino da Mata, surgiu uma polémica à volta da sua memória de combatente do exército português na guerra colonial, na Guiné-Bissau, de onde era natural.
O mundo não é a preto e branco, mas há uma certa “esquerda” e uma certa “direita” que continuam a pensar dessa maneira. Para a “direita”, Marcelino da Mata é um herói, para a “esquerda” é um vilão e um assassino.
Marcelino da Mata foi um herói e um assassino como todos que estiveram em teatro de guerra. Por acaso, há guerras boas, com respeito pelos direitos humanos? Foi, segundo creio, o militar português mais condecorado na guerra em África. Otelo Saraiva de Carvalho foi um dos mais condecorados. Terá sido por semear a paz entre as forças armadas portuguesas e os movimentos guerrilheiros?
Outros militares de Abril fizeram várias comissões na então África portuguesa. Ramalho Eanes confessou, em entrevista ao jornal “Expresso”, há muitos anos, que tinha a certeza de ter morto guerrilheiros e que não sentia qualquer culpa, pois em guerra mata-se para não morrer. No entanto, afirmou não se orgulhar do que fez, mais dizendo rezar, nas suas orações, por aqueles que foi obrigado a matar.
Marcelino da Mata terá chacinado povoações inteiras, incluindo velhos e crianças, mas também salvou da morte muitos soldados, idos do continente, desconhecedores do terreno. Já agora, pergunto às patrulhas do politicamente correcto: quantos milhares de pessoas brancas e negras assassinou barbaramente a FNLA no norte de Angola, em 1961? O que acham do facto de o PAIGC ter prometido, após a independência, integrar os comandos africanos como Marcelino da Mata e, posteriormente, abandoná-los na miséria ou assassinando muitos deles sem sequer serem submetidos a um julgamento no qual pudessem defender-se? Há testemunhos de que muitos deles foram lançados aos crocodilos. Esses factos não mexem com a vossa consciência? Os então chefes do PAIGC não são assassinos?
Ché Guevara dizia “na dúvida, mato”, mas quem não faz isso em guerra? Na carnificina verificada na guerra da ex-Jugoslávia, no ocidente só se falava nos crimes dos sérvios, como se os bósnios ou os croatas não fizessem o mesmo. Na segunda guerra mundial, os nazis praticaram barbaridades enormes, a começar pelos campos de concentração, mas também os aliados bombardearam a cidade de Dresden, na Alemanha, assassinando muitos milhares de alemães. As bombas de Hiroxima e Nagasáqui, lançadas pelos EUA, queimaram vivas muitas dezenas de milhar de pessoas, para obrigar o Japão a render-se. No entanto, as condenações dos tribunais penais internacionais são a justiça dos vencedores, os mesmos que fazem e reescrevem a História.
PS: o autor destas linhas não é um nostálgico do colonialismo. Andou, em 1974/75, a dizer: “nem mais um embarque, regresso dos soldados!”, “guerra nos quartéis à guerra colonial!”, apoiou os soldados da então PM, no Verão de 1975, na sua luta vencedora contra o embarque para Angola.

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