Manuel Silva
Esquerda e Direita, conceitos políticos desactualizados
A dicotomia esquerda/direita surgiu aquando da Revolução Francesa de 1789. Na Assembleia Nacional então eleita democraticamente, os mais conservadores (girondinos) sentavam-se à direita, os mais revolucionários (jacobinos) sentavam-se à esquerda. Estes puseram em prática o período do terror, assassinando os reis, a maioria da nobreza e todos quantos não aceitavam a sua “ordem”, não só os absolutistas como os liberais girondinos, muitos sem serem submetidos a um julgamento onde pudessem defender-se. Uma série passada, há mais de 30 anos, na RTP (a única estação televisiva da época), intitulada “Noites Revolucionárias”, mostrava todas as barbaridades então cometidas, incluindo a invasão de casas e o massacre de quem lá vivia.
Posteriormente, em todos os países e regimes, a direita era conotada com as forças conservadoras ou liberal-conservadoras, sendo a esquerda, a partir do século XIX, com as forças defensoras do socialismo, comunistas (mais radicais), socialistas e sociais-democratas.

Durante o século XX, também era esta a situação, havendo outra diferença: direita democrática e direita anti-democrática, esquerda democrática e esquerda anti-democrática, em face dos totalitarismos de um e outro lado então activos e no poder em vários países. Era este o panorama em Portugal e no mundo inteiro aquando da revolução do 25 de Abril. Quem viveu aqueles tempos, recorda-se que ninguém queria ser conotado com a direita, pela associação feita ao regime então derrubado.
Também se considerava que a diferença entre direita e esquerda se fazia pela defesa do capitalismo ou do socialismo. Em Portugal, existia, já em 1974/75, um partido que procurava juntar o melhor do capitalismo e do socialismo, recusando o pior de um e outro sistema: o PPD, futuro PSD.
Com o decorrer dos tempos, os partidos socialistas abandonaram, primeiro o marxismo – o PS português foi dos últimos a fazê-lo – e, posteriormente, a estatização de grandes sectores da economia, que havia falhado, passando a endossar como modelo económico o capitalismo. Os regimes comunistas ruíram todos ou reciclaram-se, como foi o caso da China, que une o pior do capitalismo e do socialismo.
As políticas sociais e de combate ao capitalismo selvagem, no século XIX, defendendo a jornada das 8 horas de trabalho, o direito à greve e à participação sindical dos trabalhadores, são políticas de esquerda. No entanto, todas estas políticas foram assimiladas pela direita democrática e social.
Se partidos considerados de esquerda governam com economias capitalistas e a direita social tornou suas políticas tradicionalmente de esquerda, fará sentido continuar a falar de esquerda e direita?
Surgiram, nas últimas décadas, outros problemas para os políticos resolverem: as alterações climáticas, a defesa do meio ambiente, as questões fracturantes, etc. A resposta a estas questões é de direita ou de esquerda? Dentro das forças qualificadas como de esquerda ou de direita, há quem tenha posições muito divergentes relativamente a tais matérias. O capitalismo, na sua capacidade de regeneração, já está a adaptar-se à economia verde e à defesa de um clima saudável.
Dirão alguns: mas há uma diferença entre quem opta pela libertação da sociedade civil, com um Estado regulador, e quem defende uma presença exagerada do Estado na economia. A “direita” francesa, por exemplo, sempre foi mais estatista que o socialista Tony Blair, o qual obteve, pela única vez na história do Reino Unido, três maiorias absolutas consecutivas para o Partido Trabalhista.
Por todos estes motivos, não faz sentido falar, hoje, de direita e esquerda. Fazê-lo é uma atitude conservadora, fora de prazo.
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