Manuel Silva
CISÃO NO MRPP
No primeiro número de “Gazeta da Beira” deste ano (16 de Janeiro) escrevi um artigo intitulado “PCTP/MRPP à beira da cisão”. Ali dizia que 4 elementos do Comité Central (CC), Carlos Paisana, Maria Paula Matos, Adelaide Teixeira e Regina Andrade, haviam sido destituídos de todas as suas funções no partido.
Documentos do CC apontavam Carlos Paisana como o chefe de uma clique, da qual fazia também parte o trio feminino.
A acusação fundamental do Comité Central baseava-se no que Lenine chamava de policentrismo, que põe em causa o “centralismo democrático”, inserido na concepção leninista do partido como “estado maior de combate da classe operária”.
Segundo aquela concepção, nos partidos comunistas todos os escalões inferiores se submetem aos escalões superiores, sendo a estratégia e táctica políticas definidas no Congresso (órgão máximo) e executadas sob a direcção CC eleito no mesmo. O policentrismo significa cada um ou cada organismo actuar por si, sem controlo da direcção nacional, numa atitude fraccionista e cisionista.
O Comité Central tinha decidido que todas as posições do PCTP/MRPP seriam publicadas no “Luta Popular online”, seu órgão central e não nas redes sociais, como faziam Paisana e o seu grupo.
O afastamento deste grupo teve início com a demissão de Carlos Paisana do CC, através de e-mail. Convocado para uma reunião do órgão dirigente, a fim de esclarecer por que tomou aquela atitude, não participou na mesma. Foi contactado telefonicamente e recusou comparecer. As três dirigentes acima mencionadas, além de quererem alterar a agenda da reunião, desertaram da mesma, por Paisana não estar presente. Por tal motivo, foram também destituídas de funções. O princípio da cisão estava na ordem do dia.
Os elementos daquela “clique”, como era apelidada pelos dirigentes, continuaram a escrever nas redes sociais e afastaram-se da direcção de forma clara. Por motivos menores foram expulsos destacados dirigentes como Saldanha Sanches, falecido há muitos anos, Fernando Rosas, João Machado, Horácio Crespo, Carlos Santos ou Garcia Pereira. Curiosamente, apesar de este grupo actuar à revelia da direcção, nunca foram expulsos, mesmo quando abandonaram o partido. Estranho, no mínimo…
Carlos Paisana era ainda acusado de ter um comportamento como se fosse dono do partido. Que o seu objectivo era ser o futuro secretário-geral era perfeitamente lógico pelas suas atitudes, afirmando ser o militante mais antigo. Quem já é comunista há mais de meio século e tinha 45 anos de CC, sabe que não é assim que as coisas se processam. O Comité Central eleito em congresso é que elege o secretário-geral e ali a velhice não é um posto.
Com o decorrer do tempo, vários dos dirigentes que afastaram Paisana e o seu grupo desertavam também. Foram os casos de José Roquete, Horácio Coimbra, Alberto Lopes e outros.
A partir da primavera, Luis Júdice, o maior protagonista no afastamento daqueles seus camaradas, começa a comportar-se como dono do jornal “Luta Popular”. Tinha ali um protagonismo quase igual ao de Arnaldo Matos quando decapitou a direcção de 2015 e assumiu a liderança partidária. Tal como o grupo ligado a Paisana, que, curiosamente, continuava a ser director informal do órgão central, Júdice e outros dirigentes também passam a utilizar as redes sociais, numa atitude incoerente. Para além disso, o “Luta Popular” deixa de ser um jornal formativo, o que estará na base da deserção de muitos que estiveram ao lado de Júdice e Cidália Guerreiro, companheira de Arnaldo Matos quando este faleceu, a dupla controladora do PCTP.
No dia 12 de Outubro de 2019 (47º aniversário da morte do estudante do MRPP Ribeiro Santos pela PIDE), foi marcado o I Congresso Extraordinário do partido, a fim de proceder à sua refundação, para o passado dia 18 de Setembro, data em que completou 50 anos de existência.
O que se passou com aquele congresso foi rocambolesco. No dia do mesmo, até ao seu início, quase no final da tarde, não havia uma notícia oficial sobre a sua realização. Apenas nessa noite foi divulgado no “Luta Popular” que o congresso tinha começado.
Findo o congresso, foi divulgado um comunicado sobre o mesmo, onde, além de ser afirmado ter sido reconduzido o Comité Central, se divulgavam as suas conclusões de forma muito generalista e hermética, mais parecendo ter havido uma reunião de uma sociedade secreta.
Em outros tempos, antes do congresso eram divulgados os temas que aí seriam discutidos, havia conferências de imprensa. Embora o congresso fosse à porta fechada, eram fornecidas notícias sobre a forma como decorria à imprensa, terminando com um comício onde a mesma estava presente. Nada disso aconteceu. Nem se soube o local onde se realizou a reunião do órgão máximo, nem foram divulgadas as decisões aí aprovadas.
No dia 12 de Outubro, na tradicional romagem às campas de Ribeiro Santos e Alexandrino de Sousa, estavam menos de uma dúzia de pessoas. Os dissidentes também prestaram homenagem àqueles mártires do partido, mas com muito poucas pessoas.
O partido de Arnaldo Matos acabou. O estado a que chegou será culpa também de Carlos Paisana e outros desertores, mas os seus coveiros são Luis Júdice, Cidália Guerreiro e quem os acompanha, destacando-se João Pinto, novo director do “Luta Popular”.
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