Manuel Silva

O CONSELHO CONSULTIVO DO PSD

O CONSELHO CONSULTIVO DO PSD

Após a criação do Conselho Estratégico Nacional do Partido Social-Democrata (PSD), o mesmo divulgou as linhas políticas e económicas a integrar no futuro programa de Governo. Ali é mencionada a atenção aos mais vulneráveis da sociedade. Para os sociais-democratas ninguém pode ficar para trás e/ou ser apontado como um falhado, segundo o pensamento de Reagan e Margareth Thatcher. Eis uma das diferenças entre a social-democracia e o neo-liberalismo.

Para além da coesão social, aquele Conselho defende a baixa gradual dos impostos para atrair o investimento, criar e distribuir riqueza, a realização de várias reformas a efectuar em sectores como a educação e a saúde, um meio ambiente sustentável, a igualdade de oportunidades e a manutenção do Estado Social.

Aquele programa foi divulgado no fim da primavera (3 de Junho deste ano). A seguir, chegou a silly season – o Verão – que, com o calor, provoca afirmações de políticos, jornalistas e não só, inacreditáveis.

Numa entrevista televisiva realizada próximo do fim de Julho, Rui Rio disse admitir uma futura aliança com o Chega, de André Ventura, se este se moderasse. Foi uma daquelas afirmações impensadas de quem é muito bom em números, mas tem falta de jogo de cintura política, como foram também os casos de Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite. O que valeu a Cavaco foram os conselhos dos seus assessores, destacando-se entre estes Pacheco Pereira, a caução intelectual do cavaquismo, levando o PSD a obter duas maiorias absolutas, com mais de 50% de votos.

O Chega é o partido populista congregador de nacionalistas e de todos os ressentimentos sociais. Apoiou a pena de morte, que, posteriormente, em referendo interno, foi reprovada, defendeu a prisão perpétua. Enfim, mostrou e mostra querer destruir o Estado de Direito Democrático. São estas posições políticas que lhe dão a força que demonstra possuir nas sondagens, mas também na rua. Caso se moderasse, desapareceria. Se o PSD ganhar as próximas legislativas, não obterá maioria, aliás, as maiorias absolutas de um só partido terão acabado e ainda bem, pois quer o PSD, quer o PS abusaram quando governaram com o apoio de maiorias absolutas no parlamento. O PSD deverá manter o seu papel central na sociedade, coligando-se com forças à sua direita, mas que defendam o regime democrático e políticas sociais, não com forças xenófobas, racistas e de extrema-direita.

Logo vieram vários militantes do PSD, entre os quais Miguel Albuquerque, presidente do governo regional da Madeira, defender, com unhas e dentes, tal aliança, o que seriam dois tiros nos dois pés: tomar o partido pela esquerda e aliar-se à extrema-direita. Fiquei admirado relativamente às posições de Miguel Albuquerque, mas não me espantaram as de outras pessoas, pois após o 25 de Abril, para terem lugar no novo regime, muitos salazaristas aderiram ao PSD e ao CDS, o que um dos homens mais inteligente e culto da direita portuguesa, Jaime Nogueira Pinto, apelidou de “entrismo”. Essas pessoas não mudaram de ideias. Para elas um regime como o de Salazar é que era bom.

Recentemente, foi criado o Conselho Consultivo do Conselho Estratégico Nacional, do qual fazem parte pessoas de boa formação política, intelectual e técnica, como são os casos de David Justino (líder do Conselho), Carlos Moedas, Miguel Poiares Maduro, Pacheco Pereira, Mira Amaral, Miguel Cadilhe, Maria do Céu Ramos, Luis Todo Bom, Daniel Bessa ou Henrique Neto.

Todas estas pessoas se identificam inequivocamente com a social-democracia, algumas são oriundas de sectores da esquerda. Henrique foi do PS, Daniel Bessa foi ministro da economia do governo de António Guterres, na qualidade de independente, tendo passado anteriormente pelo MES (Movimento de Esquerda Socialista), Pacheco Pereira foi dirigente do PCP(m-l) (Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista). Dizer que ele pertenceu ao MRPP é uma fake news.

Na primeira reunião deste Conselho, realizada recentemente em Coimbra, foram defendidos, no essencial, os pontos de vista expressos pelo Conselho Estratégico no final da Primavera, o que ficou espelhado no discurso de encerramento da reunião, proferido por Rui Rio.

Os sociais-democratas esperam que a possível aliança com o Chega seja um “chega para lá”, para esquecer, e o Partido continue na via apontada no seu último congresso.

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