Manuel Silva

Há 50 anos terminava a 4ª classe

No dia 14 de Julho de 1970, o autor destas linhas passava na prova oral da 4ª classe, terminando assim a então chamada escola primária.

Antes dos exames foi feito um exaustivo trabalho de preparação, com os alunos admitidos aos mesmos, pelo Sr. Prof. José Augusto Bandeira Pinho, presentemente emigrado nos EUA. Esse trabalho foi profícuo, pois todos fomos aprovados, de um modo geral, com boas notas.

Foi com enorme alegria que recebi a notícia do fim da minha escolaridade obrigatória.

Conhecidas as notas, tinha a minha querida e saudosa mãe à espera, acompanhada pela Srª D. Alda Bandeira, cujo filho, José Bandeira, hoje professor de História, também acabara a 4ª classe. Ambas estavam radiosas com os nossos sucessos. Sentia-me feliz, por um lado, e triste, pelo outro, pois o meu pai, não chegou a ver-me concluir a 4ª classe. Tinha falecido em Maio do ano anterior.

Do meu tempo de escola primária (1966/1970) tenho boas e más recordações. O meu primeiro professor, nas 1ª e 2ª classes, Sr. Prof. Pereira, e o Sr. Prof. José Bandeira Pinho, nas 3ª e 4ª classes, eram excelentes professores. Já não digo o mesmo, antes pelo contrário, por uma professora que tive durante os primeiros meses da 3ª classe, uma jovem chamada Silvina, a quem apelidámos de “chinesa”, pois tinha os olhos pequenos e não era, certamente, por ter queimado as pestanas a ler as citações de Mao Tsé Tung, então fervorosamente admiradas por jovens da sua idade, estudantes, intelectuais e trabalhadores, como já iremos ver.

Esta professora tinha uma mentalidade tipicamente fascista. Batia constantemente nos alunos. Nesse tempo, havia o chamado chefe de turma, eleito pelos seus colegas para ser o seu pide junto do professor.

Na saída das aulas formávamos duas filas. O chefe de turma ia à nossa frente, a comandar-nos, todos marchando, numa clara preparação militarista para um dia irmos combater na guerra colonial. Hoje, penso que pertenceria à Mocidade Portuguesa feminina. Nunca mais ouvi falar dela, se ainda vive ou não, nem tão pouco me interessa.

Os livros de leitura, da primeira à quarta classe, eram um panegírio ao regime salazarista. As suas capas traziam uns meninos e meninas da Mocidade Portuguesa e outros símbolos da ditadura. As lições versavam sobre a defesa do Portugal pluri-continental e pluri-racial, uma forma hipócrita de engrandecer a política colonial. Um dia, no Rossio, em Lisboa, ao ouvir um ex-comando, pela forma como estava fardado, dizer “vivam todas as raças, mas que seja a raça branca a mandar”, lermbrei-me daquelas historietas que tínhamos de estudar.

Mas também havia lições que nos preparavam para a vida e para sermos solidários, como “O Bom Filho”, que afirmava haver sempre um lugar e um cobertor para o seu pai, em sua casa. Veja-se o que a JSD, no tempo do governo Troika – Passos – Portas, dizia sobre a “peste grisalha”, que trabalhou muito toda a vida para essa juventude que não cresceu ter o que, apesar de tudo, tem, ou “Uma boa acção”.

Na altura, a pedagogia aplicada era a da bofetada, pontapé e reguada. Vi um colega meu com uma orelha esgaçada, a chorar e a gritar intensamente, sendo socorrido no então Hospital de S. Pedro do Sul.

O ensino era exigente. Saíamos da “primária” a saber mais que muita gente que hoje completa o secundário. Mais: muitos dos melhores alunos eram filhos de gente pobre, que não tinha sequer luz eléctrica nas suas casas. Por isso, não venha uma certa “esquerda” caviar e intelectualoide querer nivelar por baixo o ensino, pois quem tem dinheiro vai para o ensino privado e sobe muito melhor na vida, aumentando as desigualdades sociais. São estes os resultados do vosso “socialismo”.

Em 1970, o único estabelecimento de ensino existente em S. Pedro do Sul era o Colégio de S. Tomás de Aquino, privado, assim como privados eram todos os estabelecimentos existentes nos concelhos limítrofes, com excepção de Viseu. Muitos alunos bons ficaram pela simples quarta classe quando tinham possibilidades de ir mais além. Ainda me recordo de uma conversa tida na residência do Armando Salgueiro, infelizmente falecido bem novo, em que a sua mãe lhe dizia “vais fazer a 5ª e a 6ª classe, se for obrigatório, se não fôr, ir ganhar dinheiro”. Tinha apenas 12 anos (mais um ano que eu). Se continuasse a estudar, o Salgueiro poderia ter ido bem longe. Repararam bem na sua idade? 12 anos! Mas tinha de ir trabalhar para ajudar a família. Nesse tempo é que havia trabalho infantil.

Também no nosso concelho houve e há muitos homens (e mulheres) que não foram meninos, como dizia o grande escritor realista Soeiro Pereira Gomes, nos “Esteiros”. Ah, mas tínhamos um dos maiores tesouros e umas grandes barras de ouro que não se sabe onde estão… Pois estão onde sempre estiveram, com excepção de uns meses, no PREC, em que, por segurança, foram confiadas ao Estado Suíço.

Com grande sacrifício de minha mãe e apoio dos meus avós maternos, continuei os meus estudos no Colégio de S. Tomás de Aquino e, posteriormente, no ciclo preparatório e no liceu entretanto instalado, em 1972, em S. Pedro do Sul.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *