Manuel Silva

OS TRABALHOS DE ANTÓNIO COSTA

Quando António Costa anunciou a sua candidatura à liderança do Partido Socialista, na sequência da vitória amarga do mesmo nas últimas  eleições para o Parlamento  Europeu , o então secretário-geral, António José Seguro, tirou da cartola as “primárias” para a escolha do candidato a primeiro-ministro, que ficaram designadas para quatro meses depois.

A intenção de Seguro era ganhar tempo (em política, quatro meses é muito tempo) e/ou esperar que o governo caísse no Verão, o que lhe poderia permitir ser eleito primeiro-ministro.

Crise governamental não houve. Chegou o dia das eleições e os militantes e simpatizantes socialistas mostraram estar fartos da liderança de António José Seguro, pois este,  ao fim de três anos, não mostrou qualquer alternativa válida à política actual, não sendo injusto  considerá-lo o Passos Coelho do PS. Os percursos  e os estilos de fazer política de ambos são semelhantes,  característicos de quem  vem das jotinhas sem qualquer experiência profissional e de vida. Se fossem comunistas  – Passos Coelho ainda passou pelo PCP – dariam, parafraseando Lenine, óptimos revolucionários profissionais…

Os socialistas derrotaram Seguro e o aparelho do partido, dando a António Costa uma explêndida  vitória, com quase  70% dos votos entrados nas urnas.

No país há uma grande esperança em António Costa, até porque a generalidade da população vê a derrota do PSD e do CDS nas próximas eleições  legislativas como uma inevitabilidade,  usando um termo muito caro ao actual governo. Nas sondagens o PS lidera claramente e aproxima-se da maioria absoluta.

As expectativas relativamente a Costa são muitas elevadas, pelo que o candidato a primeiro-ministro pelo PS não poderá desiludir no ano que falta  para as legislativas.

É certo que António Costa tem muita experiência política. Foi ministro em mais que um governo e em várias pastas, sendo actualmente  presidente do município lisboeta.  No  entanto, tal como Seguro, durante a campanha eleitoral interna do PS não foi muito explícito  sobre o que quer para o futuro de Portugal.

Antes de mais, António Costa deverá rodear-se de uma equipa competente, com boa formação política e ideológica, bem como experiência profissional.  Dessa equipa deverá  fazer  parte um número considerável de gente nova entrada na política nas últimas décadas.

Com uma dívida pública que ultrapassa os 130%, um défice ainda nos 4,8% do PIB  (de acordo com o famigerado memorando da troika deveria estar em 2,5% no final  de 2013) não é fácil  acabar com a austeridade,  promover uma política de crescimento económico,  combater o desemprego e demais chagas sociais aprofundadas – e muitas criadas – pelo governo Passos/Portas.  António Costa e o PS deverão bater-se pela renegociação e pagamento prolongado da dívida. Deverão também, nas instituições internacionais, alinhar ao lado das forças opositoras do economicismo actual da UE, que teve origem em Maastricht e outros tratados posteriores.

Há muito que  os partidos socialistas e sociais-democratas se renderam à economia de mercado, mas não ao liberalismo económico. Essa deverá continuar a ser a base da política económica de um governo liderado por António Costa.

A solução não está toda no mercado. Há sectores fundamentais que deverão permanecer, ou mesmo voltar, como  os correios, às mãos do Estado. Contrariamente à pretensão do governo, a água, por exemplo, jamais poderá ser privatizada. Só falta mesmo  estes liberalecos  de trazer por casa defenderem a privatização do ar que se respira !

Os socialistas também não deverão temer, como têm feito, o termo “terceira via”, desde que o mesmo signifique capitalismo na produção, regulado pelo Estado  de Direito, acompanhado de uma distribuição justa do rendimento por empresários e trabalhadores, e de um Estado Social racionalizado, mas garante de direitos como a saúde, a educação e uma segurança social de qualidade para todos. Para tal, há que modernizar os serviços públicos, tornando-os capazes de concorrer com os privados naquelas áreas, como fizeram os governos trabalhistas de Tony Blair no Reino Unido.

O investimento público produtivo é uma necessidade. Sem o mesmo a América, após  as consequências do “crash” da Bolsa em 1929, e a Europa no pós-II guerra mundial,  não teriam saído das crises então vividas, pois foi importante até  para puxar pela iniciativa privada. A propósito, recordamos que os melhores períodos de crescimento e criação de emprego no nosso país após o 25 de Abril foram, com exclusão dos últimos tempos, o cavaquismo e o guterrismo. Naquela época, apesar da liberalização da economia e das privatizações, o investimento público suplantou , e muito, o privado.

Por fim, os futuros responsáveis do PS terão de definir qual a sua política de alianças, caso vençam as próximas eleições sem maioria absoluta. É muito positiva a abertura à esquerda de Costa. No entanto, também  será importante a procura de acordos com o PSD, caso o mesmo volte a ser o partido social-democrata que deixou de ser desde a tecnocracia cavaquista. Os debates e a consequente sementeira de ideias saída dos encontros realizados no ano transacto sob a égide de Mário Soares, que juntaram numa frente rejeicionista do passismo-portismo pessoas de esquerda, desde socialistas ao MRPP , mas também  gente ligada ao PSD e mesmo ao CDS, crítica do governo, porque portadora de grande consciência social, podem ser um ponto de partida, sem excluir outros, para a elaboração de um programa de governo.

São estes os trabalhos que esperam António Costa e quem o acompanhar.Redação Gazeta da Beira

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