Manuel Silva
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA ECONOMIA PORTUGUESA
No 1º trimestre deste ano, o PIB nacional decresceu 3,9% relativamente ao último trimestre de 2019 e 2,4%, em termos homólogos, ou seja, comparado com igual período do ano anterior. Entre Janeiro e Março, o estado de emergência esteve apenas em vigor cerca de duas semanas, pelo que a nossa economia mostrou a sua insustentável leveza, relembrando a obra de Milan Kundera “A insustentável leveza do ser”, pois aquelas duas semanas não justificariam uma tal descida da criação de riqueza. O mal vem detrás.
O responsável por esse mal não é o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, pessoa honesta e que sabe o que faz, coisa rara na maioria dos nossos políticos, mas sim o ministro das Finanças, Mário Centeno, com os seus cortes, cativações e o aumento dos impostos, que impedem o crescimento do investimento público. Até no último ano do governo Passos/Portas este investimento foi superior ao dos anos de Centeno na pasta das Finanças. Bastou o princípio da crise resultante do “coronavirus” para o demonstrar. Em anterior número afirmei que os “nossos” liberais pareciam socialistas. Estes “socialistas” mais parecem liberais. Não esqueçam que os vossos ideais remontam a Marx, Engels, Jean Jaurès e não a Adam Smith e muito menos a Milton Freedman ou Hayek!…
Aguardemos para ver qual será o decréscimo do PIB nos próximos trimestres e no final do ano.
Numa altura em que a todos se pedem sacrifícios, não sendo necessário fazê-lo, pois aqueles já bateram, por força das circunstâncias, à porta da maioria dos portugueses, os mesmos de sempre, Mário Centeno enviou mais 850 milhões de euros para o Fundo de Resolução do Novo Banco, afirmando constar aquela quantia de um contrato e que os contratos são para cumprir (este foi no último dia possível), independentemente de estarem realizadas todas as auditorias. Faltava apenas uma.
Porque não se suspendia este contrato na difícil situação que o país continua a viver em consequência da pandemia? Se António Costa tinha ou não conhecimento atempado do pagamento é uma questão secundária.
Enquanto Rui Rio afirmava alto e com bom som que o crime do BES foi o maior crime de colarinho branco do século e ninguém foi punido, no último debate quinzenal na A.R., o PSD exige saber tudo sobre as imparidades, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa criaram uma cortina de fumo sobre o caso, escamoteando o essencial. Para o fumo ser mais espesso, António Costa disse contar continuar a trabalhar com o P.R. no próximo ano e nos seguintes. Marcelo veio em defesa de Costa e criticar Centeno, afirmando posteriormente que as coisas não eram bem assim. O habitual. Aquelas afirmações foram feitas numa visita à Auto Europa. Alguém duvida que foram combinadas antes entre ambos?
Daqui se deduz que Marcelo Rebelo de Sousa será recandidato a Presidente da República com o apoio de António Costa e do PS. Dias depois, jantou com Rio e elogiou a sua maneira de estar na oposição, ou seja, pretende ser reeleito com o apoio de socialistas e sociais-democratas, o que lhe garantiria uma folgada vitória. O PSD, se apresentasse outra candidatura seriam não um, mas dois tiros nos dois pés.
André Ventura já anunciou a sua candidatura à presidência. Se mais nenhum candidato surgir, poderá obter uma boa votação, pois já ultrapassa o CDS nas sondagens, o que, por sua vez, o lançaria para outros voos, torrnando-se o Le Pen ou o Salvini cá do sítio.
Já se vislumbram outras candidaturas. A direita que não gosta de Marcelo nem de Ventura – sectores do CDS e da ala direita do PSD – estão a pressionar Adolfo Mesquita Nunes (CDS) a avançar. À esquerda, fala-se das candidaturas de Ana Gomes (PS) e Marisa Matias (BE). Seria bom que a esquerda, incluindo os socialistas que não gostam de Marcelo, apoiasse uma candidatura única e que a direita descontente com o P.R. fizesse o mesmo com Adolfo Mesquita Nunes ou outro candidato. Era a forma de tornar a candidatura de Ventura insignificante.
Durante o primeiro mandato, Mário Soares teve uma excelente coabitação com Cavaco Silva, o que levou o mesmo a apoiá-lo na sua reeleição. Se o não fizesse, obteria uma derrota nas legislativas realizadas passados alguns meses. No entanto, no segundo mandato, a coabitação foi o que se viu. Cavaco Silva era conhecido em Belém como “o gajo”.
Se Mário Soares tinha o seu quê de maquiavélico, Marcelo não lhe fica atrás, antes pelo contrário. Basta recordar as suas análises no “Expresso” e no “Semanário”, há umas décadas, nas quais criava factos para dos mesmos tirar aproveitamento.
Marcelo, que tem a sua reeleição garantida, terá um clima de confronto com António Costa idêntico ao de Soares com Cavaco Silva? O futuro o dirá, frase cara ao General António Spínola.
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