Manuel Silva

CORONAVIRUS: Keynes derrota Milton Freedman

A pandemia do “coronavirus”, além de ter provocado um grave problema de saúde, medo e insegurança, a nível mundial, originou uma grande crise económica e social, que apesar de ainda ninguém saber quando será o seu fim, já fez aumentar o desemprego, a fome, a miséria e a destruição de grande parte da classe média no mundo inteiro.

Esta pandemia constituiu, por outro lado, a derrota das teses liberais de Milton Freedman, Hayek, o tal que dizia não ser a justiça social possível, nem desejável, Schumpeter e os teóricos da chamada Escola de Chicago. Estes senhores, inspirados no seu “Karl Marx”, Adam Smith, filósofo e economista do séc. XVIII, achavam que a “mão invisível” do mercado resolveria todos os problemas económico-sociais. O Estado deveria ter um carácter regulador mínimo, pois também se bateram por uma maior desregulamentação.

Alguns houve que até defenderam a segurança social totalmente privada. Um deles, nos anos 80 do século passado, era o então jovem Paulo Portas, inspirado no Chile de Pinochet, que elogiou, à semelhança da sua semelhante Margareth Thatcher.

Pinochet criou um sistema totalmente privado de segurança social, sendo o mesmo implantado no terreno por uns Chicago boys. Quando o Chile regressou à democracia, voltou a ser implantada a segurança social pública, pois a privada estava falida.

Com a crise que se vive, os governos de partidos de direita, centro ou esquerda de todos os países têm recorrido ao Estado para minorar os efeitos da crise, ajudando empresas e trabalhadores, prevendo-se que, na saída da crise, deverá haver um forte investimento público por todo o lado, falando-se mesmo num novo New Deal ou num novo Plano Marshall. Os mecanismos resultantes do acordo de Maastricht, em grande parte inspirado nas teses liberais então em moda, estão suspensos.

Keynes derrotou claramente os neo-liberais, pois defendia um forte investimento público para puxar pelo sector privado. Mais dizia que, em tempos de crise, se deveria gastar mais dinheiro e não menos, mas, em tempos de “vacas gordas”, teria de ser criada uma folga orçamental para tal efeito. Nos governos de Cavaco Silva e de António Guterres, registaram-se os maiores crescimentos económicos das últimas décadas. Apesar de ambos terem diminuído o peso do Estado na economia, através de privatizações, nessa época o investimento público foi sempre superior ao privado. Aliás, Cavaco sempre se definiu como um Keynesiano.

É ver, por outro lado, liberais a defenderem a intervenção estatal e, pasme-se… nacionalizações! Aliás, grande parte do nosso empresariado só é liberal para pagar menos impostos ou comprar empresas privatizadas por preços quase irrisórios, como se verificou durante a vigência do governo troika/Passos/Portas. Quando toca a receber subsídios, mais parecem socialistas.

Onde estão agora Mário Vargas Llosa, Proença de Carvalho, João Carlos Espada, José Manuel Fernandes e tutti quanti, a apontar soluções liberais para a crise que o mundo atravessa? O antigo candidato à Presidência do Perú publicou no jornal espanhol “El Pais” um artigo sobre o “coronavirus”, no qual, no essencial, culpava a China pelo alastrar da pandemia, dado ter escondido, como ditadura que é, durante muito tempo, o propagação do vírus.

Há quem diga que, após a pandemia, o mundo será diferente. Ninguém pode ter certezas quanto a esse novo mundo, no entanto, é agradável começar a ouvir-se falar de economia social de mercado e não apenas “de mercado”, como fez, em entrevista televisiva, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Aliás, na Alemanha, sociais-democratas, democratas-cristãos, verdes e liberais sempre definiram a economia do seu país como “economia social de mercado”. Seria bom se nesse novo mundo houvesse economias mistas, com prevalência da iniciativa privada, para que fosse mais justo que o mundo em que vivemos.

Outra questão que se levanta é a do possível avanço do populismo, especialmente da direita radical. Até este momento não é visível. No dia em que escrevo, quando se comemora o 46º aniversário da Revolução do 25 de Abril, nos grandes centros os portugueses vieram às suas janelas cantar a “Grândola, Vila Morena”.

Em 25 de Abril de 1945, era o fim do fascismo na Itália. Hoje, comemorando essa data, o povo cantava nas suas casas a “Bella Ciao”, hino dos anti-fascistas italianos que, com a ajuda dos Aliados, derrotaram Mussolini e o regime fascista. Não se viu ou ouviu qualquer canto fascista. De Salvini nem se ouve falar.

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