Manuel Silva

O DIA SEGUINTE

 

Os factos não deixam de existir só porque os ignoramos.

Aldous Huxley

 

Nos anos 80 do século passado, em plena guerra fria, no ano de 1983, foi exibido o filme “Day After”, “Dia seguinte”, que versava sobre os efeitos de uma guerra nuclear.

A União Soviética ocupava Berlim Ocidental. Toda a NATO ocorreu em força na defesa daquela cidade. Os soviéticos lançam uma pequena bomba nuclear contra o quartel general da NATO. Segue-se uma guerra nuclear, com uma enorme destruição. No entanto, finda a guerra, o dia seguinte é terrível para os sobreviventes.

Actualmente, diz-se que estamos empenhados numa guerra contra o “coronavírus”. A esse propósito, disse, em Lisboa, a uma reportagem televisiva, um antigo combatente: “guerra? Guerra vivi eu no Ultramar, isso é que era guerra”.

De facto, é excessivo falar em guerra relativamente ao “coronavirus”. Está-se, sim, perante uma luta pela defesa da saúde de todos e de cada um de nós. Guerra, o próprio nome o diz, implica violência, ódio sem limites ao inimigo, tiros, bombardeamentos, mortes, incluindo de populações indefesas, velhos e crianças.

Curiosamente, todos os políticos, analistas e comentadores que chamam guerra à luta presente contra o COVID-19, nunca estiveram em teatro de guerra, senão não falavam com esta ligeireza.

Todo o país está empenhado na batalha e deve apoiar políticos, médicos, enfermeiros, farmacêuticos, bombeiros e toda a gente que se encontra na primeira linha. No entanto, há que recordar uma série de factos pelos quais há responsáveis. Como dizia o escritor inglês que viveu muitos anos nos EUA, Aldous Huxley, “os factos não deixam de existir só porque os ignoramos”.

Quando o vírus chegou à Europa e ao resto do mundo ocidental, já se previa, há meses, que tal aconteceria. Os responsáveis políticos, deve dizer-se, só após a casa assaltada, deitaram trancas à porta. Poderia, naquele período, ter sido preparada toda a logística para o ataque à doença, mas tal não se fez porque o desinvestimento na saúde tem sido geral. Em Portugal desinvestimento tem outro nome: cativação. É curioso Mário Centeno estar tão calado nesta altura…

Toda esta situação tem origem no acordo de Maastrich, que, com tanto rigor, provoca um crescimento económico aquém do necessário, o que se reflecte na saúde.

António Costa afirmou recentemente que não tem faltado nem faltará nada no combate à doença, no que foi logo desmentido pelos bastonários dos médicos, dos enfermeiros e dos farmacêuticos, que enumeraram uma série de falhas que põem em risco os seus associados na luta contra o vírus.

Marta Temido, ministra da saúde, quer proibir os autarcas de divulgarem o número de infectados nos seus concelhos. Está-se perante um acto de censura típico de um regime totalitário ou autoritário. Qual é o objectivo da ministra? Esconder o número real de infectados? Uma notícia que circulou no fim de semana da Páscoa afirmava ser o número de testes positivos superior ao número de infectados fornecidos por Marta Temido e Graça Freitas.

Também naquele fim de semana circulou outra notícia, segundo a qual, um terço dos portugueses perdeu rendimentos em menos de um mês de estado de emergência.

Ninguém sabe quando esta crise terá fim. Quanto mais tarde acontecer, pior vai ser a situação económica, a maioria do pequeno comércio e da pequena indústria fechará portas. Muitos portugueses, incluindo pequenos e médios empresários estarão desempregados ou em estado de insolvência. A dívida e o défice irão disparar. Ainda que os critérios apertados acima mencionados não voltem tão depressa, as dívidas ficam para pagar. Se a classe média levou um arrombo aquando da crise das dívidas soberanas, agora levará outro arrombo bem maior. Provavelmente, muita gente passará fome. A fome generalizada que estava esquecida. Poucos são os vivos que a conheceram, mas os nossos antepassados contavam-nos a enorme miséria e fome que então se passava.

Passadas muitas décadas, a generalidade das pessoas vive melhor. Poderá passar por dificuldades, mas não passa fome. Se a História se repetir, haverá imensas revoltas e assaltos, nomeadamente a supermercados. A fome que se passava nos outros tempos, por toda a Europa, aliás, foi acompanhada de guerras, combates de rua e casa a casa entre comunistas e fascistas, tendo sobrevivido poucas democracias.

Este será, provavelmente (oxalá me engane) o dia seguinte à pandemia.

Já em 1983, quando o FMI interveio em Portugal para evitar a bancarrota, estando no poder o governo Soares-Mota Pinto, no primeiro número do hoje extinto “Semanário”, o seu director, Vitor Cunha Rego, dizia, em editorial, “a feira popular do MFA acabou na sopa dos pobres do FMI (…) Se não se tomarem medidas urgentes, quando acabar o dinheiro deixado pelo anterior regime, o destino que espera o nosso povo será a fome”. Mais escrevia que em tal situação, será difícil viver em regime democrático, pois “não há legitimidades abstractas”. É bom que os políticos de todos os partidos não pensem apenas no imediato e reflictam bem nas medidas que terão de ser tomadas no dia seguinte.

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