Manuel Silva
PCTP/MRPP à beira da cisão

O Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP) está à beira da cisão, pois, segundo documentos do seu Comité Central (CC) publicados no órgão central (Luta Popular on line), quatro dos seus membros, Carlos Paisana, Maria Paula Matos, Adelaide Teixeira e Regina Andrade, foram destituídos de todas as funções no partido. O líder dos cisionistas será Carlos Paisana, o militante mais antigo, logo a seguir à fundação do MRPP em 18 de Setembro de 1970 e o único “sobrevivente” no partido da EDE (Esquerda Democrática Estudantil), fundada em 1968 pelo então estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, Arnaldo Matos – em 1968/69 foi eleito presidente da sua Associação de Estudantes -, futuro líder do MRPP desde a primeira hora.
Após a morte de Arnaldo Matos, em 22 de Fevereiro de 2019, o Comité Central publicou um comunicado jurando fidelidade aos ensinamentos do Camarada, como era carinhosamente tratado Arnaldo Matos no partido, procurando a unidade na prossecução da política até aí seguida.
Depois das últimas eleições legislativas, por acção de Carlos Paisana e seus seguidores, a unidade quebrou-se. Nos partidos comunistas não há direito de tendência. Segundo a concepção leninista do partido o trabalho orienta-se pelo “centralismo democrático”, segundo o qual os escalões inferiores se submetem aos superiores e todos ao Comité Central. Não são permitidos grupinhos organizados, a trabalhar cada um à sua maneira, provocando a falta autoridade da direcção partidária. Esta prática era qualificada por Lenine como “policentrismo”.
Segundo o noticiário vindo a lume no “Luta Popular”, Carlos Paisana não aceita a política seguida pelo Comité Central. Por exemplo, foi decidido que toda a informação e tomadas de posição serão inseridas única e simplesmente no jornal acima referido. Carlos Paisana e o seu grupo, contra a política geral do partido, usam as redes sociais e a net para esse efeito, apesar de proibidos pela maioria da direcção. Um dos princípios da concepção leninista do partido é também o da submissão da minoria à maioria. Nenhum militante pode ter publicamente posições pessoais. As suas posições são as determinadas pelo órgão dirigente ou outro organismo inferior.
Carlos Paisana, há algum tempo, apresentou, por e-mail, a sua demissão do Comité Central. Sendo marcada uma reunião para, entre outros assuntos, discutir a sua atitude, tendo sido convocado para a mesma, não comparecendo. Por telefone, foi novamente convocado, recusando-se a estar presente. A maioria dos dirigentes decidiu destitui-lo de todas as suas funções e ordenar-lhe a entrega de um relatório autocrítico, no prazo de 5 dias. A reunião em causa foi realizada no dia 10 de Novembro passado.
O trio feminino seu aliado, Maria Paula, Adelaide e Regina, pedem a não realização da reunião sem a presença do seu chefe, quando o tinham ouvido recusar comparecer. Queriam ainda alterar a agenda da reunião. Como as suas posições foram chumbadas, desertaram da mesma, o que, para a ideologia comunista constitui uma atitude liquidacionista, fraccionista e revisionista. Com base nesses pressupostos, aquele grupo de senhoras foi também destituído de funções, sendo-lhes comunicado que deveriam apresentar relatórios autocríticos no prazo de 3 dias.
Para a linha vencedora do CC, com o seu comportamento estão a tentar paralisar o centro dirigente, procurando assaltar o partido, aproveitando-se da não existência de um líder. Mais: Carlos Paisana considerar-se-á o substituto natural de Arnaldo Matos. Todo este comportamento é próprio de um cacique e, para quem conhece os métodos de trabalho marxistas, claramente anti-comunista.
O quarteto afastado continua no partido. Creio que a sua expulsão será uma questão de tempo. Numa reunião evocativa do 43º aniversário do PCTP, realizada no passado dia 26 de Dezembro, o Comité Central, em comunicado emitido, trata aquele grupo como a “clique de Carlos Paisana”, afirma que “a corja liquidacionista de Garcia Pereira tem continuidade nesta corja”.
Alguns militantes chamam-lhes, entre outros nomes, “traidores revisionistas”, o pior que se pode dizer a um comunista, “dejectos burgueses a serem esmagados como uvas num lagar”.
Aquando da campanha eleitoral para as legislativas de 2015, a direcção do MRPP da altura contraiu na CGD um empréstimo, no valor de
100 000 euros, que não foram pagos, tendo o banco penhorado a conta que o partido lá tem. Citado este para deduzir oposição, Carlos Paisana recusou ser advogado do partido naquela execução, para além de, com Garcia Pereira, o ex-secretário-geral Luis Franco e Domingos Bulhão (pelo menos estes), ter sido uma das pessoas que assinou o contrato de empréstimo.
Por motivos menores, muita gente foi expulsa do PCTP/MRPP. Quando se fazem afirmações como as acima mencionadas sobre militantes, estes estão condenados à expulsão.
Conheci muito bem Carlos Paisana em outros tempos, fiz muito trabalho político com ele e sob a sua orientação. Após a minha saída do partido sempre mantive uma grande consideração por ele, mas já nessa altura sabia que cometia bastantes erros, sendo constantemente sujeito a críticas, por vezes severas, especialmente por parte de Arnaldo Matos.
Foi, com Garcia Pereira, responsável pela demissão de Arnaldo Matos de secretário-geral e membro do CC, em 1982.
Quando o grupo de Garcia Pereira foi suspenso por ordem de Arnaldo Matos, em Outubro de 2015,estava integrado no mesmo Paisana. Depois de mais uma profunda autocrítica, mantinha-se no CC.
Carlos, provavelmente não lerás este artigo, a não ser que busques na internet o que sobre ti se diz. É lamentável que, com mais de 70 anos, estejas à beira de seres expulso do partido a que tanto deste. Mas se isso acontecer, a culpa é tua. A tua ambição levou a que chegasses a este ponto.
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