Manuel Silva
A REVOLTA DOS POVOS
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem – Bertolt Brecht
Os leitores menos jovens ainda se devem lembrar da telenovela brasileira “Roque Santeiro”, passada na RTP há mais de 30 anos.
Uma das personagens mais destacadas era a viúva Porcina, amante de Sinhôzinho Malta, o “manda-chuva” lá do sítio. Há uma cena, quando Porcina era criança, em que vai, com a sua mãe, pessoas bem pobres, a atravessar uma mata, na qual vêem um lagarto corpolento. A mãe disse à filha que iria matar o lagarto para o comerem. Porcina fica horrorizada, ao que a sua progenitora pergunta “vê mais alguma coisa para comer aqui, menina?”. Esta responde que não. O lagarto acaba por ser morto e assado em brasas ali improvisadas. Quando comiam o animal para matarem a fome, Porcina diz que até sabia bem.
Eis que chegam dois homens de aspecto rude, munidos de dois varapaus, preparando-se para roubarem o que ainda restava do lagarto para também saciarem a fome. A mãe da menina puxa de um facalhão para se defender. Só que, os dois homens bateram-lhe com tanta força com os varapaus na cabeça, que a mataram, aproveitando para comer o resto do lagarto enquanto Porcina chorava e abraçava o corpo morto de sua mãe. Esta cena impressionou-me, pois mostra a que ponto pode o desespero da fome conduzir.
Tudo isto vem a propósito da queda do muro de Berlim há 30 anos e da revolta dos povos na América do Sul e na Catalunha, embora aqui por outros motivos.
Quando caiu o muro de Berlim e desapareceram os regimes comunistas, num editorial publicado no “Semanário”, o seu então director, hoje falecido, Vitor Cunha Rego, fazia um aviso à navegação ao sistema capitalista, dizendo que lá por ter acabado o comunismo, não se pensasse que o capitalismo poderia voltar a ser o sistema amoral, ganancioso e explorador que foi no seu início. Em outro editorial, Cunha Rego dizia que “a luta de classes sempre existiu. Karl Marx apenas a teorizou”.
No leste, impuseram-se políticas económicas liberais sem qualquer período de transição, que conduziram ao aumento da inflação em espiral (na Polónia os preços aumentaram 300%!), à criação de desemprego que antes não existia e pioraram as condições de vida das populações. Resultado: alguns anos depois, os partidos comunistas ou ex-comunistas, convertidos ao socialismo democrático e à social-democracia, regressavam ao poder através de eleições.
No resto do mundo, o “pensamento único” neo-liberal aumentou as desigualdades sociais, destruiu partes importantes da classe média e criou mais pobreza e miséria. Como também dizia Vitor Cunha Rego aquando do início da globalização, esta serviu para o mundo passar a ser dominado por 500 multinacionais. Há dúvidas de que assim foi?
Está aqui a explicação para a revolta dos povos na América do Sul. Na Argentina, o governo liberal de Maurício Macri e o FMI destruiram a economia, provocando um enormíssimo desemprego e o aumento da pobreza e da miséria. Já vimos este filme em Portugal mais de uma vez. Nas ruas de Buenos Aires dormem milhares de pessoas.
O povo argentino deu a devida resposta a Macri e ao FMI, elegendo recentemente o peronista Alberto Fernández Presidente da República, sendo eleita para o cargo de Vice-Presidente Cristina Kirchner, ex-presidente, viúva do também antigo PR Néstor Kirchner. Os Kirchner, como todos os peronistas, a começar por Juan Peron, foram um corruptos e cleptocratas. Daí os argentinos, nas últimas presidenciais, elegerem Macri, tendo-o agora derrotado, pois durante os anteriores governos corruptos sempre viviam melhor.
No Equador e no Chile, que é o país com melhor nível de vida na América do Sul, os aumentos de preços dos transportes conduziram à revolta de milhares de pessoas. Na Bolívia, a batota eleitoral que manteve Evo Morales na chefia do Estado conduziu a graves confrontos. Aqui, como na Venezuela, estamos perante o falhanço do chamado socialismo do século XXI.
Em França, há bem pouco tempo, os coletes amarelos fizeram várias e grandes manifestações, levando o presidente Macron a capitular em relação às exigências da rua.
Na Catalunha, os separatistas têm grande apoio popular. Num referendo ilegal, é certo, a maioria dos votantes quis a separação de Espanha. O governo do PP e, agora o de Pedro Sanchez, em vez de dialogarem com as autoridades catalãs eleitas pelo povo, a fim de se chegar a uma solução que poderia passar por maior autonomia para aquela nacionalidade, participou criminalmente contra os legítimos governantes catalães, sendo boa parte deles condenados a pesadas penas de prisão. Por acaso, na guerra civil espanhola de 1936/39, em Barcelona, os fascistas franquistas, de quem o PP é herdeiro, mataram e massacraram, nas ramblas, muitos milhares de republicanos.
A comunidade internacional tem o dever de condenar este comportamento das autoridades espanholas e exigir a libertação imediata dos presos independentistas.
Por aqui se vê que o capitalismo sem alma, que cada vez mostra mais os dentes, e o novo socialismo latino-americano faliram. Então e não há alternativa a estes modelos? Que saudades deixa a terceira via do trabalhista Tony Blair, que tão bons frutos deixou no Reino Unido!
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