Manuel Silva

A escadaria descendente

Na anterior edição de “Gazeta da Beira”, no artigo intitulado “Elevador Social”, falávamos numa escadaria por onde as pessoas subiam, que se estreitava à medida que se aproximava o seu ponto mais alto. Essa escadaria desembocava num primeiro andar, cuja porta era muito estreita, havendo muitos encontrões para lá entrar. Esta parte do artigo era uma alegoria de Vitor Cunha Rego ao cavaquismo.

Desde Passos Coelho a António Costa a sociedade actual compara-se a uma escadaria descendente. No primeiro andar, salvo algumas excepções, continua a ser difícil entrar, havendo ainda mais encontrões. Grande parte dos que se empurram e entram, também desviam fundos europeus, mas além disso, levaram bancos à falência, envolveram-se em privatizações muito duvidosas e a preços claramente baixos para o mercado, indo parar a mãos estrangeiras as empresas vendidas e encontrando-se algumas à beira da falência. Veja-se, por exemplo, o caso da Cimpor. Só que, hoje, a justiça tem mexido com importantes interesses.

No tempo de Cavaco Silva, a parte de baixo da escadaria era larga. Hoje, com as mesmas dimensões, é estreita, porque está muita gente a descer, especialmente a classe média. Nos últimos degraus ainda há alguma gente, os trabalhadores que recebem o salário mínimo e os reformados com pensões mais baixas, cuja vida melhorou (com o governo de António Costa) e bem, mas a maioria da população continua com um rendimento baixo.

Uma das bandeiras do PS é o défice ser, presentemente, de 0,5% do PIB, mas à custa de uma das mais elevadas cargas fiscais da Europa e das cativações de Mário Centeno que provocaram o caos em boa parte dos serviços públicos.

Vem agora António Costa prometer o que não fez em 4 anos, quando a situação económica nacional e internacional era boa. Vai ser feita uma grande revolução nos transportes, vai-se apostar na melhoria das condições climáticas, na diminuição das desigualdades. Mas para isso, é necessário dinheiro. Ora, o PS diz não baixar os impostos. Então como atrair investimento privado quando a generalidade dos países europeus tem uma fiscalidade mais baixa que a nossa? Como aumentar o investimento público quando a economia nacional e internacional esfria? Tudo leva a crer continuarmos a evoluir na continuidade, como diria o Professor Marcelo Caetano, relativamente à legislatura que está a chegar ao fim.

Rui Rio apresentou uma série de propostas para fazer crescer a economia e melhorar os salários e pensões.

O IRC baixará 4% nos próximos 4 anos, serão mexidos os escalões do IRS, para diminuir este imposto na classe média e na classe baixa, o IVA será reduzido para 6% no gás e na electricidade, haverá incentivos fiscais às pequenas e médias empresas que reinvistam os seus lucros e melhorem os salários dos seus empregados, existirão incentivos fiscais para empresas que optem por investir no interior e haverá estímulos às exportações.

Pensará o leitor: mas com esta baixa de impostos, não se irá agravar o défice e a dívida pública? Pelo contrário, medidas destas fazem crescer a economia e o emprego, melhorando as receitas orçamentais. Por outro lado, serão cortados benefícios fiscais que já não se justificam. Desta forma, a escadaria poderá voltar a ser ascendente, devendo, no entanto, combater-se a corrupção, para acabar com os encontrões na entrada do primeiro andar, passando-se para este por mérito e não por compadrio e nepotismo.

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