Manuel Silva
Reencontro com um velho amigo e ex-camarada
Quando, há perto de 30 anos, abandonei o PCTP/MRPP, enviei a minha carta de demissão ao então director do seu jornal, “Luta Popular”, do qual era também colaborador, Leopoldo Mesquita.
As cartas de demissão, por princípio, deveriam ser remetidas ao Comité Central (C.C.). Como a minha dissidência tinha começado com uma discussão com o director do órgão central do partido e também dirigente do C.C., entendi “despedir-me” através da sua pessoa.
Quando trabalhei em Lisboa, nos anos 90 do século passado, vi Leopoldo Mesquita duas vezes na rua. Não me aproximei dele, porque certamente não entenderia nem apreciaria o gesto. Quem saía era considerado um traidor. Aliás, durante o último encontro que tive com o meu “controleiro” da altura, hoje também dissidente do partido e meu amigo novamente, o mesmo disse-me: “o partido decidiu considerar-te inimigo. És um inimigo do partido. Estás proibido de entrar em sedes e outras instalações do partido. Não te dirijas mais a nenhum de nós, pois ninguém te voltará a falar”. Por acaso, enganou-se quanto à última parte da conversa . Alguns (poucos) militantes do PCTP/MRPP continuaram a ter bom relacionamento comigo.
Ainda hoje agradeço ao Carlos Paisana, um histórico do partido, membro do actual C.C. e director do “Luta Popular”, a estima com que me tratou no meio da turbulência que conduziu à minha saída em meados dos anos 80, ao fim de uma década de militância. As rupturas com partidos marxistas-leninistas são sempre muito dolorosas.
Passados todos estes anos, sabia que o Leopoldo Mesquita, acima referido, natural da Covilhã, era professor e vivia na Guarda. Continua no Comité Central e foi, por várias vezes, cabeça de lista pelo seu partido, em eleições legislativas, no distrito de Viseu.
Várias pessoas amigas e conhecidas de ambos me haviam dito que se o encontrasse lhe falasse, pois ele faria o mesmo comigo.
Nos últimos dias do passado mês de Agosto, estando em gozo de férias em Aveiro, cidade onde também trabalhei durante três anos, reencontro-o (como o mundo é pequeno) numa esplanada de um café na praia da Barra.
Dirigi-me àquele antigo camarada. Já não me conhecia. A passagem do tempo tem destas coisas. Quando me identifiquei, ficou satisfeito em me reencontrar. Tivemos um diálogo franco e aberto como amigos. Sem ressentimentos. Sabia que eu tinha estado no PSD. Eu também sabia que ele sabia. Informei-o das minhas posições políticas actuais e que não pretendo voltar a fazer parte de qualquer partido.
A conversa andou à volta da situação política nacional e internacional, mas também de aspectos pessoais das nossas vidas. Trocámos os nossos números de telemóvel.
Enfim, ficámos, de novo, grandes amigos, apesar de nos encontrarmos em campos políticos e ideológicos diferentes, embora tenhamos em comum a luta contra o neo-liberalismo e as injustiças inerentes à economia que mata, mas desse lado também o Papa Francisco está.
Senti-me feliz por este reencontro e por voltar a ser amigo de um Homem com quem aprendi muito quando ambos éramos jovens. Mais uma vez , como me disse há muitos anos, um tio seu, ligado ao PSD, avô de Adolfo Mesquita Nunes, dirigente do CDS e actual secretário de Estado do Turismo, Leopoldo Mesquita mostrou ser uma pessoa com “bom fundo”.
Agora, que a nossa amizade se encontra reatada, aparece, Leopoldo.
E minha saídaRedação Gazeta da Beira
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