“Manhouce e a 5ª Festa da Vitela de Lafões”

Uma localidade a visitar em qualquer época do ano

Texto e fotos de Aníbal Seraphim.

 

MANHOUCE engalanou-se no passado fim-de-semana de 12 e 13 de Maio para receber a 5ª Festa da Vitela de Lafões.

Um evento que cada ano que passa supera as expectativas e cada vez mais se afirma na região. Não é assim obra do acaso que foi finalista das 7 Maravilhas de Portugal na categoria de Aldeias Rurais.

Uma região que sabe receber bem os visitantes e mostrar o que de melhor a terra tem, o património, a paisagem, a gastronomia e as suas gentes com os seus usos e costumes, como foi demonstrado no famoso e cativante Cortejo Etnográfico integrado no programa das festas.

A aldeia possui um belo património material, o seu ancestral centro histórico onde não faltam locais de interesse como as suas eiras, espigueiros e casas de granito com telhados de ardósia. No património religioso a Igreja Matriz e a Capela do Sr. dos Enfermos são locais que merecem uma visita, tal como o património histórico existente na freguesia, como é o caso das várias Mamoas pré-históricas, vestígios de um povoado fortificado habitado durante a Idade do Ferro, um castro, arte rupestre da Idade do Bronze num afloramento granítico. Da Era Romana e pela sua importante presença na região, destaca-se a Ponte de Manhouce e a da Barreira, bem como a calçada romana integrando a Estrada Imperial Via Cale que ligava Emérita Augusta (Mérida) a Bracara Augusta (Braga). Vestígios da atividade mineira poderão ser encontrados nas Minas de Chás, local onde era extraído o Volfrâmio e o Tungsténio. Segundo os estudos à época da II Guerra Mundial a volframite tinha um índice de pureza superior às das outras minas das regiões vizinhas.

Da história menos longínqua, Manhouce é uma localidade sensivelmente a meio caminho entre o Porto e Viseu, sendo assim um local privilegiado para a pernoita das antigas atividades dos recoveiros e almocreves. Tendo sido um excelente ponto de intercâmbio sociocultural de usos e costumes que enriqueceram a região em várias vertentes. Daí que no património Imaterial, o canto polifónico feminino e os cantares dos jovens, que são também um ex-libris de Manhouce, não só pelas sonoridades e letras cantadas mas também pelos seus trajes tradicionais, na etnografia dos trajes reflete-se a influência que o Douro e a Beira Litoral deixaram na cultura local, fruto da convergência da “estrada dos almocreves”.

Paisagisticamente, Manhouce encontra-se inserido no Maciço da Gralheira que pela ocasião da Festa da Vitela pinta-se de amarelo e roxo para presentear os visitantes com uma cor agradável ao olhar e que em dias de sol, como no fim-de-semana da edição deste ano, resplandeceu luxuriosamente perante o azul do céu e das esporádicas nuvens. O património paisagístico é enriquecido pela passagem do ponto mais alto de um dos mais belos rios de montanha, vales apertados e escarpados, o Rio Teixeira! Um dos mais bem conservados da Europa, que combina a harmonia da vegetação verde com a cor da rocha polida pela erosão, o ocre. Sobressaem assim as cascatas naturais que com as suas quedas de água formam piscinas naturais e poços. Merece uma cuidada visita na Ribeira de Manhouce o Poço da Gola, na Ribeira da Vessa os Poços Cilha e da Barreira e ainda o belíssimo grande lago de água transparente e cascata do Poço Negro, que bem perto tem uma mini-hídrica e um parque de merendas. Igualmente encontrará parques de lazer junto à Ponte de Manhouce e da Barreira.

O programa da 5ª edição da Festa da Vitela de Lafões, iniciou-se com uma caminhada matinal de 13 km de distância que compreendeu o Percurso PR-1 Rota de Manhouce. Foi um bom começo de programa para abrir o apetite ao que a seguir viria, a degustação das iguarias após a abertura do espaço de restauração.

Ao almoço foram servidas as refeições nos stands de restauração aderentes ao evento, que registaram muita afluência e fizeram as delícias de quem se deslocou para apreciar os pratos confeccionados, predominantemente à base da Vitela de Lafões, bem como outros pratos alternativos e ainda os petiscos e as sobremesas. Para acompanhar o delicioso repasto havia vários vinhos da região, sumos e água.

Às 14h30 foi realizada a cerimónia de abertura oficial da Festa. E os stands que circundavam o recinto da feira deram a conhecer a diversidade que a região tem para oferecer com artesanato, mostra e venda de produtos e gastronomia locais.

Da esquerda para a direita, Capoulas Santos, Vítor Figueiredo e Carlos Laranjeira

O ponto alto do dia estava reservado ao Cortejo Etnográfico “Usos e Costumes de Manhouce” que contou com a Ilustre presença de representantes ao mais alto nível Ministerial e local. Contou ainda com uma considerável afluência dos habitantes locais e de visitantes que vieram de vários pontos do país. De assinalar, a presença de um casal Inglês e outro Francês além de outras pessoas que estariam a passar uns dias nas Termas e não quiseram perder a oportunidade de assistir a um cortejo único. Para isso, alguns dos visitantes recorreram ao serviço de transportes gratuitos disponibilizados pela organização.

“Gente que fica na memória da gente”

 

Cortejo Etnográfico “Usos e Costumes de Manhouce”

Junto ao Cruzeiro, o Grupo de Vozes de Manhouce deu início ao cortejo com uma breve explicação do historial do grupo bem como das tradições. E presenteou o público com uma portentosa actuação liderada pela famosa Isabel Silvestre, que fazia antever uma fabulosa harmonia de cânticos pelas paragens nos locais emblemáticos de Manhouce que conduziu os visitantes numa viagem no tempo pela perfeita envolvência do núcleo antigo da aldeia com as sonoridades que ecoavam nos locais. Tal como no Cruzeiro, junto à Igreja, nas Alminhas e no Parque junto ao Rio foram palcos de belíssimas actuações por parte do Grupo de Vozes.

Atuação do Grupo de Vozes de Manhouce

O Rancho Folclórico da Casa do Povo de Manhouce atuou na Eira do Pedro enquanto decorria a Desfolhada e a Malha do Milho, o que imprimiu uma cadência rítmica e sentida a essa tradição. Era visível no rosto dos visitantes a satisfação do que estavam a vivenciar e acompanhavam o ritmo da música e do malhar no milho com as palmas que batiam. De realçar também a atuação que levaram a cabo no Espaço do Futuro Museu os mais jovens do Rancho Folclórico.

Os Jovens de Manhouce ofereceram ao público uma verdadeira e romântica serenata que fez suspirar alguns dos visitantes. Tocaram e cantaram músicas tradicionais no Largo do Pinho, o Cantar de Reis no Adro da Igreja e homenagearam na Casa do “Tio Silva” António Lourenço da Silva, conhecido por Mestre Silva, fundador dos “Cantares de Manhouce”.

Nos usos e costumes, os visitantes tiveram agradáveis surpresas como a hilariante representação do “Serra à Belha” em que do alto da Capela são anunciadas ou denunciadas histórias que comprometam algumas habitantes da aldeia. Neste caso, o orador fazendo uso do seu enorme funil azul, imitando um megafone, apenas comentou algumas passagens de humor que resultaram em gargalhadas por parte do público.

A Eira da Portinha foi palco de uma Esgalhadela, tosquia de carneiro e demonstração do tratamento e trabalhos com a lã. No Largo da Escola foi feita uma apresentação de junta de vacas e transporte de alfaias agrícolas, nas Alminhas mostra de um rebanho e na Carvalha do Pedro uma demonstração de como se lavra e prepara a terra com a ajuda de uma junta de animais. Estes usos e costumes foram acompanhados pelos cânticos dos grupos participantes, o que deu um realce cénico que fez sentir com mais intensidade as actividades, tal como aconteceu na paisagem junto ao rio, em que as lavadeiras fazendo uso dos movimentos ancestrais de lavagem de roupas no rio recriaram um ambiente de outras épocas.

A Eira da Portinha foi palco de uma Esgalhadela, tosquia de carneiro

 

A malha do milho

Rancho Folclórico da Casa do Povo de Manhouce

Mas o cortejo não estaria completo sem a representação do cozer do pão na Casa da Caetana em que a grande afluência do público não resistiu a provar o pão acabado de fazer. E antes do Arraial Festivo no Largo da Taresa, nas Eiras, havia a degustação de produtos regionais como o queijo, o mel, o pão, entre outros produtos e as popularmente conhecidas sopas de vinho.

Terminado o cortejo e já no palco do recinto da festa, iniciaram-se os discursos em que usou da palavra o Presidente da Junta de Freguesia de Manhouce, Carlos Laranjeira, o Presidente da Câmara de São Pedro do Sul, Vítor Figueiredo e por fim discursou o Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Luís Capoulas Santos.

No final do discurso, os presidentes e Ministro encaminharam-se para os stands dos produtos e fizeram uma visita stand a stand, acompanhados por Isabel Silvestre e por outras individualidades locais e regionais. E tiveram ainda a oportunidade de visitar a exposição “Manhouce, 80 anos de tradição 1938-2018”, possuidora de um rico espólio, e observar uma tecedeira a laborar.

Grupo de Vozes de Manhouce com Isabel Silvestre

Em palco atuava o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Manhouce que foi um belíssimo som de fundo durante as visitas e deixava no ar o perfume Manhoucense de final de tarde e a abrir o apetite para os petiscos que os restaurantes aderentes ao evento estavam já a preparar.

O programa das concertinas da noite já se fazia anunciar e pelo recinto da festa já se via e ouvia o Grupo de Concertinas dos Vouguinhas.

Para domingo, o programa foi rico em animação com a transmissão em direto no programa “Somos Portugal” da TVI. Mas também era dia do concurso pecuário “V Concurso de Raça Arouquesa de São Pedro do Sul”. E dia da tradicional e sempre com grande afluência, “Chega de Bois”. Presente durante a festa está a exposição de animais.

Mas gastronomicamente, Manhouce não se restringe apenas à Vitela à Lafões, a rainha festa. Apresenta também algumas variantes como a Vitela Assada à Manhouce. Como prato principal há o Escoado (ou escoada) que é também conhecido como Cozido Beirão, diversas Açordas como a de Cebola, a Russa e a de Pão Fervido. Nas Papas e Sopas as variedades são as Papas de Carreloiro e Sarrabulho e as Sopas Secas. Para a sobremesa, as Rabanadas, o Carrocho e o Leite-creme. E o Pimpões de Manhouce, conhecido por ser a merenda que as crianças levavam para a escola, é feito com ovos, leite, farinha de trigo e milho, mel e óleo para fritar.

Manhouce… Uma localidade a visitar em qualquer época do ano.

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