Luís Ribeiro

ÉTICA E ÁGUA

 

• Professor associado c/ agregação do Instituto Superior Técnico, UL, Vice-Presidente da Associação Fragas-Aveloso

Factos e Números

A água é essencial à vida. Onde existe água há vida. Cerca de 75% da superfície da Terra está coberta por água; desta, 97% é água salgada e somente 3% é água doce; da água doce, 69% encontra-se nos glaciares, 30% é água subterrânea e 0,3% é a água dos rios, lagos e albufeiras, o que significa que 99 % da água doce não está acessível para as nossas necessidades e somente 1% poderá ser utilizada, e desta, uma grande percentagem é água subterrânea que se encontra armazenada em grandes profundidades e por isso praticamente inacessível, sendo que apenas 0,0067% é água superficial.

O ciclo hidrológico descreve o movimento contínuo da água superficial e da água subterrânea. Para compreender os processos hidrológicos e gerir de uma forma adequada os recursos hídricos, o ciclo hidrológico deve ser observado a várias escalas espaciais e temporais. A precipitação, que é a fonte de praticamente toda a água doce no ciclo hidrológico, ocorre em quase todos os lugares, mas a sua distribuição é altamente variável assim como as taxas de evaporação e de transpiração, as quais variam consideravelmente de acordo com as condições climáticas. Como resultado, grande parte da precipitação nunca atinge os oceanos, como escoamento superficial e subterrâneo, antes de a água ser devolvida à atmosfera.

No que respeita ao tempo de renovação da água no ciclo hidrológico, estima-se que o tempo completo de renovação do oceano seja de 2.500 anos, o da água subterrânea de 1.400 anos, o do gelo polar 9.700 anos, o dos glaciares da montanha 1.600 anos, o dos lagos 17 anos e o da humidade atmosférica 8 dias (Shiklomanov, 1996). As condições climáticas influenciam fortemente a extensão destes tempos de renovação.

O uso humano da água é multifuncional e pode ser classificado em: «abastecimento» (água para produção de alimentos, plantas e medicamentos), «regulação» (proteção contra inundações, controle de erosão, tratamento natural da qualidade da água) e «uso cultural e social» (património cultural, paisagem, investigação científica).

O uso doméstico mundial da água é de cerca de 15%., incluindo a água potável, uso nos banhos e na cozinha, saneamento e outros serviços domésticos. Gleick et al. (2006) estimaram os requisitos básicos de água para uso doméstico em cerca de 50 litros por pessoa por dia, excluindo água para jardins; destes 50 litros, 2 litros seriam para beber, 20 litros para serviços de saneamento, 15 litros para higiene/banhos e 10 litros para cozinhar.

Para além das utilizações domésticas, a água tem um papel insubstituível na preservação dos ecossistemas. Este uso explícito de água no meio ambiente é uma pequena mas crescente percentagem do uso total da água, sendo considerado não consumptivo – o que é cada vez mais relevante à medida que que a visão ecocêntrica se destaca nas políticas de planeamento e gestão de recursos hídricos. O confronto entre uma visão antropocêntrica e uma visão ecocêntrica gera cada vez mais problemas éticos (está no cerne da discussão sobre a ética da água) que a adopção de legislação específica, como é o caso da Diretiva-Quadro da Água Europeia, tem ajudado a resolver.


Referências:

GLEICK, Peter H, WOLFF, Gary H., COOLEY, Heather, PALANIAPPAN Meena, SAMULON, Andrea, LEE, Emily, MORRISON, Jason, KATZ, David, The World’s Water 2006-2007 – The Biennial Report on Freshwater Resources, Washington, Island Press, 2006.

SHIKLOMANOV, I.A., Assessment of water resources and availability in the world. Scientific and Technical Report. St. Petersburg, State Hydrological Institute, 1996.

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