Luís Ribeiro*

Ética & Água (V)

As sociedades indígenas não atribuem à água uma avaliação económica. Ao contrário daqueles que veem na água um elemento para fins produtivos, especialmente para a indústria e agroindústria ou para o desenvolvimento urbano e turístico, os povos indígenas consideram a água a origem da vida, das plantas, dos animais, dos seres humanos de toda a criação. Este cenário coloca sobre a mesa a necessidade de reconhecer as representações cosmogónicas e espirituais das sociedades indígenas à volta da água e as suas contribuições para uma visão mais equilibrada para a sua utilização e conservação. Neste sentido, embora as concepções ocidentais e indígenas dos recursos hídricos sejam origem de conflitos, também podem ser um factor de complementaridade e cooperação, susceptíveis de induzir estratégias de desenvolvimento sustentável (Garcia, 2009).

Recentemente a Carta Encíclica Laudato Si, emanada da Igreja Católica, adoptou uma outra visão mais humano ecocêntrica propondo uma leitura diferente das relações do Homem com a Natureza. Inspirada no Cantico delle creature de S. Francisco de Assis o qual cita no seu início «Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras» a encíclica alerta para o esgotamento actual dos recursos naturais denunciando os principais problemas que afectam a sociedade moderna no que respeita às políticas hídricas:

 

«A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos.

Grandes cidades, que dependem de importantes reservas hídricas, sofrem períodos de carência do recurso, que, nos momentos críticos, nem sempre se administra com uma gestão adequada e com imparcialidade.

Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de grave escassez.

Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tornando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos.

Uma maior escassez de água provocará o aumento do custo dos alimentos e de vários produtos que dependem do seu uso.

 Os impactos ambientais poderiam afectar milhares de milhões de pessoas, sendo previsível que o controle da água por grandes empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste século».

 

Hoje é forçoso retirar algumas lições sobre as causas do desastre ambiental dos bens comuns essenciais para a vida, como é a água, em particular, sobre a hegemonia e o culto da tecnologia «moderna» como uma solução única para a gestão da água, a sua dissociação cultural das dimensões e contextos ecológicos e a fragmentação da matriz sociocultural da água, compromete a visão holística e abrangente, privilegiando a privatização de um bem comum num cenário de globalização e mercado livre, submetendo a dimensão cultural à dimensão económica; ou seja, sobre a água como uma mercadoria e bem privado (Vargas, 2006).

 

Referências :

GARCÍA, P.A., Comentario al libro Cultura hidráulica y simbolismo mesoamericano del agua en el México prehispánico de Teresa Rojas, José Luis Martínez y Daniel Murillo, edición Jiutepec, Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social (CIESAS) e Instituto Mexicano de Tecnología del Agua (IMTA), 2009: pp. 298.

VARGAS, R., La Cultura del agua: Lecciones de la América Indígena, Montevideo, UNESCO, Serie Agua y Cultura del PHI-LAC Nº 1, 2006.

• Luís Ribeiro – (*)Professor associado c/ agregação do Instituto
Superior Técnico, UL / Vice-Presidente da Associação
Fragas-Aveloso

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