Luis Pinheiro de Almeida*

Jornalista e Oficial do COPCON (1)

Edição 801 (11/03/2021)

A minha primeira grande reportagem no estrangeiro foi em Novembro de 1975, tinha 28 anos e apenas dois de jornalismo. Como baptismo de fogo, não poderia ter sido menos eufórica: a turbulenta independência de Angola.

Foi uma viagem épica, histórica e bizarra, mas que poderia ter acabado de uma forma mais simpática.

Fui enviado pela agência ANOP, Agência Noticiosa Portuguesa, (para dizer a verdade, voluntariei-me) juntamente com o meu camarada Gonçalo César de Sá, actualmente a viver em Macau, onde lidera uma agência de notícias de economia, Macaulink, uma referência no território.

Embarcámos no dia 09 de Novembro de 1975 no último Boeing 747 dos TAP, vulgarmente conhecido como Jumbo, que já procedia de Cabo Verde. Era também a primeira vez que viajava num aparelho daquele porte.

O avião não ia cheio e eu e o Gonçalo éramos os únicos brancos a bordo. A viagem decorreu normalmente, mas à aproximação a Luanda sentimos um movimento de passageiros que não era normal, mas ao qual não ligámos importância.

Só quando o trem tocou o solo, pudemos ver pelas janelas arredondadas do aparelho um grande movimento militar com soldados de armas apontadas para o Jumbo.

“Isto começa bem!”, comentámos, mas nada mais aconteceu. Eu e o Gonçalo saímos pacificamente, sem qualquer incómodo, mas alguns passageiros foram detidos pelas forças militares.

Só mais tarde, foi-nos dito que tinha havido uma tentativa de desvio do avião parece que para o Zaire, mas que a segurança do MPLA, à civil, tinha controlado os putativos insurrectos.

À época, Portugal vivia o chamado PREC (Processo Revolucionário Em Curso), com um certo esquerdismo a tomar conta de algumas rédeas do poder. A indisciplina grassava nos quartéis, o poder civil não tinha mãos.

A minha própria situação pessoal era um tanto bizarra, só possível naqueles tempos. Exercia a minha profissão de jornalista, na ANOP, e, simultaneamente, cumpria o serviço militar obrigatório como alferes miliciano no gabinete de Otelo Saraiva de Carvalho no COPCON (Forte do Alto do Duque, Lisboa). Impensável, hoje em dia!

E foi na condição de jornalista e de militar que embarquei para Luanda. Guardo ainda, religiosamente, a credencial da ANOP que solicita às autoridades locais “todas as facilidades para o cabal desempenho da missão”.

Guardo também o “passaporte militar” que me foi passado pelo COPCON para “gozar 5 dias de licença em Angola. Tinha de me apresentar até às 09H00 do dia 13 de Novembro, mas como veremos fui obrigado a antecipar o prazo.

Na dupla qualidade de jornalista e de militar fui portador de duas mensagens para o poder que emergia da independência.

A da ANOP rezava assim:

“Camarada Presidente Agostinho Neto, Povo de Angola

“Trabalhadores da Agência ANOP vêm por este meio e nesta hora gloriosa para os povos ainda oprimidos de todo o Mundo e para o povo angolano saudar o 11 de Novembro, data da independência conquistada pelo heróico povo angolano que de armas na mão lutou contra o colonialismo português e luta agora, com igual coragem e determinação, contra o imperialismo internacional.

“Trabalhadores da ANOP solidarizam-se em absoluto com a luta do povo angolano e com a sua vanguarda, o MPLA, reafirmando a sua firme determinação em transmitir uma correcta e revolucionária informação sobre a revolução angolana.

“O MPLA é o Povo, o Povo é o MPLA.

“Uma terra e uma só nação sob a bandeira do MPLA, a luta continua, a vitória é certa”.

A do COPCON, assinada por Otelo e pelo COPCON, era bem mais curta:

“Camarada Presidente Agostinho Neto – Luanda

“Gloriosa data independência povo angolano irmanados luta sua completa liberdade, fraternal abraço, saudações revolucionárias”.

Tempos revolucionários de há 45 anos.

(continua)

*Jornalista



 

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