Luís Pinheiro de Almeida
O livro de Cuba

Uma vez mais, os títulos da imprensa mundial ditam a razão de ser deste meu cantinho. Depois da Faixa de Gaza, é agora a vez de Cuba.
Visitei Cuba, como turista, de 29 de Agosto a 05 de Setembro de 1996, ainda Fidel Castro era vivo, mas a viagem acabou por configurar um acto político que, se tiver talento, explico porquê.
Na minha juventude universitária – anos 60 – fui grande fã da revolução cubana, de Fidel Castro e, sobretudo, de Che Guevara.
Fui a Cuba porque a Teresa ganhou uma viagem numa sabatina sobre os GNR e a ilha sempre foi um sonho pelo que, obviamente, aproveitei.
Embarcámos em Lisboa num voo charter da Cubana de Aviácion (CU 9785) e aterrámos 9 horas depois no aeroporto de Havana (José Martí). Para fugirmos ao tradicional Varadero, marcámos uma semana de férias em Cayo Largo que se inaugurava nesse Verão, não sem que, claro, tivéssemos reservado uns dias em Havana. Obrigatório!
Logo no dia seguinte, dia 30, primeiro em Havana, fui roubado pelo método do “esticão”. Um jovem, de mota, a uma velocidade razoável, mas com grande habilidade, levou-me a mochila, onde tinha tudo (passaporte, bilhete de regresso a Lisboa, dinheiro, máquina fotográfica… fiquei depenado!). Foi a primeira vez que fui alvo de um roubo deste género e logo num país socialista e pior, na mais famosa rua – a calle 23 – por onde Fidel entrou vitorioso em 1959. Nem queria acreditar. O que se passou a seguir dava um fantástico filme.
Sem documentos, resolvi fazer queixa na Polícia, o que dava outro filme, este cómico. Da esquadra, levaram-me num Trabant onde eu tinha de segurar a porta se não caía no chão e fomos a um bar buscar um outro polícia, que era necessário ao processo, e que estava a curtir a noite. A esquadra não tinha formulários pelo que escreveram a queixa num papel rasgado (ver imagem) e mandaram-me a outra para carimbar.
Fomos naqueles “rickshaws” tradicionais no Oriente, mas, azares dos azares, a segunda esquadra, afinal, não tinha carimbos. Para encurtar uma história longa, do hotel enviei um fax para a embaixada relatando o sucedido e solicitando um título especial de viagem que me permitisse sair de Cuba e lá seguimos para uma esplêndida semana de férias em Cayo Largo. Estávamos no início de uma tímida abertura do turismo cubano ao exterior, uma espécie de “primavera marcelista”. Até andámos nos transportes especiais para cubanos e fomos a festas populares, confraternizámos com o povo.
De regresso a Havana no dia 04 de Setembro fui à embaixada levantar o “passaporte especial” e fomos para o aeroporto apanhar o CU 9784, mas, surpresa das surpresas, as autoridades alfandegárias não me deixaram embarcar com o argumento de que a minha foto não tinha o selo branco português. Fui obrigado a ficar mais uma noite em Havana e a custear o meu regresso (mil dólares, com dinheiro emprestado).
Teria muito mais para contar, mas já estou na linha vermelha. As autoridades cubanas pediram-me desculpa e a “minha compreensão” pelo sucedido, mas até hoje, 25 anos depois, não fui ainda ressarcido pelos prejuízos.
29/07/2021

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