Luís Pinheiro de Almeida*
“Don’t worry America, Israel is behind you” (02)
“Don’t worry America, Israel is behind you” (02)
As Forças Armadas Israelitas foram criadas em 1948 e são hoje em dia um dos exércitos mais poderosos do Mundo. O serviço obrigatório é de três anos para os homens e de dois para as mulheres solteiras. Os árabes não são obrigados ao serviço militar de Israel, mas quem o quiser pode fazê-lo.
O juramento de bandeira é feito no Muro das Lamentações e cada soldado, além da arma pessoal que não largará mais nos três anos seguintes, recebe também uma Bíblia.
Mas não é só o serviço militar que confunde o turista desprevenido. Tudo em Israel confunde: a co-habitação pontual de árabes e israelitas, a co-existência das três principais religiões monoteístas do mundo, o deserto verde, os conflitos violentos, as matrículas dos automóveis, o sinistro bairro dos judeus ultra-ortodoxos, a miséria de Gaza, estar e não estar em Israel.
À primeira vista, um israelita não se distingue de um árabe. Só se distinguem por uma de duas maneiras: ou pelos símbolos tradicionais que vestem ou pelos automóveis que conduzem, Se guiam um carro de matrícula amarela é israelita. Se guiam um carro de matrícula azul ou verde são árabes. As azuis correspondem à Cisjordânia, as verdes à parte ocupada de Jerusalém.
As matrículas azuis e verdes andam à vontade em Jerusalém, mas as amarelas, devido à Intifada, não vão aos territórios ocupados.
A peregrinação católica em que me integrei, em 1992, por livre vontade, desejou naturalmente ir a Belém, local de nascimento de Cristo. Só que Belém, uma espécie de Algés de Lisboa em termos de distância, fica no território ocupado. Logo, toca de mudar de um autocarro de matrícula amarela para um de matrícula azul, para que a Intifada (arremessar de pedras, entre outras violências) se não abatesse sobre os pobres peregrinos da paróquia de Rio Maior.
Mas ir a Gaza foi mesmo uma aventura. Consegui convencer o motorista da peregrinação a arranjar-me um táxi de matrícula árabe e com guia também árabe. “Olhe que são 300 dólares, aquilo é muito perigoso, são precisas autorizações, não é nada fácil”.
Com um calor infernal, lá fui para Gaza, deixando para trás, de olhos arregalados, todos os meus companheiros de peregrinação. Se eu já era um ET no meio daquela excursão, então devo ter passado a ser um “perigoso comunista”. Foi, pelo menos, o que terá pensado o guia judeu da excursão e já explico porquê.
A viagem de Jerusalém até Gaza demora uma hora, mais ou menos. À entrada da cidade, o controlo militar da cidade não incomoda. Nem me pergunta quem eu sou, nem me pede quaisquer documentos. Só fala em hebraico com o meu guia árabe. Fico espantado. O que incomoda, e muito, é o cheiro nauseabundo dos arredores de Gaza.
São toneladas e toneladas de lixo com pessoas a viver lá por dentro. Não consigo sequer abrir as janelas do táxi para, ao menos, tirar uma fotografia daquela merda toda.
Todos os carros têm matrícula branca. O meu era o único de matrícula verde. E os brancos não podem sair da cidade. Se querem sair do controlo militar, têm de deixar o carro e meter-se noutro amarelo, azul ou verde. Uma grande confusão!
Gaza não tem nada que se diga. Não se vê um único israelita, soldado, polícia ou civil. É tudo árabe a viver a sua própria vida. Uma vida miserável, diga-se de passagem. Os israelitas não se intrometem. Apenas fazem vigilância militar para o exterior, para o Mediterrâneo e nas entradas.
Só aguentei duas horas na cidade. Vi campos militares israelitas, vi campos da ONU, vi praias de merda. Vi um supersónico a voar raso na costa. Tirei poucas fotografias. “Não deixe que lhe vejam a máquina”. Não falei com ninguém e saí de Gaza com a sensação de “grande estúpido”, sem perceber nada do território.
À saída, o soldado israelita ainda me pergunta pelo passaporte, mas como demorei tanto tempo a encontrá-lo, mandou-me seguir. A Gaza que eu vi não era nada daquilo que a gente vê na televisão.
Para sair de Israel é que foi o bom e o bonito. O guia judeu da excursão católica, que deveria ser da Mossad, apesar de, durante toda a excursão se ter mostrado um tipo afável e com sentido de humor, denunciou-me às autoridades do aeroporto e lá fui eu para um apertado interrogatório com o chefe de segurança.
“O que foi fazer a Gaza? Sabe que é proibido? Tinha autorização? Foi à censura militar? Tem computador pessoal? Escreveu notas? Falou com alguém? Entrou em casa de alguém? Porque quis ir a Gaza? Para onde escreve? O que é a Lusa? É religioso ou é jornalista? Se é jornalista porque veio numa excursão de religiosos? Se é religioso porque lhe interessam as coisas políticas? É um infiltrado na excursão?”.
Fui dos últimos a entrar no 747 da El Al de regresso a Lisboa depois de muitas desculpas pelo interrogatório.
*Jornalista
15/07/2021

Comentários recentes