Luís Pinheiro de Almeida*
JORNALISTA E OFICIAL DO COPCON (2)

Luanda era uma cidade perigosa, insegura, militarizada. A guerra civil estava às portas da capital, ouviam-se perfeitamente os bombardeamentos. Tudo era muito difícil, alimentação, mobilidade, acesso à informação.
O Gonçalo César de Sá e eu ficámos no Hotel Trópico, o “melhor” da cidade, na rua Luís de Camões, hoje rua da Missão, não muito longe do largo de Kinaxixi, onde o MPLA tinha colocado um tanque de guerra como se fosse um monumento.
“O Trópico era óptimo. A comida era horrível, mas estávamos em cima dos acontecimentos. Do hotel ouvíamos o fogo de artilharia da FNLA, de Holden Roberto, em Quifangondo (batalha da Estrada da Morte). Apoiada pelos sul-africanos, a FNLA queria ocupar Luanda antes da proclamação da independência no dia 11 de Novembro”, lembra-se Gonçalo, quatro décadas depois.
Andávamos muito assustados e, sobretudo, muito nervosos. A tensão era grande, Luanda era um “cidade-fantasma” ocupada militarmente pelo MPLA. Os portugueses já tinham regressado a Portugal, a população local estava mobilizada para a guerra.
Sublinha Gonçalo: “apesar de ter vivido a guerra em Moçambique, na zona de Tete, em 1971 e 1972, como alferes miliciano, estes ataques apenas a 30 quilómetros de Luanda inspiravam muito respeito”.
A situação militar era de tal forma dramática que a cúpula do MPLA chegou a ponderar a hipótese de antecipar para 07 de Novembro a independência do novo país, relatou o jornalista australiano Wilfred Burchett. “Com a independência nas mãos, o MPLA poderia então solicitar ajuda externa, nomeadamente da União Soviética e de Cuba. A ideia viria a ser abandonada para não coincidir com a revolução bolchevique”.
Passear por Luanda era pois uma missão quase impossível, tal o perigo. O enviado do Diário Popular, Acácio Barradas, escreveu que chegou a temer pela sua vida.
E aconteceu o que nenhum de nós estava à espera: “o incidente que provocou a nossa expulsão de Angola pelo MPLA”, lembra Gonçalo.
“Com um grupo de jornalistas estrangeiros, estávamos na esplanada do hotel quando surgiu uma coluna de automóveis, apoiada por viaturas militares a escoltar um Citroen DS, conhecido como ‘boca de sapo’, que subia a rua.
“Era o carro que Agostinho Neto usava e com todo o aparato, só podia ser ele que estava no interior.
“De repente, a partir de um edifício junto ao hotel, é disparada uma série de tiros. O atirador foi rapidamente dominado e levado por forças militares que já incluíam cubanos e que circulavam pela cidade fortemente armados.
“Sem hesitação, eu e o Luís corremos para o telex dos correios. Escrevemos a notícia num velho telex, não me lembro do tom, mas a ideia era a de que tinha ocorrido um atentado, sem consequências, contra Agostinho Neto.
“Depois de a notícia já estar em Lisboa, olhámos um para o outro e concordámos: fizemos merda, estamos lixados”
Ainda tentámos suster a notícia, mas de Lisboa só nos davam os parabéns pela “cacha mundial”, que tínhamos batido todas as agências internacionais que estavam em Luanda.
Só que o MPLA não gostou da “cacha mundial” de dois jovens e inexperientes jornalistas portugueses e pôs-nos no avião de regresso a Lisboa.
“Vocês tiveram muita sorte de não terem sido presos. Se tivessem sido, poderiam ter desaparecido para sempre”, conta Gonçalo César de Sá, citando um militar que nos escoltou.
Após longos anos de investigação, consegui finalmente, em Fevereiro de 2021, entrar em contacto com o militar do MPLA que chefiou a escolta que nos levou ao avião de regresso a Portugal.
“Tenho uma vaga ideia de que, para vossa segurança e por ordens do Departamento de Informação e Propaganda, fui acompanhá-los até ao aeroporto, na companhia de outros camaradas”, disse-me, por “messenger”, Rogério Simões Júnior, agora general do MPLA na reforma e “actualmente a trabalhar na área dos diamantes” em Luanda.
“Não sei a razão específica, mas na altura estávamos a viver uma fase conturbada de guerrilha urbana generalizada. Fui o garante da vossa segurança”, fez questão de sublinhar Rogério Simões Júnior, que pertencia ao corpo de segurança pessoal de Agostinho Neto, ainda sem patente, porque não existiam nas FAPLA.
*Jornalista
15/04/2021

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