Luis Machado Luciano

O que é um médico do interior dum país sem interior, ou será médico sem interior num país com interior?

Vou contar como era, talvez não estivesse bem como estava, mas também como está mal.

Voltemos a 1968, à Primavera Marcelista, já por mim referida em descrições anteriores.

“ Chovia brando. Lançava-se a semente na esperança de nascer e vir a dar fruto. Quando nascia, as ervas daninhas incomodavam a sementeira a abafá-la e impedir as plantas de florir.”

De Moçambique tinha regressado Baltazar Rebelo de Sousa que, de Governador-geral naquela Colónia, aceitou ser o Homem forte da Saúde apoiado num bom projeto do Prof. Gonçalves Ferreira:

1- Rede Hospitalar tentando cobrir todo o Portugal

2- Apetrechamento mínimo das estruturas necessárias

3- Definir Carreiras Médicas Hospitalares e de Saúde Pública

Criado o esqueleto, devia ser posto a funcionar, ou seja:

Conhecida a Anatomia havia que estudar a Fisiologia, isto é o seu melhor funcionamento, reconhecendo a fisiopatologia para se poder corrigir os desvios impeditivos dos objetivos a atingir, ou seja o sucesso.

Em Lisboa, exibia-se toda uma estrutura consolidada de Carreiras Médicas Hospitalares, só para poucos, produto duma seleção cuidada de médicos, em número reduzido, para exercício de especialidades e muito selectiva. Ser interno dos Hospitais Civis de Lisboa era bom. Num artigo que escrevi dizia: “foi bom ser interno dos Hospitais Civis de Lisboa”, porque esse tempo já tinha passado.

Como ia dizendo, Baltazar Rebelo de Sousa vinha com ideias de nova gestão, onde a alegria de viver, o acreditar na cultura e em ensino novo e muito renovado o seduziu. Já começava a dar frutos, convencendo todos os que por lá passavam, e a incomodar o poder em Lisboa. Algo se estava a passar.

Baltazar Rebelo de Sousa, em discurso feito aos écrans da Televisão, talvez no ano de 1968, traçava planos e convidava técnicos qualificados a embarcar na aventura de irem ocupar quadros vagos ou a criar nas estruturas do Serviço Nacional da Saúde das grandes cidades, no chamado interior.

Foi assim que se abriram concursos para especialidades médico-cirúrgicas em Hospitais distritais mediante concursos rigorosos e de âmbito nacional enquadrados nos já praticados há muitos anos para preenchimento de vagas nos Hospitais Civis de Lisboa.

Estes concursos eram altamente seletivos por serem muito exigentes na qualidade e saber dos candidatos. Para exemplo direi que no meu concurso de acesso a interno dos Hospitais Centrais de Lisboa, em 1964, para servir uma população de 4.500 doentes hospitalares, foram abertas 200 vagas para internos gerais. Destes internos eram seleccionados, durante 5 anos, quadros para todas as especialidades mediante sucessivos novos concursos.

Deste modo chegava-se a Graduado na especialidade escolhida, que tinha número de vagas reduzido. Esse grau dava equivalência a especialista reconhecido pela Ordem dos Médicos, permitindo o exercício daquela especialidade com averbamento no respetivo colégio da especialidade da Ordem.

Com toda esta seleção e exigência para exercer a actividade médica nos hospitais designados distritais, abriram, nesse ano de 1969, abriram concurso na especialidade de cirurgia geral para 9 lugares em trinta e cinco (35 ) hospitais. É a essa especialidade que me refiro a seguir.

Como em mim havia gosto de trabalhar e executar o muito que tinha aprendido nos Hospitais Centrais de Lisboa, onde, na altura, já era Graduado de Cirurgia no Hospital dos Capuchos, no serviço 6, resolvi concorrer para uma das escassas 9 vagas para as quais creio que só se habilitaram 35 concorrentes.

Após a publicação da classificação no concurso, por desistência do primeiro classificado passei a ser o primeiro na escolha e optei por integrar o quadro do hospital de Setúbal, chamado Hospital de S. Bernardo

Vim depois a saber que todos os outros concorrentes, querendo manter-se nas grandes cidades, tinham desistido, preferindo manter-se como graduados nas estruturas das grandes cidades, portanto como subalternos.

Os Hospitais eram então, em grande parte, das Misericórdias. Poucos eram do Estado. Tendo sido edificados recentemente, cumpriam o programa de renovação do Serviço Nacional de Saúde, onde se estava a implementar as carreiras médicas hospitalares.

Esses hospitais foram entregues à administração das misericórdias locais, que tinham prática ancestral de gerir misérias e favores. Era prática cheia de vícios, de pressões familiaridades, cunhas e sobretudo favores políticos, que não foram ultrapassados pelo do 25 Abril.

Levou cerca de dois anos o acerto final das classificações e a disponibilidade de orçamento para os lugares postos a concurso para permitir a tomada de posse.

Em Outubro de 1971 fui chamado para, de acordo com a classificação e o mérito relativo decorrente do concurso de habilitação referido, escolher hospital.

Escolhi Setúbal para onde me desloquei. Fui recebido pelo chefe da Secretaria que me informou que o vencimento definido para o grau de assistente hospitalar da carreira médica hospitalar era de 4.700 escudos. Não sei se a definição do vencimento terá sido feita pela Mesa da Misericórdia.

Ouvi e escrevi no documento correspondente: “ Faço opção pela vaga no Hospital de Setúbal. Contudo só tomarei posse depois de resposta a exposição que entregarei no gabinete do Senhor Ministro da Saúde ”.

Na exposição referi ser médico, de 37 anos de idade, casado, com três filhos e ter ouvido palestra recente do Ministro da Saúde. Que isso me levou a optar por Setúbal para ocupar a vaga ali aberta a ser preenchida mediante concurso público nacional e de acordo com as classificações decorrentes desso concurso. Mas nesse hospital deparei com circunstâncias impeditivas de exercer  aí a função de médico –  A renda de casa já acordada seria de 2.500 escudos, a que acresciam as despesas necessárias à manutenção da família recém chegada à cidade.

Informei que no documento de opção por Setúbal tinha posto a reserva de só tomar posse após a resposta do Senhor Ministro à exposição que lhe enviei, da qual fiquei a aguardar decisão coerente com as razões expostas e corretas ideias dele, ministro .

O documento foi reenviado para a Direção Geral dos Hospitais, onde fui chamado semanas depois, tendo sido recebido pelo Diretor- Geral. Mostrou-se embaraçado. Deu sugestões de solução para possibilitar a sobrevivência da minha família, tal como ajudar outros colegas em atividade particular, sugerindo que a ajuda fosse ao ortopedista do Outão, que não era da carreira médica por ser quadro da assistência Nacional aos Tuberculosos.

Ouvi e respondi: O senhor doutor não está a entender que sou quadro qualificado da carrreira médica hospitalar para exercer a minha competência em hospitais distritais, onde não há quadros qualificados e muitos deles foram integrados em especialidades com equivalências discutíveis. Vou desempenhar lugar cimeiro da Carreira Médica Hospitalar. Não estou a querer soluções para a subsistência da minha família.

O Senhor ficou sem saber que responder. Pediu-me para aguardar ser contactado sobre o assunto.

Talvez dois meses depois tive novo contacto tendo sido recebido por ele com muita abertura. Disse-me: O senhor chefe do Gabinete do Ministro da Saúde quer recebê-lo, tendo já marcado a hora.

Agradeci e desloquei-me ao Gabinete do Ministro da Saúde, onde o Chefe de Gabinete me recebeu e, com ar muito satisfeito, Disse: o seu requerimento foi devidamente apreciado e despachado a seu favor, atribuindo-lhe um subsídio de fixação de 11 mil escudos

Agradeci e acrescentei: não sei se sabe que sou médico dos serviços Médico-Sociais da Caixa de Previdência de Lisboa há sete anos. Seria adequada a minha transferência para a Caixa de Setúbal. Isso permitiria a minha fixação em Setúbal, sem ter que me deslocar a Lisboa para dar continuidade ao contrato naquela instituição, onde perderia regalias já adquiridas. O Senhor pensou e disse: Mas as estruturas da Previdência têm autonomia Distrital e, como tal, não interferindo umas nas outras e sendo as decisões da responsabilidade do Presidente desses serviços. Respondi-lhe: Diga ao Senhor Ministro que isso é o justo.

Muito gentil retirou-se, regressando pouco depois com ar satisfeito, disse: Tudo resolvido; o seu Pai não é o Governador civil de Ponta Delgada? Esclareci: O meu Pai já morreu há muitos anos, mas se dá jeito para resolver o assunto diga que sim.

Diz-me ele: Setúbal depende do Dr. Cunha que diz conhecer o seu pai. Pode amanhã apresentar-se em Setúbal, que a transferência para a Caixa de Setúbal será feita.

Assim fiz e senti no Dr. Cunha algum espanto, quando me apresentei, talvez por não ser parecido com que ele achava ser meu pai.

No dia 15 de Abril de 1974 instalei-me em Setúbal, transportando toda a pouca mobília e a já muita família. Nessa tarde, sem luz, dormimos em casa nova, em ambiente diferente, pedindo a um jovem vizinho, também recentemente chegado, para me colocar uma lâmpada no teto da sala, onde toda a família dormiu.

Era um jovem engenheiro da EDP de quem nos tornámos amigos durante os poucos anos que viveu, que morreu muito novo.

A partir desse dia choviam telefonemas, perguntando como tinha conseguido o subsídio. Respondia que lamentava que os colegas tivessem aceitado o vencimento proposto pelas Misericórdias e tomado posse. O subsídio que me foi atribuído veio a ser atribuído a todos os médicos colocados em iguais circunstâncias e passou a constar da lei.

Na manhã de16 de Abril 1972 dirigi-me à secretaria do Hospital que era então administrado pela Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, sendo atendido pelo Chefe da Secretaria, rapaz novo e simpático, mas parecendo atrofiado por chefias autoritárias. Logo encontrámos o Diretor clínico que aguardava tomada de posse devido a questiúnculas internas ainda não resolvidas, por impedimentos ou implicações políticas das estruturas do poder local. Observou-me discretamente, aparentando cortesia forçada. Olhou para mim, estendeu, a mão mole e perguntou: É o colega que vem para a cirurgia com subsídio de fixação com que não concordo?

Começou à cacetada. De imediato respondi que ainda bem que o Senhor Ministro da Saúde não lhe tinha pedido opinião. Continuou: Muito gosto em recebê-lo.

Pegou em papéis que trazia, creio que para despachar alguém. Mas ali nada se despachava, que tudo vinha despachado de cima. Todos eram marionetes a dizer mal uns dos outros, ou prejudicando quem, sendo sério, os incomodava.

Estive alguns dias a adaptar-me, contactando com os poucos colegas que conhecia e com quem já tinha falado antes de decidir ir para o “interior”.

Todos os dias me arrependi de ter ido para fora da grande Lisboa. Depois todas as semanas, mais tarde mês a mês, até que deixei de me arrepender. Passaram-se 46 anos. Fiz boa escolha. Realizei a minha vida com sucesso no “interior” do País.

Voltando à chegada a Setúbal: Na semana seguinte fui chamado a reunião médica. Na sala de reuniões sentia-se clima tenso, sem ideias e sem nada a comunicar, a não ser diretivas emanadas do poder central de que tinham que aceitar a direção do Diretor Clinico. Na reunião foi anunciada, sem entusiasmo, a minha chegada. Ninguém olhou para ver quem eu era, que os políticos locais de certeza já tinham informado não ser “dos deles”, mesmo que nada soubessem de quem acabava de chegar. Acabada a sessão, apenas um colega, diretor dum Serviço de Medicina, me apertou com firmeza a mão. Apresentou-se: muito gosto em conhecê-lo.

Foi meu amigo para sempre e colega exemplar. Posteriormente vim a relacionar-me com todos os outros com estima e excelente entendimento.

Resolvi depois pedir ao Instituto de Alta Cultura equiparação a bolseiro, que de imediato me foi atribuída. Assim segui para Barcelona onde fiz formação em Gastrenterologia no Curso anual do Hospital de Santa Cruz e San Pablo sob a direção do eminente Professor Villardel na área das endoscopias e perineoscopias.

Eram atitudes novas de procurar diagnóstico em observação direta, adivinhando-se grande evolução no diagnóstico e na prática clinica, primeiro com endoscópios rígidos, permitindo observação direta, embora limitada.

Posteriormente deu-se a grande revolução da fibroscopia ótica, ultrapassando com imensa vantagem a limitação da endoscopia rígida na sua insipiente utilização,  hoje  completamente desaparecida, embora se tivesse podido manter útil em mãos hábeis, no caso de lesões baixas, dispensando custos muito elevados no orçamento da saúde.

A noção da correta utilização dos necessários meios auxiliares de diagnóstico foi sempre defendida pelo Prof. Villardel, mestre notável na sua sabedoria e na autoridade em questões de decisão e mando. Para mim foi de grande utilidade. Abriu-me os olhos para a falta de cultura quanto a exigência de formação em novas áreas técnicas nos ditos Hospitais Centrais, talvez assim chamados por estarem no Centro, não se sabe de quê.

Regressei de Barcelona a Setúbal mais atento à realidade da escolha que fiz, do caminho por que optei.

A 25 de Abril de 1974 surge “o 25 de Abril”. Haviam decorrido dois anos depois de chegar a Setúbal. De convulsão em convulsão a nova realidade foi estabilizando.

Saltaram à vista os anteriores problemas e os ódios recalcados nas gerações passadas entre as pessoas, os avós, os pais.

Em meios pequenos é necessário ultrapassá-los, estando descomprometido com o passado até se estabilizar organização funcional.

Fui eleito várias vezes para lugares de mando que tentei sempre usar sem desforra ou azedume.

Houve de tudo, saneamentos, intrigas para afastar outros, pressões externas e movimentos populares, medos, vinganças, até fugas para o Brasil!

Na rua, nas salas e nos comícios havia zaragata e percebia-se a raiva da população. Houve confusão, tiros e mortes por mim já relatadas em artigos anteriores. Invasão do Hospital com desconfianças nunca bem esclarecidas , mas sempre resolvidas.

Relembrei as atitudes que senti quando entrei no Hospital, que traduziam pergunta a não expressa por palavras: ” O que vens aqui fazer quando a terra é nossa?”

Tentei a concórdia e perceber o que se estava a passar. E tudo passou como sempre passa, passando.

Foi muito pedagógico tudo a que assisti. Hoje penso: Como foi possível compatibilizar amores e desamores?

O serviço médico à periferia, o regresso de quadros qualificados de Angola e Moçambique, onde universidades novas e dinâmicas estavam a produzir quadros de qualidade já treinados para estruturas modernas instaladas naquelas colonias, enriqueceram os nossos hospitais, dando preparação a quadros médicos capazes de usar novas tecnologias e preparar o ensino pós graduado para novas gerações de médicos.

Com as novas tecnologias em movimento só seria possível rentabilizar modernos equipamentos, se os novos médicos os soubessem usar bem. O movimento estava em marcha e cada hospital geral tornou-se instrumento de ensino pós- graduado e de renovação dos Hospitais ditos “periféricos”

A criação duma Sociedade Médica de Hospitais da Zona Sul abriu o relacionamento dos quadros hospitalares e o ensino pós- graduado permanente foi realidade

Hoje podemos dizer: “Qualquer doente é tão bem tratado em hospitais centrais como em qualquer hospital geral e periférico existente neste país. O resto é má estruturação do Serviço Nacional de Saúde aproveitado para talvez intencionais gastos desnecessários.

Foi excelente a minha vida dedicada aos hospitais gerais periféricos, hoje gerais e excelentes ao serviço dum Serviço Nacional de Saúde, mas ainda mal estruturados. Teimam em não valorizar práticas que funcionam bem. Trocando-as por outras  com o pretexto duvidoso  de  servir os doentes, das novas práticas resultam muito  grandes e desnecessários gastos  com  negócios desenfreados.

De todas estas minhas vivências tenho escrito, relatando verdades humanas por que passei.

Sobre a questão do interior do país, ela não existe, tão próximo está o litoral da fronteira. Não há significativas distâncias impeditivas de melhores e mais articuladas práticas.

O exercício da medicina em todo o país tem que ser igual, tendo que ser competente e corajoso na decisão correta com os meios diagnósticos já existentes.

O que diferencia Lisboa da periferia é pensar que se está melhor em Lisboa, mesmo que aí se esteja a ser ajudante de quem o convenceu de que Lisboa é melhor.

Com o desenvolvimento de medicina moderna de alta tecnologia com necessidade de grandes investimentos em laboratórios, em investigação e treino de equipas, todo o desenho e estrutura de funcionamento do Serviço Nacional de Saúde está errado, esgotando-se em gastos desnecessários com programas de saúde mal estruturados, que servem os grandes comerciantes de fornecimento de equipamentos e de serviços de modo descoordenado e por isso inúteis

Darei sobre isso o exemplo que sempre apresento quando, sobre o assunto, me questionam:

Vim para Setúbal em 1972. A população da cidade com Palmela é a mesma: 11.2000 habitantes. Então o Hospital tinha 28 médicos e as pessoas sentiam-se tratadas, talvez pouco, mas bem assistidas, embora, para as exigências modernas, mal tratadas.

Agora são 400 os médicos e ninguém se sente bem tratado, gastando dinheiro dos subsistemas, no Hospital privado, dito da Luz, que talvez os ilumine.

 

Setúbal 25 Novembro 2018

Nota: O Autor, Dr. Luis Machado Luciano, foi médico do Hospital de Setúbal durante a maior parte da sua vida profissional.

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