Luis Machado Luciano
De Lisboa a Pângala (norte de Angola, Distrito do Congo)
Quem faz as guerras são os políticos os militares fazem a paz matando e morrendo
(Primeira parte)
No decorrer das guerras coloniais 1962
Quando a guerra começou no Jeep dos serviços de saúde
Na manhã de 28 de Abril de 1962 no Cais da Rocha de Conde de Óbidos, em Lisboa, o navio Quanza engolia, devegarinho, o Batalhão de caçadores especiais Nº 357 assim como engolia jeeps, camiões, mantimentos, canhões e outros produtos capazes de fazer uma guerra distante daqueles rapazes que caminhavam para fazer a paz.
Assim seria e assim não foi
Foram engolidos durante a manhã perto de 700 militares que pelas 13 horas despediam-se dos familiares no cais de embarque, de pé e acenando com lenços, muitos ensopados em lágrimas como que a suspeitar de alguma tragédia.
Saída a barra, com Lisboa distante, socorríamo-nos de piadas, de pequenas partidas para passar o tempo e, para alguns, era a primeira vez que viam o mar e o atrevimento de flutuar sobre ele a caminho do Ultramar porque ” Angola é nossa “.
Pouco há a contar até às águas entre Guiné e Cabo Verde quando uma Fragata de Guerra com bandeira portuguesa se aproximou de nós e manteve a guarda durante um dia e noite.
Foi nesse fim de tarde que algo de anormal acontecia.
Um bravo soldado português queixava-se dores na barriga tendo alertado o médico da companhia para o observar. Prontamente assistido pelo colega com pouquíssimo treino em cirurgia mas, achando-se capaz duma ousadia, reuniu todos os médicos assim como o médico da navio civil e foi assim, em conferência médica, que ficou decidido ser apendicite aguda necessitando de cirurgia urgente, situação esta para a qual o médico se sentia habilitado para o exercício de tamanha ousadia ao pensar que teria acesso fácil ao apêndice do jovem soldado o que, sendo assim, seria possível avançar com anestesia local.
Sobre a mesa do Oficial Imediato, do Navio Quanza com lençóis esterilizados pelo calor intenso na lavandaria improvisou-se uma mesa operatória e fardaram-se, os médicos, com lençóis também, enquanto a Fragata, ao largo com sinais de luz, assegurou o rumo do Quanza porque, a pedido do médico, o barco iria parar para assegurar a destreza do médico e cirurgião improvisado.
Saltaram sobre o doente infiltraram anestésico na pele, davam-lhe ordens para estar quieto e não encontravam o apêndice que, em posição anómala, recusava-se a sair. Demorava mais do que se pensava e a anestesia ia perdendo efeito enquanto mais dois lhe agarravam as pernas até que, num gesto de perícia, o cirurgião conseguiu retirar o apêndice o que, de imediato foi comunicado à Fragata. Esta afastou-se e, com sinais luminosos, transmitia boa viagem enquanto se deslocava para outros pontos a vigiar.
Cumprida esta missão com sucesso e alguma sorte, no dia seguinte, quando da observação pós operatória e com algum espanto, o doente refere ter tido diarreia intensa lançando para a sanita um rolhão de lombrigas que, de certeza seriam as causadoras das dores e sub-oclusão interpretada como apendicite aguda com peritonite.
Pode afirmar-se que o doente foi operado às lombrigas com muito sucesso.
A 12 de Maio de 1962 o Quanza lançava em Luanda setecentos Caçadores Especiais que, engolidos catorze dias antes, em Lisboa, desembarcavam a marchar, na Avenida Marginal em Luanda com bandeiras e estandartes, enquanto multidões delirantes os aplaudiam ao som da Marcha militar “Angola é nossa”.
O soldadinho das lombrigas teimou e marchou também.
Ali, naquela Terra, o ambiente era diferente, desde o calor, a humidade, os cheiros, as árvores e os pássaros a chilrear, ao verem, tanta gente junta nesta terra pacata e com pouco ruído.
Arrumados em camiões militares, estes setecentos homens, caminharam mais uns dez quilómetros sendo instalados num grande campo militar cercado de arame farpado, Campo militar do Grafanil assim percebemos ser o seu nome. Muitos hectares de terra vermelha, árvores enormes, com poucas folhas mas de tronco largo destacando-se uma delas, por estar escavada tendo sido instalada uma capela para oração dos mais crentes acreditando numa boa e justa caminhada. Na primeira noite estabelece-se o pânico na grande camarata de lona quando uma cobra enorme veio visitar o acampamento, provavelmente com o desejo de boas vindas ou talvez a dizer que aquela terra era dela e não nossa como se afirmava na Marcha Militar.
Cerca de de quatro semanas de espera naquelas condições, diziam que seria para treino, adaptação ao clima e receção de material de guerra,e foi o tempo de conhecer Luanda onde nada se passava, ou talvez se passasse o que era vertigem, ignorância ou inconsciência que a história iria provar. Festas, luxo, vida noturna e durante o dia, praia, camarão almoçaradas etc.
Passado este bom tempo, numa madrugada de 11 de Junho de 1962 este enorme agrupamento militar ruma a leste em direção a Malange, cidade onde nasci e donde tinha saído aos catorze anos para estudar em Lisboa,
Esta extensa coluna de camiões, jeejs, canhões e também cheia de soldados armados e despertos, estendia-se por mais de dois quilómetros levantando poeira vermelha que, com o suor nos ensopava esta farda de Caçadores Especiais a imitarem folhas de árvores, Caçadores estes que, de Especiais, só tinham a farda. A população nativa na orla das estradas, olhava-nos em silêncio e espanto já que os grandes massacres e horrores descritos, tinham sido na zona dos Dembos e longe dali mas, de certeza tinham conhecimento vago e ainda não vivido.
Estas populações silenciosas contrastavam com as populações da minha infância que vinham á estrada dizer adeus e rir convidando-nos a parar para compra de fruta ou objetos decorativos demonstrativos da sua arte.
Eram miúdos de olhos aberto e pouco sorriso, mostrando os grandes dentes muito brancos contrastando com a negrura brilhante da pele. Destes miúdos poucos terão mais de sessenta anos, já que poucos restarão dos massacres desencadeados naquela zona, numa guerra que durou mais de quarenta anos
Fui recordando a minha meninice naquelas terras de Malange, onde vivi até aos catorze anos. Vivia feliz e em paz quando a guerra devastadora era na Europa e terminada em 1945 tinha eu 10 anos e vivia a minha liberdade, eu a minha bicicleta e a rua e era ao fim da tarde que da varanda, observávamos quem passava. A casa começava ali, grande corredor com quartos dos dois lados com a sala ao fundo, decorada com mobílias de madeira de canfora esculpidas com cobras dragões e arvores e, sem perceber porquê havia um piano vertical onde a minha irmã mais velha aprendia a tocar e em muitas noites um Engenheiro, velho amigo do meu Pai, de mãos papudas e ar ausente, aparecia e tocava o que tinha aprendido na sua civilizada infância e recordando o seu mundo de cultura. Ao fundo do corredor havia uma porta que dava para o quintal com barracões para instalação dos “criados “e recordo-me com saudade o Manuel Bailundo, de dentes afastados e serrados em bico e vestido de branco quando servia à mesa.
Em 1959 quando do início dos massacres em Angola e temendo terrorismo urbano o desgraçado do bom Manuel foi preso e mataram quem connosco viveu muitos anos, nesse mesmo dia mataram também o Sousa, enfermeiro negro, que nos dava as ”picas” quando estávamos doentes. Matavam com medo do terrorismo urbano e a barbaridade estava ainda a começar.
Também recordo a escola Vasco da Gama, em frente a minha casa. Era aí que, saltando o muro, ia aprender com a Professora Alice mestiça de olho torto que com amor, amizade e disciplina, nos batia com a palmatória e punha orelhas de burro aos mais indisciplinados.
Nada disto me fez mal, cresci e aprendi sem traumas ou recurso a Pedopsiquiatras assim cresci e fiz-me médico e, por isso, sou médico deste batalhão que, como dizia: Atravessava o Rio Quanza, no Dondo, seguindo para Norte num percurso previsto de mil quilómetros em direção a Maquela do Zombo na fronteira norte com o Ex Congo Belga, hoje Republica Democrática do Congo. Extensa coluna que chegou ao fim da tarde ao Negaje, Base militar importante para controlo do norte estando ali instalada a Base Aérea principal, tendo como Comandante operacional um General. Por ali passámos onde, da varanda do Quartel-General, o Senhor General fez continência à bandeira e perfilou-se enquanto passávamos.
Era dali para cima que se esperava qualquer contacto com população hostil ou surpresas duma guerra não identificada, já que foi uma das zonas onde se dizia ter havido massacres sobre os colonos, com descrição de heróis resistentes com armas improvisadas. Nestas guerras o sucesso é a surpresa e os colonos, não avisados, foram os verdadeiros mártires de mentiras há muito escondida e propaladas. Assim caminhámos até atingir a povoação de 31 de Janeiro, onde havia um Aquartelamento em zona plana cercado de arame farpado, bandeira portuguesa bem alto e visível. A guarda bateu pala e o Capitão, comandante da unidade, aparece com ar desvairado como que incomodado ou temeroso de algo que o tempo se encarregaria de surpreender.
Falou com o nosso comandante e mandou abrir a cancela, de arame e troncos de árvores dando ordem para aquela coluna de dois quilómetros poder passar continuando o seu caminho rumo á povoação da Damba, onde pensava fazer paragem seguindo em direção a Maquela do Zombo.
A guerra começou no meu Jeep, ou seja no Jeep do comandante dos serviços de saúde; estes serviços eram constituídos por um condutor com metralhadora instalada entre ele e eu médico e comandante, com direito a uma pequena pistola instalada no cinto, atrás estava um sargento enfermeiro, possuidor de metralhadora ligeira (FBP) e ao lado cabo maqueiro com FBP também.
Pendurado no Jeep havia o atrelado, que consistia de um cubo de dois metros de lado de chapa de ferro pintado a verde-escuro, e lateralmente duas cruzes vermelhas bem visíveis. Abrindo duas portadas de trás havia seis caixas a todo o comprimento onde estava todo o material que achavam necessário para operações daquela envergadura, duma guerra que se adivinhava mas não se dizia.
Continua no próximo número (Ed. 753 de 10/01/2019)
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