Luís Luciano

O bom Médico da Família na província e o excelente professor em Lisboa

A estrutura e enquadramento do Serviço Nacional de Saúde está toda errada enquanto não houver uma correta atribuição de funções e tarefas bem definidas que serão articuladas entre si.

O avanço do conhecimento associado à criação de novas tecnologias deveriam ajudar, facilitando registos e troca de conhecimento entre todos os executantes de diversas tarefas diferenciadas que deveriam ser sempre interligadas a favor de diagnósticos corretos para corretas instruções terapêuticas ao serviço do doente. Não tem sido assim e até são usados como instrumentos que podem justificar o mau funcionamento do S.N.S entregando-o a negócios sempre associados a propaganda diabólica fazendo crer que tudo o [LL1]que se inventa será necessário, para o exercício dum bom ato médico e a máquina de produção industrial continua a inundar-nos com técnicas que não pedimos, por desnecessárias, mas envolvendo-nos num conflito de gerações e conflito de competências.

Tecnologias ao serviço de quê?

Ao serviço da confusão perante o seu mau uso ou boa utilização servindo terceiros, Justificando assim os gastos excessivos e a inoperância dos serviços.

Vou contar:

Nos anos 50 numa pequena cidade do Alto Alentejo um bom e querido “médico da família” exercia ali a sua nobre função de “ Médico de família”. Tinha apelido também, alentejano, Dr. Mendes Pernocas e habitava uma casa junto á casa de José Régio. Perto, dominando a paisagem e a economia da região, existia uma Fábrica de cortiça que, pela imponência, era referência da cidade curvando-se, esta, perante quem ali mandava e, ser empregado nela, era importante também. Os seus administradores diretos viviam longe, na capital do Império e sempre que apareciam, em visita surpresa, eram simpáticos sendo a sua presença perfumada ao exibirem proximidade, senão paternalismo, em ações de tolerância e simpatia perante os colaboradores diretos, contudo mantinham algum distanciamento junto dos restantes trabalhadores que trabalhavam sem questionar as ordens recebidas do seu encarregado que também recebia ordens para ter cuidado, vigiando os trabalhadores melhores, os mais cumpridores e mais competentes, receando que estivessem a organizar liderança ao serviço do sindicato e servindo o PCP. Eram as orientações da PIDE e era para cumprir.

O patrão ao chegar dava abraços, sorrisos e por vezes gargalhados ao ouvir o encarregado, sempre solícito, contar estórias e outras coisas desta pequena cidade adormecida ao calor do Alentejo. Nada acontecia a não ser pequenos escândalos contados na farmácia mas perdoados pelo Padre

Numa destas visitas à Fábrica, o Senhor Importante vindo de Lisboa, pergunta muito admirado “onde está o senhor Boleta?”

Boleta era o encarregado geral que aparecia sempre à frente a cumprimentá-lo e muito obediente ao receber ordens da Administração ou coisas de pormenor como decisões a transmitir ao pessoal. Logo lhe disseram que o senhor Boleta ficara em casa doente com um enfarte.

Oh! Oh! Um enfarte? Isto é muito grave, muito grave sobretudo porque precisava dele como um encarregado sempre disponível e podia perder a pedra chave na articulação com as chefias intermédias bem estruturadas e fiéis ao patrão.

Digam-lhe que o irei ver antes de regressar a Lisboa, coitado deste bom homem.

Assim se passou e, ao entrar na modesta casa deste seu bom encarregado, deparou com um homem triste, sentado junto a uma janela a espreitar a casa de José Régio e talvez a recordar alguns versos que aprendeu na escola. “Em Portalegre cidade do alto Alentejo…” Tinha uma manta a agasalhar-lhe os joelhos e olhos triste pensando o que seria da sua família.

Oh! Senhor Boleta então foi-se abaixo? Então como foi? Conte lá, conte lá.

O senhor Administrador também está bem?

Diz Boleta muito agradecido com esta visita, mas isto vai passar Senhor Administrador. Não o quera incomodar mas ontem senti uma dor muito forte no peito, como que a estrafegar-me, vim devagarinho para casa e chamei o senhor Dr. Mendes que logo apareceu. Auscultou-me, mediu-me a tensão no braço e, sempre com ar muito preocupado, pegou na minha mão muito fria e transpirada e dirigindo dois dedos para o pulso olhava o relógio e, com um leve mexer dos lábios, foi contando… pôs-me a mão debaixo da manta, respirou fundo e disse: parece-me grave. O senhor está a fazer um enfarte.

Tem que fazer muito repouso vai tomar umas gotas para o coração, que está fraco e nada de ralações. Fique sossegado que irei cuidar de si. Virei vê-lo todos os dias. Estarei atento e vá dando noticias.

O Patrão, enquanto ouvia isto fazia pequenos comentários e suspiros, duvidando do saber e da qualidade daquele médico bom e grande amigo da família, ia puxando pela cabeça (como ouvia dizer no Alentejo) tentando encontrar quem pudesse substituir o Boleta, seu empregado de total confiança. Respirou fundo e dando umas palmadinhas, não muito fortes, nas costas do Bolota, não fosse o homem morrer do enfarte e disse:

Quer ir a Lisboa e ser visto pelo meu médico e Professor?

Oh Senhor! Seria ótimo ouvir essa opinião até para sossego da minha família.

Assim foi combinado.

Um carro da Empresa viria busca-lo quando da marcação da consulta que, de certeza, seria imediata devido a influência do empresário junto do Senhor Professor.

Chegado a Lisboa, o distinto Empresário e até amigo do Professor, telefonou-lhe logo. O Professor, ao ouvir o nome, quase se ajoelhou perante aquela voz ao telefone e disse: Oh Bom amigo é só dizer traga-o e será logo atendido.

A promessa estava cumprida.

O motorista, com o carro grande e perfumado do Senhor, deslocou-se de Lisboa a Portalegre trazendo o senhor Boleta à consulta do Senhor Professor em Lisboa. Consultório em pleno Chiado 1º andar, tendo o abastado industrial também um escritório na Rua Nova do Almada lugar de muito respeito para os empregados quando ali se deslocavam, ao serviço da Empresa para receber ordens já que poucas vezes recebiam favores ou caridades destes Senhores ali instalados em conversas com o poder se não com Deus!

Deixando o Senhor Boleta no Chiado arrumou o carro e cumpriu as ordens recebidas.

A espectativa era grande, na Rua Nova do Almada, onde estava o Senhor Administrador e a cabeça do Empresário só pensava: Quem poderia substituir o Boleta na difícil tarefa de obedecer?

No Chiado, no Consultório do Professor, Boleta estava a ser observado pelo distinto Professor que, naquela época, pouco mais podia inventar para poder diagnosticar uma dor no peito, contudo auscultou-o e mediu a Tensão no mesmo braço e com aparelho igual ao do Dr. Mendes e depois palpou-lhe a barriga. Suspirou fundo e diz:

“Quem foi a besta que disse que o senhor tem um enfarte?”

Aflito e espantado com o insulto ao médico amigo que sempre bem tratou a sua família e em quem sempre confiara mas, ao mesmo tempo, estava satisfeito por não ter doença grave e disse:

Foram uns familiares meus que já tiveram situação parecida e ao chamarem o meu médico ele, à cautela, confirmou e medicou-me.

Dê cá um aperto de mão, o senhor não tem nada, pode descer as escadas. No entanto, a pensar nos honorários não cobrados, disse: diga ao senhor Administrador que depois lhe telefono dando noticias suas. (as contas assim seriam resolvidas).

Desceu a correr o Chiado a caminho da Rua Nova do Almada junto ao Tribunal da Boa- Hora e pensou” em boa hora aqui vim com a interferência do meu bom patrão”

Subiu as escadas do escritório, num 1º andar também, onde o patrão, sentado e possivelmente já avisado pelo senhor Professor, mandou-o entrar e disse: meu amigo o que se passou?

Boleta com ar muito humilde mas muito satisfeito disse: O Senhor Professor disse que eu não tinha nada que podia ir trabalhar e mais me admirei quando disse: “Quem foi a besta que disse que o senhor tinha um enfarte?”

Ao Industrial saltavam-lhe chispas de gozo nos olhos como que a dizer vejam que se não fosse eu o homem não se safava e perdia um bom empregado.

Era assim a articulação no Serviço Nacional de Saúde; dedicados médicos da Família e os Professores, quadros diferenciados, que deveriam dar apoio aos médicos de família e ser ao mesmo tempo um exemplo no comportamento ético, moral e deontológica estavam desinseridos do sistema e desobrigados a ajudar, sendo assim, seriam inimigos ou seja cada um governava-se à sua maneira.

Julgavam brilhar perante os pequenos com insultos aos seus dedicados colegas que por eles deviam ser respeitados e ter muita consideração.

 

Os doentes não eram parvos e também selecionavam quem, com seriedade e muita amizade, os ajudava e tratava bem toda a gente nestas pequenas terras muito longe das grandes cidades-

Boleta retoma o trabalho muito animado e organiza um grande almoço de família, sua grande preocupação quando se sentiu doente e talvez perto da morte.

O Empresário, seu amigo também pelo bem que lhe ofereceu, estava muito curioso do que se teria passado naquela pequena cidade localizada no Alto Alentejo cheia de alcoviteiras, dúvidas ou invejas.

Fui eu que paguei todas as despesas da ida a Lisboa e assim curei-o o que, para meios pequenos, já é muito e muito importante pensava o Industrial.

Quando visitou novamente a fábrica, Boleta lá estava a recebe-lo e a ouvir as graçolas do patrão que, ao esperar dele um eterno agradecimento, tornava-o melhor capataz para todas as tarefas necessárias ao bom funcionamento da empresa.

O patrão, ao vê-lo, dá uma grande pancada nas costas do cadáver ressuscitado com a pergunta muito amiga:

Tudo bem consigo? Rijo para continuar?

Depois chamou-o de lado, como se fosse dar ordens ou orientações secretas e perguntou: diga-me lá o que é que disse o DR. Mendes P. quando lhe comunicou a afirmação do Professor?

Olhou para mim com alegria e amizade, pegou na minha mão já quente, e colocou dois dedos no meu pulso enquanto olhava para o relógio. Passaram alguns segundos que me pareceram horas e, sempre acompanhado dum pequeno tremer dos lábios disse:

Está a ver? Curei-o. Faça uma vida normal como lhe disse o Professor

Era verdade que foi o este Professor malcriado que, quando o observou, decidiu do diagnóstico e medicou mas  o médico da família é que o curou.

Na dúvida as pessoas não gostam que se diga mal de outros “dizer mal não cai bem” e muito o menos dizer mal dum amigo de todo o ano e amigo de toda a Família que muito estimava

Isto é o espelho do que devemos organizar no Serviço Nacional de Saúde que pode dispor de tanta tecnologia á disposição da boa prática médica na perspetiva dum bom e correto exercício da medicina em todo o País.

Os médicos de Família têm que ser o pilar do exercício da medicina.

Devem exercê-la com tudo o que há de moderno devendo, as unidades diferenciadas, os médicos mais sabedores e praticantes de novas tecnologias ou integrados em laboratórios de investigação, ajudar na formação e prática de novos conhecimentos em consulta, no domicílio e no internamento no Hospitalar Comunitário, e só este aberto à urgência, Hospital este que deve ser organizado e gerido por todos os médicos de família duma região a definir.

Não há médico de família se não tratar os seus doentes em todas as etapas da evolução duma qualquer doença e serão só eles a recebê-los a destinar a evolução na escala de tratamento do seu doente enviando-os para unidades de cuidados diferenciados, para unidades de intermédios ou cuidados paliativos. Quando orientados para o domicílio deverão depois segui-los em apoio domiciliário se para Lares terão estrutura própria com funcionamento articulado

As estruturas do Serviço Nacional de Saúde serão todas articuladas

Só assim se compreende haver um número restrito de utentes sob a responsabilidade dum médico de família que deveria cumprir todas as tarefas de articulação do SNS recebendo uma resposta correta e imediata dos serviços diferencias ou Hospitais diferenciados que os enquadram também.

Vou terminar a estória:

O senhor Boleta viveu muitos anos e reformou-se sempre feliz no seu trabalho e amigo do seu médico da Família.

O senhor Administrador morreu de enfarte, 10 anos depois, sem médico de família em Algés, dentro se uma ambulância a apitar a meio caminho entre Cascais e Lisboa onde, numa clinica privada, três Professores aguardavam o cadáver para poderem exibir manobras de suporte básico de vida o que justificou apresentarem os respetivos honorário clínicos para suporte básico das suas vidas

————————————————————

Nota: O autor é médico [LL1]

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *