Luís Luciano

FORTUNA COM FEIJÃO BRANCO

Recordando Angola dos anos 50

Malange era uma pequena cidade no norte de Angola a 500 quilómetros de Luanda e ligada, a esta, por ferrovia com máquina alimentada a lenha tornando a viagem infernal em calor, ruido e sujidade, já não falando no cumprimento de horário ou avarias tornando impossível saber quando se partia e muito menos quando se chegava. No tempo das chuvas era frequente, o comboio, estar parado muitas horas devido a deslocação de terras já não referindo as paragens quando um animal de grande porte se atravessava na linha e ali permanecia deitado não reagindo ao som do apito da máquina e fazendo medo a quem dele se aproximava.

Esta uma pequena cidade, com pouco mais de dois mil habitantes fixos, não contando com muitos milhares de negros que estando na sua terra não contavam para a definição de grandeza duma qualquer cidade em Angola.

Estava errado mas era assim.

Esta cidade do planalto com época mais fresca, no cacimbo, e menos calor na estação quente, que se estendia de Novembro a Março e esta era também a época de chuvas intensas e tumultuosas que, em minutos, tudo alagava e, de repente, o céu abria-se, com sol e calor e era esta a altura de ir caçar perdizes e galinholas que saiam para a estrada para comer as formigas salalé que saía dos morros, por elas fabricados em terra vermelha. Saíam voando em pouca altura. Deixando cair as asas frágeis e transparentes, cobriam as estradas duma pelicula semelhante a madre pérola. As formigas, de asas perdidas, estavam desarmadas em terra e eram petisco preferencial para a passarada. Era assim que, de caçadeira bem treinada e tiro certeiro se apanhava caça suficiente para algumas refeições.

Era a regra do mais forte matando para sobreviver, ou para diversão dos mais hábeis.

A entrada nesta cidade fazia-se por estradas de terra batida e esburacada na época das chuvas ou em terra solta e poeirenta no período das secas, que nos cobria de terra vermelha o corpo e o cabelo, necessitando de banho, por vezes difícil, porque água canalisada não havia; do lado direito da estrada via-se o Seminário e mais abaixo o Cemitério. No lado esquerdo havia correnteza de lojas de comerciantes que se estendia por alguns quilómetros até á ponte do rio Capôpa, que corria da direita para a esquerda, banhando primeiro o bairro negro da Maxinde que envolve a cidade, criando-lhe uma periferia bem visível, mas que, como dizia, era outra coisa, outra população que, por excluída, não contava para a definição de habitantes duma cidade. Passada a ponte, entrava-se na Avenida principal que seguia até bairro da Cotonang sem deixar de passar pela estação do Caminho-de-ferro, o jardim principal, em frente o belo Palácio do Governador, muito bonito, em estilo colonial e, seguindo em frente, vê-se a Sé Catedral de Malange toda em branco envolta por residência de freiras e, no seguimento, estava o pequeno hospital servido por médicos do Quadro Médico do Ultramar que de medicina faziam tudo desde vacinas, tratamento de doenças tropicais e cirurgia de dimensão razoável, já que, não havendo outras soluções, as urgências a isso os obrigavam e iam criando treino os mais interessados em evoluir, ou os mais estudiosos e assim ascendiam a quadros qualificados em várias áreas da arte e do saber médico.

Era uma cidade pacata do interior da Colónia, com escola primária, mesmo em frente a minha casa que estava separada por uma rua e um muro que saltávamos para dar resposta ao chamamento da campainha de entrada. A professora Alice mulata de olho vesgo e muito rabugenta era capaz de nos dar reguadas ou impor castigos hoje condenados, por traumatizantes para os meninos finos ou malcriados. Sofri alguns castigos e não senti que me tivesse alterado a personalidade ou stress pós traumático. Havia o Quartel de tropas indígenas sempre comandadas ou enquadrados por oficiais brancos, que, fazendo comissões de poucos anos, seriam quadros aproveitados para o ensino no Liceu local que lecionava até ao quinto ano, sendo a restante instrução liceal do sexto e sétimo feita em Luanda, no Liceu Salvador Correia, ou no Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira, nome este em substituição de Lubango seu verdadeiro nome hoje recuperado. A Cidade vivia de funcionários adstritos ao governador ou à camara municipal, finanças, obras públicas, correios e administração pública representada por um Administrador do Concelho ou mesmo um Intendente. Sobressaia, pelo estatuto e cultura, o quadro de funcionários da Cotonang, companhia Belga de algodão, quadro bem remunerado. Salientamos a sua postura elitista perante os pequenos comerciantes de loja aberta ao comércio com os ditos indígenas, ou para recolha em grandes armazéns de produtos para transporte e exportação em Luanda

Ressaltava também os pequenos industriais da industria rudimentar de construção e pequenos comerciantes de padarias e talhos em fase de evoluir para maior dimensão, aguardando o crescimento e estabilidade da colónia após o período de riqueza resultante da guerra na Europa com a exportação do Algodão, do sisal do café, do tabaco e doutros produtos necessários, que levaram ao enriquecimento de alguns, destacando-se da mediana vida de todos os outos.

Malange era a cidade Capital duma província maior que Espanha, que tinha para sua guarda um polícia, o senhor Silva, gozando do privilégio de se deslocar em bicicleta com uma pequena moca à cintura, ou seja: a calma era total. Dos bairros negros nada se sabia a não ser serem arrebanhados, periodicamente, para trabalho dito de “contrato”. Na verdade eram contratos forçados já que, se não queriam ir, o Administrador facilmente arranjava pretexto para punição, dizendo-lhes: queres ir para a cadeia ou trabalhar com “contrato”?

Era assim a liberdade daquela gente. A Cidade não tinha nem água nem luz. Pela manhã, ao levantar do dia, acordávamos ao som de barris a rodar, com armação improvisada, até ao rio Capôpa para, depois de cheios, subirem, empurrados pelo criado negro até ao quintal do patrão onde a água era bombeada manualmente para o tanque de lusalite colocado no telhado, a altura necessária para os banhos da manhã. A luz era fornecida gerador accionado por motor que, ao arrancar, fazia barulho ensurdecedor, contrastando com a quietude das noites em África. Era posto a funcionar ao cair do sol e calava-se um quarto de hora após o final do cinema depois de três avisos, o que nos permitia chegar a casa e deitar. Era o silêncio total, por vezes substituído por cânticos ou batuques vindos dos bairros negros da Maxinde sobretudo quando havia óbito que, durante dias, era celebrado com cânticos evocando a morte dos seus familiares.

À cidade, durante o dia, afluíam os comerciantes de zonas por vezes distantes desta cidade, Capital de Distrito; todos se conheciam, por vezes com o nome referindo a zona onde estavam estabelecidos .Outras vezes, era desconhecido o seu nome de registo. Lembro-me de ouvir referir o Manel da Canambua, o Cabral de Matete, o Duarte de Cambondo ou o Almeida do Ritondo, etc. Muitos outros eram conhecidos pela alcunha que se lhe punham em Quimbundo, dialeto local, referindo-se a qualquer defeito ou semelhança tal como Senhor Carenhique que queria dizer gordo ou Cambuta que quer dizer homem pequenino ou anão.

Lembro-me dum grande comerciante com negócio de cana-de-açúcar na sua propriedade do Kissol, a poucos quilómetros de Malange, que se deslocava à cidade em Riquexó puxado por um criado por quilómetros. Quando entrava na cidade o negro do riquexó cantarolava brilhante de suor. O senhor vinha vestido de linho branco com capacete branco impecável para o proteger do sol. O aparato de chegada levava a pensar que iria tratar de assuntos ou negócios com o Banco de Angola ou tee conversa com o Senhor Governador.

Muitos comerciantes estavam espalhados pelo mato em áreas por vezes muito distantes. Iam fazendo pela vida com lojas de comércio de permuta, com criação de gado, exploração de tabaco, café ou sisal. Viviam discretamente. Vinham à cidade comprar carros ou camionetes para transportar de Malange mercadorias que precisavam de grandes armazéns de intermediários. Ou para exportar o que produziam, que as indústrias que usavam esses produtos eram poucas e primitivas.

Na cidade íamos sabendo das vitórias e derrotas desta gente que se esforçava por viver melhor e, no isolamento, iam tendo filhos de negras, escondendo os filhos mulatos das criticas das senhoras da cidade, até serem ricos e poderem ter estatuto para apresentar os filhos, que os acompanhavam no negocio das lojas no mato e também as filhas que, timidamente, começavam a frequentar os bailes do clube local e, sendo bonitas e bem-dispostas, irritavam as senhoras brancas, já que as suas filhas brancas não tinham o sucesso destas divertidas mulatas filhas de pais com alguma fortuna, que se adivinhava nos Pais.

A vida era ingrata. Sabia-se das desgraças e dos que, estando no interior, por vezes morriam com a chamada Biliosa, forma muito grave do Paludismo; outros vinham a consultas à cidade, que pouco podia oferecer de medicina de qualidade. Procuravam pequenas cirurgias ou tratar de doenças de pele.

Lembro-me do primeiro aparelho de RX instalado em Luanda onde toda a colónia se deslocava para ver se tinham doença nos pulmões. Com o RX era possível controlar ou corrigir fraturas ósseas com recurso a uma viagem a Luanda que, por vezes, levava semanas a alcançar, se fosse no tempo das chuvas.

Por vezes recebíamos em Malange a noticia de que o Senhor X do Posto de Mucari tinha chegado a Malange muito doente e fretado avião para seguir para Lisboa por necessitar de tratamento inadiável e urgente. Toda a gente lamentava e vivia a perda dum herói que ali estava há anos, deixando de pertencer aos colonos resistentes e teimosos em ficar. Despediam-se e desejavam ao bom companheiro e amigo boa sorte e que depressa regressasse curado, já que, em Lisboa, era outra coisa e de certeza tudo ia correr bem.

O pequeno avião partia e em terra todos o olhavam com o desejo de também poder ir. O gosto de estar em África estava entranhado, mas as saudades também pesavam. O homem lá ia. Nessa época passavam-se meses sem notícias. As chegavam eram vagas, inventadas ou deturpadas.

Alguns meses depois o Senhor X regressava de Lisboa.Vinha com bom aspeto, talvez um pouco magro. Dizia-se ter sido um cancro, que fora bem operado e talvez curado. O homem regressava ao seu trabalho de comerciante no Mato, com imensa vontade de desenvolver o negócio. Comprava novas viaturas, renovava lojas e abria novas em zonas mais estratégicas. E frequentemente vinha à cidade onde as bonitas filhas mulatas tinham entrada no Clube Atlético de Malange, o clube mais chique da região, deslumbrando os jovens casadoiros e irritando as mães brancas sentadas nas filas de trás, tentando impingir as filhas brancas e feias ou atrofiadas por uma educação tacanha

A cidade comentava: Tudo corre tão bem àquele colono que, muito doente, se tinha ido tratar a Lisboa, melhorara de saúde a olhos vistos e se tornava cada vez mais rico. De tudo em que tocava fazia dinheiro. Numa festa de Passagem de Ano ofereceu um telhado novo para o salão de baile do Atlético Clube de Malange e rivalizava com o Senhor C. P que, de Riquexó, visitava a miúde o Banco de Angola e pedia audiências ao Senhor Governador do Distrito.

O senhor X e não vinha à cidade de riquexó, mas deslocava-se no último modelo de Chevrolet, talvez dos poucos existentes em Angola.

Todos de espantavam de uma cirurgia difícil e em Lisboa desencadear neste homem entusiasmo para viver e visão para negócio com abertura para a riqueza.

Mais tarde veio-se a saber que o negócio era   “feijão branco” difícil de semear, mas depois de semeado dava colheita a levar ao enriquecimento.

Os “feijões brancos” que colheu em Malange levou-os quando foi de avião para Lisboa, donde seguiu para a Bélgica para os vender. Regressou rico a Malange. Era negócio exclusivo da DIAMANG companhia de diamantes de Angola. O Senhor X dedicava-se à candonga dele. Fez a primeira “colheita ” de que obteve fartos lucros, tendo regressado para futuras “colheitas”. Os negócios eram fachada da riqueza que acumulava com o ”feijão branco”.

Malange é o distrito das maiores jazidas de diamantes e Angola. Era controlado por guardas e polícia própria. Alguns, poucos, enganavam-nos ou subornavam. As viagens a Lisboa a pretexto de operação ou outra urgência eram feitas para a venda da “colheita”.

Setúbal Fevereiro 2019

NOTA: O autor nasceu em Angola, é médico, tendo-o sido, durante muitos anos, no Hospital de Setúbal.

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