Luís Luciano
De Lisboa a Pângala (norte de Angola, Distrito do Congo) - Parte 2
QUEM FAZ AS GUERRAS SÂO OS POLITICOS OS MILITARES FAZEM A PAZ MATANDO E MORRENDO
No decorrer das guerras coloniais 1962

Tínhamos passado vinte quilómetros do Aquartelamento de 31 Janeiro quando oiço um tiro abafado e um pequeno gemido e uma voz tímida diz: Fui eu aqui e acertei no meu pé.
Pouco treino e arma com pouca segurança, justificou o tiro no pé do Maqueiro.
O meu jeep encerrava aquela coluna de quilómetros, sem segurança lateral e exposto a qualquer disparo isolado, ao verem passar a coluna militar, mesmo assim, consegui fazer parar alguns carros da minha companhia, quando o grosso e extensão da coluna caminhava em estrada aberta e, quem parasse, seria rapidamente distanciado da frente que pretendia alcançar a povoação da Damba para pernoitar e seguir.
Observei o Maqueiro e vi que o tiro surge de disparo acidental da FBP atingindo o pé que sangrava.
Sem contacto possível com a linha da frente, volto para trás apenas com o ferido e o condutor, deixando seguir em frente, a coluna em marcha vertiginosa, por estradas já melhoradas de Angola.
Chego ao Aquartelamento de 31 de Janeiro onde o Capitão está no portão de entrada com ar desvairado perguntando o que se passava, pensava eu que ao falar do ferido este seria ali recolhido e eu seguia para a minha guerra tentando alcançar a coluna fugitiva; mas não, o capitão manda abrir o outro portão e diz: siga para o Negaje. Seriam, talvez, quarenta quilómetros atrás. Retomei caminho e no Negaje à janela estava o General Comandante que pergunta o que se passava, quando estava a explicar, a seu lado espreita um capitão de cavalaria que reconheci como meu amigo de Estremoz e julguei estar mais protegido quando me dizem: vá rápido á base aérea que está para sair um avião para Luanda e logo pensei que iria também para Luanda, ficando o jeep e o condutor ali, aguardando ordens pensando eu que iria também ficando o jeep e condutor ali aguardando ordens, mas não foi assim! Levaram o ferido que acabava assim a missão em África, e eu com o condutor regressámos ao Quartel-general que ordenou: agora siga ou seja, eu sozinho com uma pistolinha o condutor com metralhadora estaríamos a seiscentos quilómetros de Maquela do Zombo. Caía a tarde, que em África a noite vem depressa; e assim regresso a 31 Janeiro onde o capitão desvairado abre a cancela e manda seguir e… lá vamos nós, por ali acima sem conhecer nada, sem população que fugira devido aos incidentes descritos pela comunicação social, na perspetiva de apanhar o resto do Batalhão. Nada se via, nem Batalhão nem nuvens de terra levantadas por tanto carro a correr a caminho da guerra com comunicações a zero. Não é como hoje que de telemóvel se fala para o mundo inteiro. O condutor bem-disposto e como sabia que eu era daquelas terras, de certeza saberia conduzi-lo a bom porto enquanto eu dizia: vamos andando.
Noite cerrada começamos a ver algumas luzes e hoje penso, na sorte que tivemos em não apanhar alguns tiros dos nossos, pensando que eramos dos outros. Chegávamos a uma Vila, Damba de seu nome, e grande centro de comercio de café, com armazéns repletos de sacos de vários produtos, para onde nos dirigimos perguntando se o Batalhão de Caçadores estaria ali a pernoitar, ao que disseram ter passado ali há muitas horas tendo resolvido seguir para alcançar Maquela. Esbarro com colega meu, que também de passagem, não sabia para onde ir, já que tudo era fugidio só fugir nos apetecia.
Disse ao condutor que iriamos dormir ali, sobre aqueles sacos e amanhã de manhã partíamos. Assim foi, pelas cinco horas o dia começou a clarear, pedimos ali um café e seguimos com rações de combate.
Estávamos a quatrocentos quilómetros do objetivo. Não havia população e as estradas eram retas enormes, as chuvas já tinham tido a sua época e o piso de estrada batida, permitia caminhar bem, íamos vendo montanhas ao longe que seria serra da Canda, tudo o resto era savana, onde apareciam gazelas dispersas e hoje sabemos que havia elefantes naquela zona. Parámos algumas vezes e, fizemos alguns disparos, para tentar alguma gazela que se riu de nós talvez dizendo: “a Vossa guerra é outra”
Já noite alta atingimos Maquela do Zombo, onde fomos rapidamente abordados pelo Comandante do sector Norte, acompanhado do nosso comandante de Batalhão dizendo “estão bem como se arriscaram a tanto? Esta zona está toda referenciada como perigosa, já andam a destruir as pontes etc. E … foi assim que se passou.
O Batalhão teve de esperar dois dias, para sere, reparadas as estruturas que permitissem rodar a Ocidente, setor operacional de São Salvador do Congo, onde iriamos instalar as nossas companhias de atuação junto à fronteira do Congo, impedindo ações de penetração para sul levando material de guerra para ações nos Dembos e mais perto de Luanda.
De manhã, muito cedo, ao nascer do sol em África, toda a coluna dorminhoca de dois dias de preguiça mas renovada para a marcha, começa a deslocar-se para a zona prevista de combate e comandada pelo Coronel comandante de tanta gente. Era um homem discretamente antipático e desconfiado, mostrando reservas quanto à fiel obediência do nosso comandante de Companhia, Capitão discretamente incompetente para não dizer mais.
Verificado tudo, nomeadamente combustível,avançámos sendo o meu Jeep o último veículo em marcha, que como atrás relatava e hoje, penso que seguia sem qualquer proteção a ataque de tiro solitário, lateral ou do fundo da coluna apenas tendo, a reboque o carro sanitário e…lá vamos nós.
Estradas longas a percorrer mas agora em mau estado de conservação, sinuosas e debruadas com florestas tropicais densas e impenetráveis onde, o perigo diziam espreitar. O Caminhar lento em percursos de muitos quilómetros, que pareciam não ter fim, levou-nos a explicar a um Sargento, velho tarimbeiro e pouco inteligente, que Angola sendo catorze vezes e meia maior que Portugal europeu, os quilómetros ali também eram catorze vezes e meia maiores que os quilómetros de Portugal. A coluna caminhava lentamente, umas vezes mais lenta e coesa outras mais alargada, funcionando como se de um harmónio se tratasse senão quando, numa curva longa e continuada, que rodava para a esquerda abraçando longamente, em alguns quilómetros, toda a área de floresta, o que não permitia ver a cabeça de tão longa jiboia, salta um tiro que me rasa a cabeça rompe a lona e penetra na floresta.
O sargento enfermeiro envergonhado diz: Foi aqui, escapou-me uma bala da FBP mal controlada. Foi o fim do mundo! A bala penetrou na floresta e, desta atingiu a coluna da frente e, por vir da floresta “o Primeiro ataque chegara”.
Com imenso tiroteio vindo da floresta, que disparava para os dois lados, ou seja uns sobre os outros, saltei do Jeep protegido à esquerda por todos os camiões em marcha e berrava:
Parem, foi daqui do meu Jeep, mas nada parava havia que apanhar ” alguns “ ou havia alguém que queria recordar, feitos heroicos destas guerras africanas. Talvez tivesse durado longos quinze minutos, mas foi a suficiente para ficarem na estrada milhares de cápsula das balas daquele ataque, havendo até uma Bazuca pronta para atirar o que, de certeza, provocaria muitos estragos. Sem comunicações, foi difícil parar aquilo, mas aquilo parou. Os Jeeps e camiões ficaram todos furados pelas balas e por sorte, ou perícia dos Caçadores Especiais ninguém foi atingido.
Um ato de Guerra estava produzido, para depois ser relatado em ações de combate vitoriosas justificando assim a estadia ali em África como também iria justificar, os milhares de tiros dados e identificados por milhares de capsulas de balas espalhadas na estrada.
Serenados os ânimos e acalmados os espíritos dos Caçadores Especiais, continuámos a espalhar tropa em pontos estratégicos para ganhar a guerra.
Instalada, a companhia de Comando e serviços em CUIMBA na base da Serra da Canda e reforçada de outra Companhia estacionada poucos quilómetros antes, três Companhias iriam ocupar pontos estratégicos, na frente e frente/ oeste, deste modo, a nossa Companhia Nº 306 assegurou a posição uns trinta quilómetros à frente, desviando-se dois quilómetros da estrada para a direita onde deu preferência a um ponto alto onde existia uma casa abandonada e inacabada, mas ampla com dois anexos laterais e inicio de escavação de poço de água, o que iria permitir instalar ali o comando, as telecomunicações e o posto de saúde, aliás como foi feito. Tudo o resto seria para pensar e executar. Os camiões dispuseram-se em roda, delimitando o campo a definir, com faróis virados para fora, garantindo iluminação rápida e forte em caso de ataque.
Havendo casa, de certeza, existia água perto tendo o Capitão ido pesquisar com auxílio do Sargento Miranda, o Trancas como lhe chamavam por ter grandes pés e os pais possuírem fábricas de Sapatos em Sangalhos. Desapareceram num jeep, penetrando no capim alto e era já fim de tarde com pouca visibilidade, pouco depois sem perceber o Capitão muito aflito chama-me e diz: “O Miranda apanhou um tiro na barriga. Logo pensei, sentindo um murro no estomago, o que fazer? Pensei: o que fazer? Olhei, peguei-lhe no pulso enquanto ele dizia: Doutor não me mande para Luanda porque os meus pais são velhinhos e se sabem morrem de susto. Deitei-o na carroceria de grande GMC, coberta com capota de lona e iluminada por holofotes e naquele espaço, estava uma enfermaria sem nada. Lá dentro, eu e o Sargento e cá fora cento e vinte homens á espera. Palpei-lhe a barriga que estava mole sem reação a movimentos bruscos e estava aparentemente bem, sangrando por dois buracos laterais ao umbigo que limpei com gaze do atrelado penso que não esterilizada, pedi água oxigenada e uma seringa grande. Sempre a olhar para a cara do ferido cara grande olhos abertos e ia dizendo: Não me mande para Luanda.
Injetei por num buraco a água oxigenada que saiu pelo outro em rolos grandes de espuma com coágulos de sangue escuros sem manifestar qualquer reação de dor. Pareceu-me estar bem e atendendo ao pedido do doente, agora utente, esperei alguns dias, fazendo sempre o mesmo tratamento heroico com cobertura de Penicilina antibiótica, disponível para a época.
Sem febre ou supuração visível, aos oito dias estava curado e pronto para novas surpresas e nunca disse aos pais deste acidente, contudo, já em Luanda e um ano depois foi operado de apendicite aguda e penso que sem lombrigas.
Conto este episódio de guerra estou muito satisfeito porque o Miranda não morreu, apesar desta atitude médica, ousada e perfeitamente inconsciente dum jovem médico, que depois veio a aprender, na sua carreira de Médico e Cirurgião dos Hospitais Civis de Lisboa onde as regras do Banco de Urgência eram:
FERIDA PERFURANTE TORACO OU ABDOMINAL DEVE SEMPRE SER SUJEITA A EXPLORAÇÂO CIRURGICA PROFUNDA NA SUSPEITA DE OUTRAS ESTRUTURAS NOBRES PODEREM TER SIDO ATINGIDAS.
Mais uma vez a perícia dos Caçadores Especiais estava á prova: o Miranda atirou um tiro, com firmeza da mão, sabendo não atingir estruturas profundas e o jovem cirurgião acreditou nele.
Setúbal, 18 Dezembro 2018
Luis Machado Luciano
Nota: O Autor, Dr. Luis Machado Luciano, foi médico do Hospital de Setúbal durante a maior parte da sua vida profissional.
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