José Guilherme de Almeida Cruz

N: 21-05-1917 F: 06-05-2017

José Guilherme de Almeida Cruz

N: 21-05-1917  F: 06-05-2017

Texto autobiográfico escrito cerca do ano de 2010

“Nasci em Virela, freguesia de Arcozelo das Maias e depois da morte o meu pai em 1920, vim viver para Vouzela e mais tarde para Tourelhe, na freguesia de Cambra.

Fui aos oito anos estudar para o Colégio dos Jesuítas em La Guardia, transferido depois da expulsão daquela Ordem pela implantação da República em Espanha, para as Caldas da Saúde-Santo Tirso. Fui depois para Coimbra, on de me matriculei em Direito com pouco êxito. Frequentei a Escola de Oficiais Milicianos, sendo depois colocado no Regimento de Infantaria 14 em Viseu. Entretanto fui vítima de uma grave doença pulmonar que curei com os bons ares de Tourelhe e um ótimo ambiente familiar à minha volta.

Abandonada a minha vida escolar, fui escolhido pelo me inolvidável e grande amigo Tenente-Coronel Francisco Aidos, então Presidente da Câmara de Vouzela, para seu vice-presidente e mas tarde, no mesmo lugar, na presidência do Dr José Coutinho em conturbados tempos de guerra com problemas nas explorações de Volfrâmio, disputadas ferozmente por ingleses e alemães, que fomos contornando com muita prudência e bom senso, sem expôr muito a nossa simpatia pela vitória dos primeiros.

Vivi muitos anos em Tourelhe, num ambiente familiar aprazível e boa vizinhança, dedicado a uma vivência agrícola sem grandes preocupações mas sempre atento ao que se passava no concelho.

Vouzela vivia, há muitos anos, com grande intensidade e revolta a perda da sua comarca que lhe era devida pela sua centralidade e entre outras razões de peso, além da vertente histórica, atendendo à sua qualidade de antiga capital de Lafões.

Em dado momento, surgiu no País uma oportunidade política que pareceu a um grupo de amigos, ao qual me associei imediatamente, propícia para se lançar uma forte cruzada para o ressurgimento da nossa ansiada comarca.

Era então Governador Civil de Viseu uma pessoa que nós admirávamos pela diplomacia e elegância de trato com que tinha abordado os intrincados problemas florestais que também existiam no nosso Concelho- o Engenheiro Armínio Quintela! Tínhamos para já a garantia de que, pelo menos, não seríamos hostilizados por esse lado. Mas ao nosso entusiasmo faltava-nos peso político. Depois de muito congeminar, chegamos à conclusão que alguns de nós, sem apetências políticas e com o exclusivo pensamento no bem da nossa terra, se inscrevessem discretamente na União Nacional. Quando se soube nos meios políticos locais foi como o rebentar de uma bomba, pois desconfiavam muito deste súbito fervor união nacionalista que iria agitar mais esta desunião concelhia que se vivia em Vouzela. E assim, com a capa da U.N. uns e outros sem ela a vinda da comarca era anseio que aglutinava toda a população. Avançámos e toda a gente sabe do êxito da nossa batalha, por fim tínhamos a nossa comarca!

Fui vereador da presidência da Câmara do Prof Daniel Pinheiro; Comandante dos Bombeiros; elemento da direção de quase todas as instituições

É sensivelmente o mesmo grupo da gesta da comarca que já tinha ido deitar a mão a um moribundo ilustre-o Notícias de Vouzela, o que provocou outos sismo político em Vouzela, cujos governantes viam com péssimos olhos um baluarte daqueles ficar fora da sua alçada.

E logo nos vimos confrontados com a ingente tarefa de arranjar um Director, perante a rejeição sistemática dos nomes que íamos sugerindo, com o pretexto de “carência de idoneidade política”. Mas nós, com súbita inspiração, demos a volta ao caso, atirando-lhes com a indicação do nome de um homem impoluto, de grande elevação intelectual e moral- O Dr Guilherme Coutinho. Mesmo assim, só passados uns meses (e parece que por intervenção lá nas altas esferas onde se cozinham estas coisas dum senhor que conhecia o Dr Guilherme) é que conseguimos o imprescindível Director. E foi assim, com uma equipa coesa, amiga e cheia de boa disposição, albergando perfeitamente várias sensibilidades políticas que se pôs o Notícias de Vouzela a caminhar com êxito uma nova etapa da vida. Passados alguns meses fui eu mobilizado para substituir o Dr Guilherme pela sua idade e entrei devagarinho, como quem não quer a coisa, para não agitar mais as revoltas águas da política de Vouzela o que , mesmo assim, provocou uma grande turbulência. Desempenhei o cargo integrado num grupo excepcional, com muitas horas de boa disposição e amizade porque , afinal, todos éramos Directores! Passei alguns meses em Viseu e Vila Nova de Gaia a acompanhar os filhos nos seus estudos, como era vontade da minha Mulher.

Fui membro do Conselho Municipal em três legislaturas, uma pelo CDS e duas como independente nas listas do PSD. Foram muitos anos a clamar no deserto pela florestação do Concelho como sendo com as indústrias delas derivadas, o futuro do concelho; a defender a área da vila dos constantes atropelos arquitectónicos; contra os projetos de edifícios feitos a granel em Lisboa, em vez de serem inspirados no que era tradicional; contra o abandono das aldeias; da agricultura que ainda é o suporte da economia do concelho; procurei defender o nosso rio Alfusqueiro, que na sua travessia por grande parte do concelho, é uma bênção de Deus, pela sua beleza natural.

E foi assim que passei a minha vida, modestamente, sem grandes sobressaltos, feliz ao meu modo de ser e como vi escrito, não me lembro onde: “felizes são os que não têm história”.

Para finalizar, não mereço figurar nesta galeria de personalidades de outra dimensão que não a minha, nas páginas dum jornal tão prestigiado como a “Gazeta das Beiras”, mas agradeço muito sensibilizado a honra que me quiseram dar.”

A família gostaria ainda de partilhar algumas facetas menos conhecidas da sua longa vida

Nas palavras de uma neta: “Era um grande exemplo de vida e dignidade, uma mente iluminada, um coração repleto de generosidade! Não há palavras para descrever a alegria de desfrutar do seu convívio e ouvir as suas mil e uma histórias que nos aqueceram a alma, que nos acompanharam desde a infância. Historias essas que sempre nos alimentaram sonhos e cultivaram a imaginação! O avô era vigoroso e valente, apaixonado pela vida e amante da natureza. Sempre atento e bom ouvinte, misterioso e envolvente. Mas, acima de tudo, a sua maior paixão era a união da família.“

Os filhos e os netos recordam-no ainda como um contador de “histórias de raposões”, um apaixonado da vida selvagem dos lobos, um amante dos cavalos. Inclusivamente a sua famosa égua branca “Balalaika”, foi protagonista no filme Zé do Telhado de 1945, realizado por Armando de Miranda.

Os seus amigos de Lafões atestam a sua afeição pela caça e o seu instinto nos longos jogos de Sueca.

Os seus companheiros galegos da costa cantábrica de Lugo confirmam o seu talento de pescador de robalos.

Os inúmeros convivas recordam as mariscadas galegas regadas de bom Alvariño, sempre com o seu bom humor e discursos criativos.

Todos nós recordamos a sua escrita fina, a sua coleção de bengalas e de navalhas.

As peripécias do comando dos bombeiros, quando de manhã treinavam e testavam no rio Zela as bombas de água, para a tarde, no fogo real, a adrenalina dos homens as fazer hesitar com frenesi.

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