João Semana

Sobre a saúde e o dever pessoal e social de a conservar – parte 02

Continuando o assunto de anterior publicação na Gazeta, há que referir que a saúde de cada cidadão é garantida pela Constituição. No artigo 63 estabelece que todos os cidadãos têm direito a segurança social (nº 1) e que o sistema de segurança social protege os cidadãos na doença, na invalidez, na viuvez, na orfandade, no desemprego e em todas as outras situações de falta ou diminuição de meios de subsistência ou de capacidade para o trabalho (nº 3).

Os médicos do serviço nacional de saúde, que são pagos pelo Estado, continuam em grande parte a conduzir-se por quadros mentais que seguiam nos tempos passados, em que esse direito não existia, tendo cada um que pagar os serviços de saúde de que precisava.

Então os médicos, se não houvesse doentes que os procurassem, não ganhavam a vida. Por isso a sua preocupação não era prescrever aos doentes cuidados tendentes a evitar que voltassem a adoecer, mas curar a doença de que se queixavam. Em regra não lhes explicavam as causas das doenças que tinham nem os informavam dos cuidados a observar para que não adoecessem de novo.

Os médicos, conscientemente ou não, agiam conforme o que nas aldeias do país os que trabalhavam nos campos mordazmente atribuíam aos advogados, de quem diziam ser a sua oração da manhã: “Deus desavenha quem a nós mantenha”. Também dos padres, que eram bem pagos para cantar em latim os ofícios solenes de corpo presente dos defuntos ricos: “Réu, catrapéu, quem morre vai para o céu, quer vá, quer não vá, venha o dinheiro para cá”.

Os médicos, se não houvesse doenças, não ganhavam a vida. Por isso a cultura que tinham era de curar os que adoeciam, sendo por isso pagos, e não a de evitar que as pessoas adoecessem, que se não houvesse doentes não ganhavam a vida.

Hoje o Estado toma a seu cuidado a saúde dos cidadãos. Fá-lo não por caridade mas porque o Estado são os cidadãos politicamente organizados para cuidar dos interesses colectivos, de todos. Quanto à saúde o melhor interesse de todos os cidadãos é não chegar a adoecer, sem prejuízo de nos casos de doença serem curados.

Mas a referida cultura médica de muitos séculos continua em grande parte a ser mais do que prevenir as doenças, a de as curar. Reconhece-se que tem havido esforço para que deixe de ser assim, mas insuficiente. É preciso que esse seja o fim principal, isto é, evitar tanto quanto possível as doenças.

Considera-se que os centros de saúde podem contribuir mais eficazmente para que os cidadãos tenham melhor saúde se periodicamente, talvez de 6 em 6 meses, os centros de saúde chamarem cada cidadão a consulta de rotina para se verificar se tem açúcar a mais no sangue, se a tensão sanguínea é excessiva, se tem peso a mais, aconselhando em função dos casos, comportamentos alimentares, de bebida, de higiene, nomeadamente dos dentes, de exercícios físicos, e outros cuidados com a saúde, evitando prescrições medicamentosas, sempre que os cuidados preventivos adequados forem suficientes, para retomar a normalidade do bem estar físico ou mental. Há que se evitar, tanto quanto possível, a administração de medicamentos explicando às pessoas que além de custarem dinheiro aos próprios e ao Estado, que tem que compensar esses encargos com agravamento de impostos, os medicamentos, porque são substâncias estranhas ao corpo, para resolver certo problema de saúde, frequentemente criam outro ou outros, os chamados efeitos secundários em regra nocivos.

É do interesse de cada pessoa adoptar adequados comportamentos alimentares e de ingestão de bebidas, de abstinência de tabacos e de drogas, fazer regular exercício físico, exercer actividade mental estando atento às notícias e raciocinando sobre elas, lendo livros e praticando outros exercícios mentais, observar descanso adequado e praticar actividades que contribuam para o normal funcionamento do corpo e da mente.

Nós, como todos os seres vivos, temos automatismos de restabelecimento dos equilíbrios físicos e mentais, que quase sempre funcionam, se não persistirmos em sobrecarregar o corpo com excessos. Se estivermos atentos aos sinais do corpo, perceberemos que sempre somos avisados dos excessos que praticamos. Cabendo-nos corrigi-los, se formos inteligentes, para não adoecer em consequência de comportamentos pessoais prejudiciais à saúde.

É dever de cada cidadão em relação aos seus familiares manter o seu peso não muito afastado do número em kilos que resultar da altura em centímetros multiplicada por 0,43. Se o seu peso não se afastar muito do referido e se fizer diariamente exercícios físicos cerca de 30 minutos que ponham em movimento o maior número de articulações e de músculos, e de mente activa, pode manter-se ágil até idade avançada, melhor saúde e, desse modo, não sobrecarregar os seus familiares com cuidados pessoais e despesas que o tornam peso para a família em vez de agradável companhia.

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