João Pedro Coelho

Carta aos fingidos habitantes do hemiciclo

Assisti, incrédulo, a comportamentos inexplicáveis, próximos a estados de raiva canina, na Assembleia da República nos dias de debate do programa do governo.

Triste, amargurado, desesperado, revoltado e porque, infelizmente, eles entram diariamente nas nossas casas, resta-me dar voz à indignação para exorcizar os demónios que me atormentam.

 

Aí vai o que senti…nesses dias.

“Contradigo a contradição que se afirma em mim.

Recuso rever-me na obscura transparência dos eleitos fingidos que, em bicos de pé, se sentam nas cadeiras do hemiciclo.

Discursos fortes nos decibéis das palavras, inócuos no conteúdo, sustentam a irreparável sustentabilidade do acto.

O barulho ruidoso, escondendo a mediocridade do discurso, sobrepõe-se à timidez latente e explosiva do silêncio.

Eu poderia ser deputado fingido, se fosse permitido o voto de silêncio.

Falo alto, muito alto…mas o som não sai.

Os meus discursos interiores exteriorizam-se no silêncio.

O silêncio não permite o acto. O acto de deputar ou fingir praticá-lo.

Fingir praticar o acto  é silenciar o silêncio, é amarrar o pensamento, é confundir a coerência, é explodir a explosão desbragada do discurso ruidoso.

Vociferam. Recordo na minha infância os cães que vagueavam pela minha terra.

Os cães vociferavam rosnando.

Eles, os fingidos deputados, rosnam vociferando.

 

Um deputado fingido é mais do que um cão.

Mais alto, mais pesado, veste melhor, acredito que mesmo mais inteligente…

Pior que um deputado fingido  é um deputado fingido reeleito.

Um deputado fingido reeleito é a suprema orgia do masoquismo.

Um acto que se prolonga para lá do tempo, perpetua o tempo fora do tempo.

Os perdedores são arrogantes.

Os ganhadores são arrogantes.

Diferenciam-se no semblante expressivo da sua inexpressividade intelectual.

Sinto-me encarcerado pelos meus representantes fingidos …encurralado numa jaula aberta ao mundo.

Os assumidos, de todas as bancadas parlamentares; deveriam expulsar os fingidos, de todas as bancadas parlamentares.

Desapareceria o deputar e emergiria o representar..

Não sei ser fingido…

Na minha rua habitam muitos cães. Também habitam pessoas.

A rotina invade a rua e esta é penetrada pelo silêncio, pela quietude. A paz transporta-nos para a felicidade estéril, proporciona o bálsamo para feridas já  saradas.

A mudança surge, a rua é sugada pelos uivos, ladrares e rosnares da matilha canina.

Agigantem-se os anões, elevam-se os fracos, mordem os desdentados.

Assim vejo os fingidos…

 

Sei o que não quero.

Sei o que quero.

 

Eu não quero ser um deles.

Se eles são letrados, eu quero ser analfabeto.

Se eles são inteligentes, eu quero ser acéfalo.

Se eles são bem falantes, eu quero ser afónico.

Se eles são bonitos, eu quero ser feio.

Se eles são felizes, eu quero ser infeliz.

Sei o que não quero.

Não quero ser como eles.”Redação Gazeta da Beira

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