João Pedro Coelho

O Português Opinativo

Florescem como cogumelos… São os opinativos.

Este pequeno escrito surge da observação deste fenómeno na sociedade portuguesa. Não o leiam sob uma perspectiva científica. Direi, ao contrário dos opinativos, não possuir conhecimentos para analisar sociologicamente este fenómeno.

Assim, não emitirei opinião; mas, somente, descrevei o que observo. Os opinativos que me desculpem a modéstia.

Eles, os opinativos, apresentam opinião sobre qualquer assunto, independentemente de o conhecerem ou não. Opinam…simplesmente…

São os “sabem tudo”, “conhecem tudo”, “estão informados de tudo”.

Falemos de austeridade, da situação grega, do desemprego, da Desunião Europeia, do Eusébio no “panteão nacional” ou de qualquer assunto de telejornal e eis que eles surgem.

Não são identificáveis por credo religioso, credo político, sexo, raça, ascendência, escolaridade, residência ou preferência sexual.

São atentos, muito atentos, particularmente ao seu chefe partidário ou desportivo. Falamos do Costa, do Passos, do Jerónimo, do Pinto, do Filipe, do Bruno…desses chefes.

São intelectualmente submissos, embora, em situações extremas, possam ser “infiéis”.  No entanto, nota-se que entre estes indivíduos o conformismo e a resignação estão cada vez mais presentes.

Dão uma especial atenção aos media. Desenvolvem estratégias que lhes permitem ler os títulos dos jornais e apreendem, de imediato, todo o texto. Também na televisão usam técnicas semelhantes. Lêem os rodapés dos noticiários e sentem-se preparados…

Gostam de televisões tipo CMTV,  com uma grelha diversificada: crime, prisão, desporto, violência, perseguição, desporto, sexo,  famosos, concursos, desporto, sexo, incêndios, desastres, desporto, sexo….

Quanto a jornais, a sua preferência vai para publicações como Correio da Manhã. Neste caso, entendo que a preferência, talvez,  se deva ao tipo  e tamanho da letra usada nos títulos das notícias. Tem-se observado, também, que uma franja destes opinativos, gosta de se passear, aos fins de semana, com um jornal dentro de um saco plástico.

No que diz respeito a idades, a tendência opinativa surge a partir dos trinta e acentua-se ao longo da vida. Acredito, que apresenta uma via mais independente,  menos atenta ao líder e consequentemente mais própria e autêntica, por alturas da idade da reforma. Nesta idade, podem, mesmo, verificarem-se “actos de rebeldia” .

No entanto, a “opinatividade” pode surgir mais cedo. O precoce aparecimento dá-se na idade juvenil, em ambos os sexos, em jovens que aderem às juventudes partidárias.

O fenómeno opinativo tem o seu apogeu em momentos eleitorais. Não observei variações do fenómeno em eleições autárquicas ou nacionais. Quanto a eleições europeias; aí sim, o fenómeno é menos intenso. Acredito, que o aumento significativo da “opinatividade” em eleições, deve-se à aspiração maior que os opinativos têm de, um dia, poderem vir a  serem líderes.

Falando de escolaridade, este fenómeno é transversal. Não se observam diferenças de “opinatividade” entre os níveis mais baixos e mais altos de escolaridade. Este é um aspecto muito positivo deste fenómeno. Entendo que Portugal se deve orgulhar da “justiça social” que impera neste campo.

Quanto ao sexo, não identifiquei uma preferência por um dos lados da barricada. Contudo, este fenómeno apresenta uma maior intensidade argumentativa no sexo feminino.

Falando de religiões, não são identificadas ligações mais intensas a um determinado credo. Este fenómeno encontra-se disseminado pelas diversas religiões  e seitas presentes no nosso território.

Relativamente à preferência sexual, observa-se que os opinativos têm o mesmo comportamento na sua vida sexual e na sua vida cívica. Tem-se assistido a um número crescente de adeptos de práticas sexuais masoquistas. Não é claro , se estamos em presença de uma transferência da vida cívica para a vida sexual, o inverso, ou serem extensão uma da outra.

Para terminar, e como conselho para os não-opinativos que me irão ler, vou deixar uma técnica que desenvolvi e que, aparentemente, tem algum sucesso.

Quando se sentirem incomodados com a presença de um ou mais opinativos, afirmem duas ou três vezes que não conhecem suficientemente o assunto para emitir opinião. Eles, os opinativos, olharão com desconfiança e afastar-se-ão, pois não lidam bem com a diferença.

Usei esta técnica no início do texto, pelo que se chegou até aqui, bem haja, caro leitor.

Não por ter lido, mas por ser um não-opinativo.Redação Gazeta da Beira

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