João Pedro Coelho
O PORTUGUÊS SUAVE
Olhou para as paredes gastas da sua casa. Casa que foi dos seus pais.
Retornou, agora, quarenta anos depois de sair da aldeia e rumar à grande cidade.
Chamou pela mulher…que já não o ouve. A doença levou-a, fez pela Páscoa cinco anos. Continua a falar com ela. Nunca se sentiu tão próximo, como agora. Partilha com ela todas as suas angústias, pois já nada mais lhe resta para partilhar.
O mundo desabou. A doença da mulher, a sua morte, a depressão, o despedimento. Trabalhou na mesma empresa trinta e quatro anos. Mas, a reestruturação, a necessidade de sangue-novo, a necessidade da necessidade….não sabe, nem nunca entendeu a necessidade de o “desnecessitarem”.
Um dia de manhã foi chamado pelo chefe. A caminho do gabinete, interrogou-se sobre os motivos desta chamada. Não conversavam há mais de uma ano. Ele, vai perguntar pela saúde da sua mulher e não sabe que ela já morreu.
Entrou no gabinete , ensaiando a frase de agradecimento à preocupação do seu chefe: “Muito obrigado, Dr. Jaime”.
Ensaiou, de novo: “Muito obrigado, Dr. Jaime”
O Dr. Jaime acabou de assinar uns papéis, descansou os óculos na secretária e com uma voz fingida (?) de emoção, disse-lhe: “Costa, sabe, eu tenho que cumprir ordens. O senhor está despedido. Esta maldita reestruturação. Passe pelo Pessoal, agora mesmo; já está tudo tratado. Ahhhhh ….e boa sorte”
Olhou para ele e, só conseguiu balbuciar:
“Muito obrigado, Dr. Jaime”.
Nessa tarde, o bairro da cidade grande pareceu-lhe, ainda mais cruel, mais desumano, mais descaracterizado.
Deixou de ter projectos.
Deixou de pensar no futuro.
E, interrogou-se se existirá, alguma vez, um futuro diferente deste presente…
As noites são difíceis. Felizmente, o frio já lá vai. Mas, o calor traz-lhe recordações da sua juventude.
Esta casa, estas paredes, os seus pais.
Os amigos…Onde andam eles?
O Belmiro, nunca mais ouviu falar dele.
O Sebastião foi para França e por lá ficou. Dizem que vem cá todos os anos.
O Fernandes foi para Lisboa. Curioso, nunca se encontraram por lá….nem por cá.
O Ismael, o seu maior amigo, foi para a América. Dizem que é dono de um stand de automóveis, por lá.
O que ele fez aos seus amigos?
Porque os perdeu?
Hoje, olha para trás e sente saudades.
Saudades, do que viveu; mas, ainda mais, daquilo que não fez, daquilo que não disse…sente saudades daquilo que não foi.
Os seus filhos, sim, tem dois.
Grandes, casa dos vinte e muitos anos. Solteiros…fazem bem.
Queria tanto que fossem doutores ou engenheiros.
Se o fossem, hoje trabalhariam nas caixas dos supermercados ou nessas coisas novas que chamam call centers.
Se trabalhassem….
Mas está contente. Seguiram o conselho dos nossos governantes e emigraram.
Não quer que eles o ajudem…Só quer que não precisem de ajuda.
Sente uma tristeza enorme.
Nunca conseguiu tratar a sua Mafalda como a princesa que ela era.
Ela tinha o sonho de irem de férias às Caraíbas.
Passava pelas agências de viagens e trazia, para casa, os folhetos promocionais.
E desfolhava, desfolhava e dizia: “Olha, que bonito…”.
Ele respondia: “Eu levo-te lá, um dia eu levo-te lá…”
E, só a levou à Costa da Caparica.
A Mafalda dizia que quando se reformassem iriam às Caraíbas.
Tem saudades dela, da vida a dois.
Dói voltar à terra, mais pobre do que quando partiu.
As poucas economias foram gastas para tentar vencer a doença e contrariar os tempos de espera dos hospitais públicos.
Ela, a doença, ganhou.
O Costa e a Mafalda perderam.
Fez-lhe bem ir à Igreja.
As mesmas paredes, rostos antigos, caras novas e padre moderno.
Foi acolhido e sentiu-se em casa.
Hoje ele foi ao cemitério da sua aldeia.
Estão lá o seu pai e a sua mãe.
A sua Mafalda repousa na cidade grande.
Encontrou-se sozinho no cemitério. Escolheu uma campa aberta e procedeu ao funeral.
Enterrou o passado. Despediu-se dele sem emoções e sem demoras.
Sente-se suavizado, sente-se bem.
Vai fechar os olhos …e vai tentar dormir pela primeira vez nos últimos 5 anos.
Acordou.
Os pássaros esvoaçam num alegre tisnado.
Olhou para a rua. O som descontraído das vozes dos vizinhos, o barulho dos animais a dirigirem-se para o campo, o som de um carro ao longe, o silêncio dos montes…tão familiar, tão próximo e tão tranquilizador.
Sente o cheiro da sua terra.
Não vai perder mais nenhum dia.
Vai encontrar o Belmiro, o Sebastião, o Fernandes e o Ismael.
Vai continuar o “legado” dos seus pais. Estas terras não merecem estar ao abandono.
Esta casa, a sua casa, necessita de umas melhorias…para quando os seus filhos cá vierem.
E, Mafalda, ele, ainda, irá às Caraíbas.
João Pedro Coelho
Junho 2015Redação Gazeta da Beira
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