João Fraga Oliveira
“Brexit”?

“Uma imagem vale mais do que mil palavras”.
Não era com certeza com o “Brexit”, com a saída do Reino Unido da União Europeia, que, há 25 séculos, o pensador e filósofo chinês Confúcio (551 a.C. – 479 a.C. ), terá deixado esta frase para a posteridade.
Mas, sem dúvida, a frase mantém muita actualidade. Em muitos domínios, por exemplo, muito, na publicidade. Mas talvez não tanto na política…
É que, admitamos que por causa da assertividade dessa frase, somos tentados a simplificar, com esta imagem de um casal de costas voltadas a caminharem em sentido contrário, o que se presume vai acontecer a partir de 23 de Junho de 2016, com a votação no referendo (que temos que reconhecer como livre e democrático) sobre a saída do Reino Unido da União Europeia,
Contudo, não obstante a reconhecida sabedoria de Confúcio, esta imagem pode … confundir-nos. Pode ser enganadora. Pode, até, ser o inverso (ou, pelo menos, o anverso) figurativo do que, realmente, está e virá a acontecer.
Deixemos por um pouco a imagem e confiemos também nas palavras, na reflexão.
Esta “União” Europeia, desde há pelo menos 25 anos, baralhou a sua “caixa de velocidades”: substituiu “cidadania europeia” e o respeito das opiniões dos europeus pela euro-burotecnocracia; as pessoas pelas “regras” financeiras; o crescimento com emprego e desenvolvimento social pelo austeritarismo e pela ameaça de “sanções” (só para alguns, porque, por exemplo, … “a França é a França”); o Modelo Social Europeu e o valor do trabalho pela insensibilidade social e pelo financeirismo; a coesão assente no progresso social pelo retrocesso social e pela acentuação das desigualdades; o efectivo acolhimento e integração dos refugiados pelo vergonhoso “contrato de associação” com pagamento mercenário a países (como é o caso da Turquia) que constroem vergonhosos muros nas suas fronteiras para lhes impedir a entrada; a solidariedade pelo neoliberalismo; enfim, aquilo que mais esteve na sua origem, a paz entre os povos, pelo resvalamento objectivo (no mínimo, por omissão) para aquilo que pode reavivar a guerra, a xenofobia e o racismo.
Aliás, talvez seja importante fazer aqui um parêntesis para afirmar que, sobre isto que precede, ainda que “União Europeia” seja um conceito legal, com sustentação jurídica (expresso e definido no Direito Comunitário e não só), nisto, “União Europeia” é muito vago. Nisto, “União Europeia” tem nome(s) e apelido(s): David (Cameron), claro, mas, também, Tony (Blair), José Manuel (Durão Barroso), Jeroen (Dijsselbloem), Merkel (Angela), Wolfgang (Schaüble), François (Hollande), pelo menos.
Para além de outros nomes e apelidos menos sonantes que, logo que se apanharam a governar os seus países (entre os quais, Portugal, bem o sabemos e sentimos), trataram de subservientemente seguir (e até a quererem ir “mais além”) os ditames daqueles sonantes nomes e apelidos do directório da “União” Europeia.
É até caso para perguntar se, na Europa (que não é só a União Europeia), quanto a esses nomes mais ou menos sonantes, também, …“namexit”?…
Mas, feito este parêntesis, em resumo, a “União” Europeia, relativamente à sua génese (há quase 60 anos) de valores, de princípios e de propósitos, começou a andar para trás: socialmente, economicamente, politicamente.
É certo que não nos podemos (devemos) iludir. É certo que o que terá subjazido ao voto de muitos que optaram pelo “Brexit” pode não ter sido – não foi com certeza – o objectivo, a intenção, de o Reino (ainda…) Unido passar a andar em sentido contrário a este actual caminhar da “União” Europeia que atrás se especificou. Pelo contrário.
E, daí, de facto, esta imagem poder ser enganadora, porque, o objectivo de muitas dessas pessoas que votaram “ Brexit” terá sido (e essa hipótese é induzida pelo que e quem representam os primeiros cantores da “vitória”, como, por exemplo, em Inglaterra, o sr. Nick Farage e, claro, em França, a sra Marine Le Pen…) o objectivo de, sim senhor(a), o Reino Unido se distanciar da União Europeia mas, andando naquele mesmo sentido social e político, isto é, (também) para trás. Só que, … pelo grande empurrão que a própria “União” Europeia nisso lhes deu, (ainda) mais depressa.
Mas a imagem pode ainda ser, ou, pelo menos, ainda poder vir a ser, enganadora por uma outra razão mais importante.
Pode ser – esperemos que seja – enganadora, na leitura de que a dinâmica de distanciamento entre as duas figuras que a imagem transmite significa que muitos votantes pelo “”Brexit” o fizeram com a (boa) expectativa de que, com a separação deste “(des)amante”, a União Europeia “leve um abanão” e inverta a marcha e (de novo) passe (social, económica e politicamente) a andar para a frente.
Afinal de contas, se “uma imagem vale mais do que mil palavras”, também vale bem duas hipóteses de leitura mais ou menos diferenciadas da que, primariamente, essa imagem sugere.
De qualquer modo, para já, sobre este “Brexit”, o que não se pode é pretender, simplisticamente, julgar a realidade por esta imagem e entender que, nela, é só a dinâmica (o rumo) da figura do Reino Unido que deve ser corrigida (e até, sabe-se lá, “vingada” num qualquer Conselho Europeu…) e não, também, mesmo sobretudo, a dinâmica da figura que pretende significar o caminho social e político que, ultimamente (digamos, pelo menos nos últimos 25 anos), tem seguido a “União” Europeia.
E, neste caso, até porque – repete-se – a Europa dos europeus (e que querem, por muitas razões sociais, culturais, políticas e económicas, continuarem a ser europeus) não é apenas a União Europeia (e muito menos só a “União” Europeia do seu actual directório e “regras”…), isso depende muito de nós, como portugueses europeus (mais do que como europeus portugueses), depende, aqui, muito mais do que das imagens, das nossas (muitas vezes mil) palavras (reflexão, debate, propostas).
E daí, claro, sobretudo, das nossas acções. Pessoais, colectivas, sociais, políticas.
Enfim, depende do que tem faltado nesta “União” Europeia, depende da Política. Com maiúscula.
É por isso que, por enquanto, a única certeza que nos advém desta e de outras imagens sobre o dito “Brexit”, e até dos milhares de vezes mil palavras com que por aí nos empanturram os “comentadores residentes”, por enquanto, sobretudo se entretanto nós próprios não formos (re)construindo alguma(s), a única certeza é … a incerteza.
Daí que, concluindo, … “Brexit”?Redação Gazeta da Beira
Comentários recentes