João Fraga de Oliveira
EDP “acumulação”

Presumo que, com este título, alguns leitores se intrigarão, se é que não se chocam (isto tem a ver com electricidade…)
Parecer-lhes-ia, com certeza, mais lógico (porque real e formal) o título EDP Distribuição.
Mas, como concluiremos mais adiante pelos factos, pelo menos sob determinada ponto de vista, nem sempre o nome é a coisa nomeada.
Há, portanto, factos que suportam este artigo. E, por isso, achei justificado, no título, adaptar o nome aquilo que, de facto, é a coisa nomeada. O que se segue, … algo concreto, da vida, do vivido.
A EDP Distribuição está a enviar cartas aos seus clientes avisando-os da necessidade de verificação, por técnicos seus ou subcontratados, do contador doméstico de energia eléctrica fornecida, tendo em vista ser aferido tecnicamente da eventual necessidade de substituição desse aparelho.
Para o efeito, convida os clientes a telefonarem para certo número da empresa indicado na carta, visando o “agendamento” telefónico da data e hora da visita dos técnicos.
O cliente telefona, é feito o tal “agendamento” para determinado dia e hora (num período de duas horas, por exemplo, das 13 às 15), sendo vincadamente avisado (com provável gravação da chamada) de que, se não estiver em casa no dia e horas desse “agendamento”, pagará uma taxa (mais uma …) de 20 euros.
Dias antes da data “agendada”, o cliente recebe mesmo, no seu telemóvel, uma mensagem (SMS) informando que a EDP “confirma o agendamento para o dia e hora” telefonicamente “agendados”. E até, dias depois, mais próximo ainda do tal dia “agendado”, acumula o cliente novo SMS da EDP Distribuição “recordando o agendamento” para o tal dia (repetidamente) ”agendado”.
Mais ainda: no próprio dia “agendado”, em cima da hora (também) “agendada”, o cliente (re)acumula um novo SMS da EDP Distribuição informando que “a equipa técnica está a caminho” e sugerindo (exigindo? atenção à ameaça da tal “taxa” de 20! – aterroriza-se o cliente) que “por favor não se ausente do local combinado.”
Com o interesse em resolver o mais rapidamente possível o (eventual) problema técnico do seu contador e com todos os sentidos apurados (tendo em conta a ameaça da famigerada “taxa”), olhos e ouvidos alerta como de sentinela militar se tratasse, lá fica o cliente, na data e horas do tal “agendamento”, à espera da “equipa técnica que está a caminho”.
Esgota-se o tempo do período “agendado” (as tais duas horas) e o cliente espera ainda, expectado (ou melhor, pior, especado), mais duas horas de eventual atraso da “praxe” (e praxis, experiência de “agendas” anteriores, com a EDP e não só).
Mas, nada. Nenhum técnico se lhe “distribui” lá a casa, nem se vislumbra no horizonte.
(Re)telefona, barafustando, o cliente, depois de aguentar música (condizia se fosse electrónica) durante o que lhe parece uma “eternidade” (segundo a respectiva regulamentação, o cliente não deve esperar mais de 60 segundos a ser atendido(1)) e, por fim (não se iludam, não há ainda fim nenhum…), lá lhe é “distribuído” telefonicamente novo “(re)agendamento”. Acompanhado, claro, da “distribuição” de novo aviso de que poderá pagar a tal taxa de 20€ se não estiver na “agenda”, digo, em casa, no (novo) “(re)agendamento”.
Ora bem, aliás, mal! Repetida, dias antes do “agendamento” e no próprio dia “agendado”, a corrente (que também é eléctrico-electrónica) de SMS atrás descrita, no dia e período “(re)agendado” e mesmo no pós-“(re)agendado” (pelo menos mais duas horas, não vá aparecer, se não a “equipa técnica”, a tal “taxa” de 20 euros), lá fica o cliente a (res)secar, à espera dos técnicos “distribuídos”.
Mas – adivinharam! -, nenhum técnico lhe “distribuiu” o portão, nem dele é visível qualquer sinal até onde a vista e os ouvidos, bem afinados, alcançam.
Repete-se ainda, mais uma vez, esta “descarga” (o tema é, ainda, electricidade…) de telefonemas, de SMS e de esperas “agendadas”, descarga essa que acaba por resultar numa grande carga de adrenalina e indignação.
Agora, o cliente já está de tal maneira com os nervos (e não só) “distribuídos” que chega a “auto-agendar” pegar num martelo e “distribuir” o contador pelos administradores todos da distribuidora. Ou seja, da EDP.
Com este comportamento (técnico, comercial, empresarial, organizacional), fica a ideia de que a EDP, para os clientes, para os cidadãos, tende a já não existir.
Fica a ideia, por isto e não só, de que a EDP que passou a existir é a EDP:
– para os accionistas, pelos dividendos dos lucros que estes embolsam;
– para os altos gestores, pelos chorudos “salários” e “prémios” que estes auferem, bastando dizer que o do gestor de topo (“CEO”) da EDP é de dois milhões de euros anuais, 39 vezes mais que a média das remunerações dos trabalhadores de base (sobre o que, aliás, já aqui, na Gazeta da Beira, se escreveu anteriormente1).
Fica a ideia de que a EDP que agora existe “distribuída” para os clientes e para os cidadãos é:
– a EDP desresponsabilizada para call centers, “aranhas” telefónico-informáticas empresariais, em regra subcontratadas, em cujas teias, frequentemente, ficam presos os trabalhadores com condições de trabalho degradadas, desregulação de horários de trabalho e baixos salários(2), bem como ficam presos os clientes demasiado tempo, “pendurados” até serem devidamente atendidos);
– a EDP sub(sub, sub, sub)-contratada a prestadores de serviços atrasados no incumprimento de compromissos;
– a EDP dos segundos preços mais altos de energia eléctrica na União Europeia;
– a EDP que, segundo recente comunicado da Autoridade da Concorrência, “abusa da sua posição dominante no mercado, implicando mais de uma centena de milhões de euros de custos adicionais para os consumidores e para o sistema eléctrico”(3).
Enfim, fica a ideia de que a EDP – Distribuição não “distribui” devidamente o cumprimento do contrato que tem com os consumidores.
Ora, “EDP Distribuição” é uma razão social responsabilizante. E não apenas porque presta um serviço público legalmente caracterizado como “essencial”(4).
Também porque “distribuição” é uma palavra que não pode ser ”invocada em vão”, inconsequentemente, sobretudo num país com um dos mais altos níveis de desigualdades sociais da União Europeia.
Contudo, como decorre do que precede, fica a ideia de que a EDP, mais (menos) do que essa distribuição contratual de prestação de serviço ao cliente que deveria assumir e realizar sempre melhor quanto a qualidade e prontidão, o que predominantemente faz é acumular lucros, acumular dividendos para os accionistas, acumular “salários” principescos e iníquos dos gestores, acumular altos preços da energia, acumular práticas concorrenciais de mercado que acumulam “custos adicionais para os consumidores” acumular falta de qualidade e prontidão no serviço (público, “essencial”, recorda-se) devido aos clientes.
Por isso, o título deste artigo. Porque, objectivamente, pelas razões precedentes, a palavra que mais sentido parece ter para associar à EDP não é “distribuição” mas, sim, acumulação: “EDP acumulação”.
(1)Artigo: “Trabalho: desigualdades que a igualdade desconhece” – edição da GB de 23/5/2018 – https://gazetadabeira.pt/joao-fraga-de-oliveira-73/
(2) Também já aqui se escreveu sobre isso: Artigo “Emprego digno .- não há cal center que corte a raiz ao pensamento” I e II – GB, respectivamente, de 11 de Janeiro de 2018 (https://gazetadabeira.pt/joao-fraga-de-oliveira-64/) e 26 de Janeiro de 2018 (https://gazetadabeira.pt/joao-fraga-de-oliveira-65/)
(3) Sítio (site) da Internet da Autoridade da Concorrência, 3/9/2018 – http://www.concorrencia.pt/vPT/Noticias_Eventos/Comunicados/Paginas/Comunicado_AdC_201812.aspx
(4) Alínea b) do Nº 2 do Artigo 1º da Lei Nº 23/96, de 26 de Julho, na actual redação da Lei 12/2008, de 26 de Fevereiro.
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