João Fraga de Oliveira
Futebol?

“Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.”
É de supor que me tivesse lembrado desta frase de Albert Camus1 influenciado pelo campeonato mundial de futebol e pelo interesse que este evento desportivo me suscitou. Essencialmente, pelos bons jogos de futebol (propriamente dito, dentro do campo) a que pudemos assistir.
Mas, não. Por mais paradoxal e intrigante que isso pareça, foi por causa de algo que é exemplo da negação dessa frase.
Sim, veio-me à memoria este pensamento de Albert Camus ao ler um comunicado da Unione Sindacale di Base, um sindicato italiano que abrange os trabalhadores da FIAT, mais precisamente, da fábrica do grupo FCA (Fiat Chrysler Automobiles), em Melfi, no sul de Itália, em que justificavam a marcação de dois dias de greve (das 22 horas de domingo, 15/7/2018, às 6 horas de terça-feira, 17/7/2018). Um excerto desse comunicado:
“Os operários da Fiat constroem a fortuna dos proprietários há pelo menos três gerações, enriquecem quem anda em torno da empresa, e em troca recebem sempre e somente uma vida de miséria.”
“Dizem-nos que o momento é difícil, que devemos recorrer às prestações sociais enquanto esperamos pelo lançamento de novos modelos que nunca chegam. E enquanto os operários e as suas famílias apertam cada vez mais o cinto, os proprietários decidem investir imenso dinheiro num único recurso humano!.”
“É inaceitável que enquanto aos trabalhadores da FIAT a empresa continua a pedir há anos enormes sacrifícios a nível económico, a mesma decida gastar centenas de milhões de euros para a aquisição de um futebolista”.
“Isto é justo? É normal que uma pessoa ganhe milhões e milhares de famílias não consigam chegar ao fim do mês?”
O comunicado e a greve decorreram, mais concretamente, do facto de esses trabalhadores não verem os salários aumentados já há vários anos, relacionando isso agora com a decisão da empresa sua entidade empregadora de, em vez de lhe melhorar os salários, desviar meios financeiros para um clube de futebol que detém (Juventus Football Club, mais conhecido por “Juventus de Turim”) “comprar” (as aspas significam a repugnância que me induz a utilização desta palavra com referência a pessoas) o futebolista português Cristiano Ronaldo (ao Real Madrid, de Espanha) por 117 milhões (117.000.000!) de euros, bem como para pagar a esse futebolista o principesco “salário” anual de cerca de 30 milhões (30.000.000!) de euros.
Precisando, a Juventus é um clube de futebol que não só é liderado por Andrea Agnelli, herdeiro do fundador da FIAT, como, sobretudo, é detido pela empresa (EXOR N.V.) que também é dona da FIAT.
Ou seja, a empresa para quem, de facto, esses trabalhadores trabalham com salários congelados há anos e a quem são pedidos (mais) sacrifícios salariais em quebras de produção, é a mesma empresa que, de facto, “compra”, por um “preço” escandaloso, um futebolista a quem vai pagar um “salário” escandaloso.
Isto para não referir o facto, com certeza acentuador do desagrado dos trabalhadores da FIAT, de, neste “defeso” de 2018 do “mercado do futebol”, a Juventus (heptacampeã de Itália) já ter gasto em “compras” de futebolistas cerca de 222 milhões de euros.
“Uma iniquidade” revoltante face à condição salarial dos trabalhadores da FIAT, como também diz o comunicado sindical.
Dirão, com certeza, os leitores deste artigo: Mas o que é que aquela frase de Camus tem a ver com isto?
Muito. Desde logo porque, no mundo do futebol que da frase é referência, esta situação é exemplo da negação dessa frase, não só porque nada ensina de “moralidade” como nada ensina – antes pelo contrário – de “cumprimento das obrigações dos homens”, designadamente de obrigações dos homens a quem, porque gerindo uma entidade empregadora, são atribuíveis obrigações de responsabilidade social e justiça social.
Vem, portanto, aqui a propósito aquele pensamento de Camus não porque se relacione com algo que com ele coincide mas, sim, porque se relaciona com algo que com ele contrasta. E até com algo que, concretamente, o nega.
Ainda assim, por ainda mais intrigante que isso pareça, não se contesta minimamente toda a pertinência e sabedoria desse pensamento de Albert Camus (se bem que o autor deste artigo seja suspeito ao escrever isto, porque do muito que já leu de Camus não consegue lembrar-se do que discorde nos seus livros).
Mas Albert Camus escreveu esta frase há mais de, seguramente, 50 anos (faleceu em 1960).
E então, com certeza, escreveu essa frase no contexto de (outros) valores desportivos, humanos e sociais que mais determinavam o futebol e eram determinados pelo futebol a que ele sempre esteve associado, inclusive como praticante (foi guarda-redes do Racing Universitaire de Alger no início da década de 1930).
Teria, pois, então, todas as razões para o pensamento sobre o futebol que essa frase contém.
Mas, agora, como conciliar aquela sua frase de então com situações do mundo do (actual) futebol como esta que os trabalhadores da FIAT denunciam (provavelmente, muitas idênticas haverá mesmo bem mais perto, inclusive em Portugal)?
É que, desde então, há muito que o futebol, mais concretamente o futebol para além do que estritamente se passa só dentro do campo, deixou de ser fonte de exemplo da “moral e das obrigações dos homens”.
Há muito que o futebol deixou até de ser desporto, quase até mesmo de ser essencialmente futebol. Para, ao degenerar em “mercado”, passar a ser essencialmente negócio e, daí, a passar a ser cada vez mais descaracterizado como, genuinamente, desporto.
Ora – leis do mercado -, se são “comprados” por aí futebolistas como qualquer mercadoria, pelos vistos, menos “valor de mercado” têm os trabalhadores (os operários da FIAT e não só).
Isto, não obstante, desde há 74 anos (10/5/1944), constar da Constituição da OIT, como primeiro princípio, que “o trabalho não é uma mercadoria”, porque – é o que daí se deduz – se consubstancia nas pessoas que o realizam.
Ao tudo (economia, saúde, educação, trabalho, desporto…) conceber por uma visão de mercado, o valor (“preço”) extrínseco (construído pela publicidade, pela mediatização, pela alienação, como é patente na imagem que ilustra este artigo) de um futebolista, determinado pela lei da “oferta e da procura”, torna desprezível (e desprezado) o intrínseco valor real do trabalho, o valor essencialmente humano e social que do trabalho das pessoas (por exemplo, dos operários da FIAT) resulta para as pessoas e para a sociedade.
O futebol é agora um exemplo de lealdade, de amizade, de dignidade, de isenção, de incorruptibilidade, de honestidade?
Não. Não é. Talvez já tenha sido, há muitos anos, eventualmente, no tempo em que Camus o caracterizou como cidadão e até como guarda-redes.
Deixou de o ser e é-o cada vez menos. Para passar a ser (mais) um mercado… nesta sociedade de mercado, digo, economia de mercado.
O futebol passou a ser um mero (grande) negócio, perante o qual (quase) toda a gente fica deslumbrada (ou, pelo menos, indiferente), por mais não moral e contrário às “obrigações dos homens” que seja o que nesse, desse e para esse negócio se decida e pratique. Por exemplo, para já não referir situações ainda menos “morais” (para não dizer promíscuas, corruptas e até violentas) que são públicas, os valores “astronómicos” que circulam em “compras e vendas” e “salários” de futebolistas, chocantes face a níveis de pobreza (inclusive de trabalhadores) que perduram.
Enfim, salte ou não o “mercado do futebol” por cima da justiça social, dos direitos de trabalhadores e até da miséria destes, como é denunciado neste comunicado do sindicato dos trabalhadores da FIAT, (quase) toda a gente se mantém por ele deslumbrada (alienada?), passe ou não o “mercado do futebol” por cima da equidade, da justiça e da responsabilidade social.
Isso não impede que o futebol, estrita e genuinamente considerado como desporto, entendido como se confinando ao que de genuinamente desportivo se passa dentro do campo, não seja um exemplo de bom relacionamento humano e social, uma prática (em que, regularmente, o autor deste artigo também esteve em tempos envolvido) e até um espectáculo de inegável interesse, emoção e até beleza.
E mesmo, se assim entendido como desporto no sentido essencialmente desportivo, pode até ser um instrumento mediador e fomentador das relações sociais, quiçá da paz entre povos.
Contudo, entendido, como muito está a ser fora do campo como essencialmente negócio, vai degenerando em mero instrumento mercantil de caciquismo, de poder mediático-político(queiro), de intoxicação comunicacional, de negação do desporto, de negação do próprio futebol.
Em conclusão, não é novidade nenhuma para ninguém que, no futebol como negócio, como “mercado”, como não se aprende agora nada sobre a “moral e as obrigações dos homens”.
Se cá voltasse agora, Albert Camus, com certeza, apagaria aquela frase onde a escreveu.
1 Albert Camus (Argélia, 7/11/1913 –França, 4/1/1960) foi escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta, tendo-lhe sido atribuído, em 1957, o Prémio Nobel da Literatura.
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