João Fraga de Oliveira

Primeiro de Maio: minutos curtos e meses longos

Primeiro de Maio. Já lá vão 132 anos sobre o que lhe deu origem, em 1886, em Chicago, nos EUA, a morte, pela polícia, de vários trabalhadores na sequência de uma manifestação reivindicando mais vida (porque tempo é vida), por um horário de trabalho diário de oito horas, em vez das doze e até dezasseis que praticavam.

E, contudo, vindo as origens do Primeiro de Maio de tão longe e de há tantos anos, associado, vem-me à ideia algo que, muito mais próximo e de não há muito tempo, chegou a mim do terreno, da realidade, da vida. Que não só pela História.

“Nunca tive problemas com os minutos. Mas, agora, é de mais, não consigo…”

Estas palavras ouvia-as, há uns anos, a uma trabalhadora de uma fábrica de componentes electrónicos.

Dizia-as a chorar, por ter sido sujeita a um processo disciplinar (por sinal, com falhas processuais), por “falta de produtividade”, por “não render” o número de peças exigido nos minutos estabelecidos pelos parâmetros de “tempos e métodos” estabelecidos pela empresa empregadora.

Mais concretamente, por não conseguir “aguentar a produção” de aumento de determinado número de peças a realizar em certo numero de minutos.

Na fábrica onde essa trabalhadora trabalhava, as funções em causa eram essencialmente repetitiva e rotineiras e várias outras trabalhadoras tinham já sido clinicamente diagnosticadas como portadoras de doença profissional de ordem músculo-esquelética.

Esta é uma das facetas invisíveis da interpretação que muitos empresários e gestores têm da competitividade, essa “palavra-chave” (como, há uns anos, a caracterizou um ex-Presidente da República).

Vem isto a propósito da (maior) atenção que requer a qualidade do emprego quando, como agora, deteriorada pelos baixos salários, pela precariedade e pela sobreintensificação (em duração e ritmo) do trabalho,  está esquecida  sob o manto, estatisticamente brilhante, ofuscante, não apenas do crescimento da economia e do equilíbrio das contas públicas mas, mesmo, especificamente, da diminuição do desemprego com aumento da quantidade de emprego.

Tanto mais que estes três factores (baixos salários, precariedade e sobreintensificação do trabalho), reforçam-se mutuamente na deterioração da qualidade do emprego, na degradação das condições de trabalho.

Portanto, a “quantofrénica” exigência patronal acima relatada, verídica, é de há uns anos, mas a sua recordação pessoal não me soa como passado, soa-me como presente, porventura, até mais sonoramente.

Continuamos a ter dos mais baixos salários da União Europeia (um estudo recente do INE mostra que, ao mesmo tempo que a produtividade aumentou 20%, os salários dos portugueses estão ao nível de 2002, com perda de peso das remunerações no valor acrescentado bruto da economia de cerca de 5%). E, já se sabe, porque perante a mercearia, a luz, a renda de casa, etc., “o mês nunca mais chega ao fim”, quanto menos se ganha, mais tem que se trabalhar (grande perversidade, ganhar menos para trabalhar mais …), “dar o litro” na expectativa de “prémios de produtividade”, de trabalho suplementar (muito dele para além dos limites legais e, até, não totalmente pago de acordo com a Lei) e, mesmo, de duplo emprego.

Continuamos a ser dos países da União Europeia (e muito especialmente da zona Euro) com uma das mais altas taxas de precariedade laboral, de contratos de trabalho a termo e contratos de trabalho temporário, condição que tudo e mais alguma coisa leva os trabalhadores a “aceitarem”, na mira da renovação do contrato ou, talvez, da “efectivação” (contrato de trabalho permanente).

Estamos a construir e a seguir um caminho (é aqui muito perversa a invocação do célebre poema de Manuel Machado: “(…) o caminho faz-se caminhando”…) paradoxal: o da descida, estatisticamente bem visível, ostensiva, do desemprego e, mesmo, o do aumento da quantidade do emprego e, ao mesmo tempo, não tão visível, coberto por esse “manto diáfano” dourado e resplandecente das estatísticas (da baixa) do desemprego, no “escuro” da “caixa negra” dos locais de trabalho, o da perda de qualidade do emprego, destacando-se nesta, como sua causa, efeito e expressão, a sobreintensificação do trabalho.

Não se acreditam? Basta entrarem em algumas fábricas, “grandes superfícies” ou escritórios, mesmo em certos sectores da administração pública.

Olhem, basta entrarem num qualquer call center, sector que, também quanto a isso, já foi aqui objecto de um artigo meu1.

A sobreintensificação do trabalho, não há nenhuma dúvida sobre isso,  reflecte-se, imediata ou diferidamente, directa ou indirectamente, não apenas na perda de saúde (se não da vida…) dos trabalhadores mas, também, na sua família, no apoio à educação dos filhos, na natalidade cuja quebra aí está (de novo) patente.

Para além disso, como determinante e determinada da (falta de ) qualidade do emprego, repercute-se negativamente na sustentação da qualidade e produtividade (logo, na “competitividade”) da produção (bens ou serviços) das próprias organizações empregadoras (empresas, outras organizações, administração pública).

Projecta-se, em geral, na sociedade, visto que a qualidade do emprego é condição determinante do resultado do trabalho, da sua qualidade, segurança, prontidão e até humanização (mormente, quando esse resultado do trabalho integra uma relação humana, social, por exemplo, o atendimento, nos serviços públicos e não só). Ou seja, repercute-se em todos nós (como consumidores, clientes, utentes, contribuintes) e, daí, inclusive, perversamente, nos próprios trabalhadores. Como também já aqui referi, em anterior artigo2.

Talvez participe nalguma manifestação do Primeiro de Maio deste ano, honrando não apenas o que significou (e significa) o que, historicamente, há 132 anos, lhe deu origem,  mas, sobretudo, o que significou a sua primeira manifestação livre em Portugal, em 1974, só  possível com o Vinte e Cinco de Abril.

Contudo, certamente, por momentos ficarei absorto das palavras de ordem e dos discursos, pensando no que é que essas manifestações poderão mudar (ou fazer mudar) daquilo que, não manifestado, escondido por baixo da rectificação estatística da curva ascendente do desemprego e, mesmo, por baixo da acentuação da curva ascendente da quantidade de emprego, quanto a qualidade do emprego, se passa para com muita gente que trabalha em muitas empresas e até na administração pública: minutos curtos e meses longos.

Inspector do trabalho (aposentado)

 

1 “Não há call center que corte a raiz ao pensamento”- edição da Gazeta da Beira de 26/1/2018 – http://gazetadabeira.pt/joao-fraga-de-oliveira-65/

2 “Serviço Nacional de Saúde – o longo braço do trabalho” – edições da Gazeta da Beira de 7 e 21 de Fevereiro de 2018 -http://gazetadabeira.pt/joao-fraga-de-oliveira-66/ e http://gazetadabeira.pt/joao-fraga-de-oliveira-65/

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