João Fraga de Oliveira

PT / Altice: piadas...

Relacionando-se este texto com o trabalho (ainda que não só…), o título pode parecer uma provocação, já que o mundo do trabalho (e até o mundo, em geral, inclusive o que nos é mais próximo) não vai assim tanto para piadas, bem pelo contrário.

Contudo, como presumo que concluirão do que se segue, há quem ache “piada” ((legitimamente, claro) aquilo que (quase) mais ninguém acha piada nenhuma.

Bom, mas este começo, menos do que uma piada, parece uma charada. Expliquemo-nos sobre o que, quanto a ele, vem a propósito.

“PT / ALTICE – o trabalho não é uma mercadoria” é o título de um artigo que escrevi e foi aqui publicado, na edição da GAZETA DA BEIRA de 26/7/2017.(1)

Nesse artigo,  o que se escrevia sobre a situação laboral então existente no Grupo PT / Altice em Portugal, dado o grande anuviamento que claramente existia nas relações de trabalho, era duvidoso que inspirasse qualquer piada,

Lia-se então que, mais concretamente, os trabalhadores reclamavam por verem ameaçada a estabilidade do seu emprego pela utilização artificiosa da Altice da figura jurídica (Artº 285º do Código do Trabalho) de “transmissão do estabelecimento”.

Lia-se também que o Grupo Altice manteve, durante vários meses, mais de uma centena de trabalhadores totalmente inocupados numa sala (“sala de queimados” ou dos “sacrifícios”, ouvimos alguns trabalhadores chamarem-lhe, em público, na televisão), o que os trabalhadores consideravam “lesão da sua dignidade profissional” e “coacção para que se despedissem”.

Lia-se ainda que em 21/7/2017 os trabalhadores fizeram uma greve geral, apoiada pela Comissão de Trabalhadores e por todos os sindicatos representativos de trabalhadores no Grupo Altice Portugal.

Lia-se mesmo, nesse artigo e não só, que os trabalhadores reclamaram insistentemente a intervenção directa do poder politico e das autoridades, nomeadamente do Governo e da ACT, para lhes garantirem os seus direitos laborais que consideravam ameaçados.

E lemos até, mais recentemente, que, essencialmente por causa da situação laboral no Grupo Altice, houve enorme debate político e, mesmo – vejam lá! – a Assembleia da República foi mobilizada para aprovar uma lei, (mais) uma alteração ao Código do Trabalho (Lei 14/2018, de 19 de Março).

Leu-se tudo isto e, francamente, ficou-se com a ideia de que, pelo menos em Portugal, quanto a relações laborais, o Grupo Altice, “não é flor que se cheire” (assim, textualmente, também se leu isso, por aí)(2).

Pois fiquem sabendo que essa ideia que, pelo que fomos “vendo, ouvindo e lendo”, se nos manteve durante vários meses, ainda não há quinze dias, parece que nos foi lavada, muito bem lavadinha, da cabeça (e não só da nossa, com certeza de muita gente).

E, agora, quanto a relações laborais, a Altice Group até é capaz de nos  começar a cheirar quase a uma rosa perfumada.

O que também é curioso é que esta “mudança de cheiro” das relações laborais na PT / ALTICE, esta lavagem da má imagem pública que delas  tínhamos, decorreu de outras leituras.

Ler é sempre um exercício enriquecedor e surpreendente, nas emoções (da tristeza à alegria, da aprovação à indignação) e, até, pelos vistos, nas sensações físicas, por exemplo, nos “cheiros”.

De facto, esta mudança de ideia (de mais ou menos pejorativa para mais ou menos aprovativa) e de “aromas” sobre  o ambiente socio-laboral no Grupo PT / Altice em Portugal começou a tornar-se mais forte depois de termos lido que, no dia 29 de Março de 2018, tomaram posse como elementos do, recentemente criado, Conselho Consultivo para as Relações Laborais da Altice o Sr. Dr. José Silva Peneda e o Sr. Engenheiro João Proença.

Ora, há lá “mau cheiro”, má imagem pública quanto a gestão de relações laborais de uma empresa empregadora que não seja lavada quando cria um Conselho Consultivo para as Relações Laborais tendo como presidente um ex-ministro do Emprego e ex-presidente do Conselho Económico e Social, e como vice-presidente um ex-secretário-geral de uma das duas centrais sindicais portuguesas, a UGT?

Francamente, ao termos lido agora (ainda não há quinze dias) isto, até ficámos a pensar que tinha sido uma piada (de mau gosto) tudo aquilo que tínhamos lido (e escrito) antes, ainda não há um ano, sobre o anuviamento, o tal “mau cheiro”, das relações laborais existentes no Grupo PT / Altice, em Portugal.

Aliás, isto de pensar que foi uma piada também foi motivado por outra leitura, (leitura puxa leitura, “hipertexto”, como agora se diz …), visto que também lemos que o Sr Dr. Silva Peneda, quando agora questionado sobre este novo cargo na Altice, explicou: “Achei piada e não resisti ao desafio” (semanário Expresso, 30/3/2018 – pag. 16)(3)

Como sobre piadas também temos um consultor (e este, garantimos, a Altice não o contrata), entrámos em contacto com ele, no céu (estava no inferno mas o Papa Francisco acabou de o “fechar” e ele teve que se mudar à pressa para o céu), e desafiámo-lo a dizer-nos o que é que ele achava sobre este assunto.

Pois bem, começou por nos agradecer a pergunta desafiadora, retorquindo-nos de seguida, tal como, ao jornal Expresso, o Sr. Dr. Silva Peneda: “Acho piada e não resisto ao desafio”.

E, claro, respondeu-nos com uma piada, pertinente em qualquer circunstância mas porque até não tem nada a ver com o assunto (ou tem?) e vinda dele, só pode mesmo ser (mais) uma piada,: “O dinheiro é facilmente dobrável mas também dobra facilmente muita gente” (in revista Pif-Paf, criada em 1963 – autor: Millôr Fernandes – escritor, poeta, humorista, pintor, encenador – Rio de Janeiro, Brasil, 16/8/1923 -17/3/2012).


(1) Link da edição na Internet: http://gazetadabeira.pt/joao-fraga-de-oliveira-55/
(2) “A Altice não é flor que se cheire” (Nicolau Santos, Expresso – Economia 22/7/2017 – http://expresso.sapo.pt/opiniao/opiniao_cem_por_cento/2017-07-21-A-Altice-nao-e-flor-que-se-cheire#gs.fN8o1qE)
(3) “Silva Peneda na Altice: ‘Achei piada’”- http://expresso.sapo.pt/politica/2018-03-31-Silva-Peneda-na-Altice-Achei-piada#gs.74HiLnQ

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