João Fraga de Oliveira

Os “Dias” de todos os dias

Dia 8 de Março. Como todos os anos, muito antes, não faltou quem (jornais, rádio, televisão, publicidade distribuída pelo correio, porta a porta e via Internet) nos alertasse para o “Dia Internacional da Mulher”.

A instituição deste “Dia” já tem mais de um século e muitas razões podem (devem) ser aduzidas para lembrar a Mulher. Desde as mais óbvias (a Mulher Família – Mãe, Avó, Esposa, Companheira …) às menos reconhecidas (a Mulher Cidadã, a Mulher Trabalhadora, a Mulher Política …).

Mas não é errado ter como pressuposto de base no entendimento deste “Dia” o facto de a mulher se encontrar negativamente discriminada na sociedade.

Desde logo, no âmbito familiar e social, como as estatísticas demonstram quanto a violência doméstica (todos os dias 14 mulheres são disso vítimas, contabilizando apenas aquelas em que há queixas formais), de violências de outra ordem, de assédio moral e sexual.

Mas se à instituição do “Dia Internacional da Mulher” estiveram inicialmente subjacentes essencialmente razões de ordem laboral (a luta por melhores condições de trabalho, no início do século passado, nos Estados Unidos da América), o certo é que, ainda nesse domínio, não obstante o avanço da sociedade em matéria de direitos do e no trabalho, a discriminação da mulher não só se mantém como, nalgumas vertentes, tem aumentado.

Para além de serem as mulheres quem mais sujeito é a trabalho precário e prejudicado na sua ascensão profissional pela sua condição biológica e familiar, a desigualdade salarial entre homens e mulheres ainda é de tal ordem que, no contexto económico, organizacional e legal actual, o mundo vai precisar de quase 200 anos para anular as desigualdades salariais entre homens e mulheres.

Entre 2011 e 2016, na União Europeia, Portugal foi o país onde houve um maior  agravamento (4,6%) da desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Então, qual o resultado de todos os precedentes “Dias Internacionais da Mulher”?

Convenha-se que era de esperar que deles resultasse o reconhecimento, claro e consequente (isto é, com consequências …), de que a Mulher é, pelo menos no domínio laboral (mas não só), mais vulnerável, discriminada negativamente no contexto da actual (des)organização e (des)nivelamento da sociedade e do trabalho.

E que, assim, era de esperar que o assinalar anual deste “Dia” promoveria acções de diminuição, se possível eliminação, dessa acrescida discriminação.

Não é isso que está a acontecer, bem pelo contrário.

Então, para que servem este “Dia”? E, já agora, para que servem também outros “Dias”?

Sim, porque, também há o “Dia Internacional da Criança”, o “Dia Internacional das Pessoas Idosas”, o “Dia Internacional das Pessoas Deficientes”, o “Dia Internacional do Trabalhador”, o “Dia Internacional dos Sem Abrigo”, o “Dia Internacional dos Pobres”, etc.

Praticamente, não há um dia em que não seja considerado pelo menos um destes “Dias de” e, provavelmente, mais vão ser criados.

Qual será um dos possíveis nexos, denominador comum, que existe entre estes “Dias”, como o de 8 de Março, o “da Mulher”?

Alguém, generoso e bem intencionado, dirá: porque são dias dedicados a assinalar, com vista à sua efectiva resolução, os problemas humanos e sociais das pessoas que, como a mulher, a criança, as pessoas idosas, os deficientes, os trabalhadores, os sem abrigo, os pobres, são mais frágeis, mais vulneráveis, menos poderosas, mais excluídas, mais discriminadas.

Sim. À primeira vista, é convincente essa generosa e bem intencionada resposta, até porque parece que (ainda) não há o “Dia Internacional do Homem” (genericamente considerado), o “Dia Internacional do Adulto”, o “Dia Internacional das Pessoas Jovens”, o “Dia Internacional das Pessoas Eficientes”, o “Dia Internacional do Patrão”, o “Dia Internacional dos Proprietários de Mansões”, o “Dia Internacional dos Ricos”.

Mas, então, se é (fosse) assim, também amanhã, e depois e depois, sempre, devia ser, com a manutenção desses alertas e dessas denúncias (e, sobretudo, com as coerentes acções), “Dia Internacional da Mulher”, tal como deveriam continuar a ser seus “Dias” os dias seguintes aos “Dias” de todos os outros titulares de “Dias” que se referiram, da criança, das pessoas idosas, dos deficientes, dos trabalhadores, dos sem abrigo, dos pobres,

E, no entanto, como já se demonstrou com a continuação (e até agravamento) da discriminação salarial da mulher, no dia 9 de Março, hoje, amanhã e depois (todos os outros dias do ano), já é outra vez só (mais) um dia pessoal de discriminação da Mulher, tal como são só outra vez seus meros dias pessoais de vulnerabilidade, de discriminação, de exclusão, os dias seguintes aos “Dias” de todos os outros referidos titulares de “Dias”.

Sendo assim, volto à pergunta: por que é que há todos estes “Dias de” quem, apesar deles, continua vulnerável, fragilizado, discriminado?

Respondo à pergunta, deixando três outras perguntas, por mais cínicas e “desmancha-prazeres” que se julguem:

– Não será porque, mesmo com muito pouca ou nenhuma publicidade, facilmente se convence alguém a comprar (comprar…) qualquer coisa para oferecer a uma mulher, a uma criança, a uma pessoa idosa, a uma pessoa deficiente, a um trabalhador, a um sem-abrigo, a um pobre. Enquanto que, por mais marketing em que se invista, é mais difícil convencer comercialmente alguém a comprar qualquer coisa para oferecer a um homem (genericamente considerado), a um adulto, a uma pessoa jovem, a uma pessoa eficiente, a um patrão, a um proprietário de mansões, a um rico?

– Não serão muito estes “Dias”, apenas, mais um dia de (mais) mercado?

– Sem consequências efectivas de eliminação dos problemas humanos e sociais para os quais é suposto que alertem, objectivamente, não serão estes “Dias”, somente,  mais um dos “Dias” de todos os dias?

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