João Fraga de Oliveira

Serviço Nacional de Saúde: o longo braço do trabalho (I)

“O trabalho tem um braço longo” é uma metáfora da área da psicologia do trabalho (por exemplo, com Yves Clot(1) 1)  que releva a indissociável ligação, para o bem e para o mal, entre condições de trabalho e condições de vida das pessoas que o realizam.

Vem aqui a propósito do debate que está por aí aceso sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e, especificamente, sobre a relação entre a sua organização, meios e funcionamento, as condições de trabalho dos profissionais de saúde e as condições de tratamento dos utentes.

Neste domínio, esta metáfora, para além dessa ligação confinada à relação (mais óbvia) entre as condições de trabalho e as condições de vida de cada trabalhador em si, é especialmente  pertinente para, com base nela, salientar também a ligação (esta já menos reconhecida, infelizmente) entre as condições de trabalho de cada um e, com as implicações para terceiros, o resultado desse trabalho.

É que não há nenhum trabalho em que, directa ou indirectamente, imediata ou diferidamente, quem trabalha não se relacione com outras pessoas. Não apenas, pela execução do trabalho, com colegas de trabalho (incluindo aqui subordinados e superiores hierárquicos) mas, também, pela implicação que o resultado (o produto, seja ele bem ou serviço) do seu trabalho pode ter, para além da própria organização empregadora, em terceiras pessoas, sobretudo clientes ou utentes.

De facto, a relação entre as condições de trabalho de cada um e, pelo resultado desse seu trabalho, as implicações para com terceiras pessoas “salta aos olhos” em qualquer profissão, seja ela qual for.

A propósito, num anterior texto aqui publicado na Gazeta da Beira, já aqui dei um exemplo disso bem demonstrativo. Apesar de haver mais, muitos mais, volto a ele por me parecer o mais assertivo. É  o da profissão de trolha, profissão elementar, o que não quer dizer menos digna ou importante.

Qual é a qualidade (e a produtividade) do trabalho de um trolha, trabalhando ele em cima de um andaime a 30 ou 40 metros de altura a revestir a parede exterior de um edifício em construção sem a necessária proteccção (guarda-corpos) contra quedas em altura no andaime que o suporta?

Nestas circunstâncias, em que é que o trabalhador pensa: em trabalhar bem e depressa, preocupado com a produtividade e qualidade da tarefa de que está incumbido ou em agarrar-se para não cair? Para onde é que vai a produtividade e a qualidade do revestimento da parede?

Neste exemplo, é tudo concreto, material, muito visível:

– é visível o objecto do trabalho (a parede do prédio);

– é visível objectivo desse trabalho (o revestimento da parede);

– é visível o que determina a falta de condições de segurança (e, progressivamente, de saúde, por exemplo, lesões ou doenças músculo-esqueléticas ou, mesmo, stress acumulado pelo medo de queda) do trabalhador, concretamente, a inexistência ou insuficiência de adequados meios de protecção contra quedas em altura no andaime;

– finalmente, é visível a falta de qualidade do revestimento da parede causada, como já vimos, pela falta de condições de trabalho (de segurança, mormente) do trabalhador que a realizou.

Mas tal já não é tão facilmente visível, perceptível, quando o contexto de trabalho não é a construção de um edifício mas uma unidade de saúde e, daí, quando o “produto”, o objecto (e objectivo) do trabalho não é o revestimento da parede exterior de um prédio  mas a saúde, a saúde (se não a vida) de pessoas.

E é neste caso que esta íntima relação entre condições de trabalho e qualidade do resultado que esse trabalho visa, podendo ser um factor de tranquilidade e gratificação para quem o realiza e para quem dele beneficia, pode também ser algo que suscita profunda ansiedade e preocupação.

Um dos aspectos que os profissionais de saúde mais enfatizam quanto a “más condições de trabalho” é  o aumento da  duração e a crescente intensificação do ritmo de trabalho.

Não pretende este artigo enveredar, minimamente, pelas (macro)razões (organizacionais, financeiras, políticas?) que a tal poderão estar, ou não, subjacentes.

Algo a relevar, isso sim, é que os representantes dos profissionais de saúde dão especial destaque público às consequências desse aumento de duração e de (sobre)intensificação do ritmo de trabalho na sua própria saúde (cansaço, esgotamento físico ou mental, burnout, etc.), certo.

Mas algo ainda mais a destacar é o facto de associarem a esse risco  de consequências para a sua própria saúde o risco de, assim, não poderem garantir a qualidade e segurança dos cuidados médicos a dispensarem aos utentes que procuram o SNS, ou seja, ao risco de não garantirem a qualidade e a segurança do “produto” do trabalho que lhes compete.

A intensificação do ritmo e a duração de trabalho (de qualquer trabalho) tem sido analisada de uma forma muito simplista, quase só aritmética (“mais” ou “menos” duração), esquecendo-se que quem realiza esse trabalho são pessoas, pessoas que, pela sua complexidade biológica (física e mental), implicam deverem ser ponderados factores e consequências não tão simplistas.

Dai que, neste domínio do trabalho (duração, ritmos, organização e gestão de tempos de trabalho, de qualquer trabalho), existam alguns equívocos que convém melhor reflectir, visto que, mantendo-se, podem tornar-se perversos, perigosos mesmo.

Mas a reflexão desses equívocos e a sua projecção neste caso no sector da Saúde (ainda que essa reflexão e projecção seja extrapolável para outros sectores), do ponto de vista profissional (nos profissionais de saúde), organizacional (no Serviço Nacional de Saúde, como organização) e, sobretudo, social (nos utentes, nos cidadãos em geral, na sociedade), fica para a segunda parte deste artigo, a publicar no próximo número da Gazeta da Beira.

NOTA:

(1) Yves Clot – “La Foncion Psychologique du Travail” – PUF Paris, 1999

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