João Fraga de Oliveira

Emprego digno - não há call center que corte a raiz ao pensamento (I)

“Dinamização da economia e valorização dos recursos humanos”, garantiu então publicamente  o Sr. presidente da Câmara Municipal (Viseu), sobre a instalação no concelho, pela empresa “ALTICE”, de um “centro de atendimento” (call center, na formulação em inglesa, mais conhecida) com 250 postos de trabalho.

“A autarquia elogia a criação de emprego especializado“, noticiaram, a propósito, os jornais (por exemplo, o Jornal de Negócios de 6 de Julho de 2016).

Com o emprego a continuar (ainda) a escassear (e especialmente no interior), é natural que os call centers sejam um sector que mereça, a nível central, regional e local, acolhimento e elogio político.

Muito por isso (mas também por, com certeza, ser objectivamente rentável para os investidores), os cali centers tendem a crescerem por aí como “cogumelos”.

É um sector cuja titularidade e gestão tanto pode ser assumida pelo próprio utilizador da actividade / trabalho realizado (por exemplo, directamente, a administração pública), como por empresas “prestadoras de serviços” isoladas ou, como é vulgar, integrantes de grupos onde é podem existirem outras empresas (legalmente, não poderia ser a mesma de prestação de serviços de cal center) que se dedicam à actividade de trabalho temporário (ETT). Isto “facilita”, depois, dentro do grupo, em cadeia, a cedência de trabalhadores temporários da ETT à empresa de prestação de serviços que é titular do call center que presta o serviço solicitado pelo utilizador final do trabalho (que tanto pode ser a administração pública como empresas de telemarketing, de comunicação, etc.).

Este sector, segundo estimativa da Associação Portuguesa de Contact Centers, já emprega em Portugal de 80.000 a 100.000 pessoas e cada vez se espalha mais por cidades do interior do país.

Por isso, o que não falta por aí são declarações de autarcas, de ministros, até de primeiros-ministros (recorda-se aqui uma frase, sem qualquer suporte factual e que, depois, se veio a verificar inconsistente, do ex-PM engº José Sócrates, em Agosto de 2008, em Santo Tirso, anunciando a criação ali de um call center da PT com, textualmente, “1200 postos de trabalho qualificados”), fazendo a apologia do emprego criado por estes “centros de atendimento”.

Enfim, sobretudo quando de inaugurações (altura em que, quanto ao trabalho a ali ser realizado, ainda nada se vê que permita qualquer sustentado pensamento …), não faltam opiniões políticas de que “os call centers vão salvar a economia portuguesa” (como citava o jornalista o jornalista Paulo Moura numa excelente reportagem sobre este sector no jornal Público de 11/8/2013), de que vão criar “postos de trabalho especializados e qualificados”, “valorizar os recursos humanos”..

Ainda que só por isso, compreender-se-ia esse pensamento do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Viseu, o qual, por vir de quem vem, até é, ele próprio, muito qualificado.

Mas, depois, há outras razões para este pensamento ser fomentado e alimentado…

Os trabalhadores dos call centers são, muitos deles, ainda que tal de nada lhes sirva nas funções que lá exercem (e daí que os salários em nada com tal condigam), pessoas com habilitações elevadas, a acabarem licenciaturas e até mestrados.

Além disso, reforçando ainda mais esse pensamento de “especialização”, qualificação” e “valorização” doas trabalho lá realizado, os call centers, quanto mais não seja pelo equipamento que lá é utilizado, passam por emblemáticos das “novas tecnologias de informação e comunicação” (NTIC), da “inovação tecnológica”, o que logo induz a  pensar que tais postos de trabalho “valorizam os recursos humanos”, que são profissionalmente qualificantes.

Assim, ouvindo estes pensadores qualificados, com o aval da comunicação social, dizerem que o trabalho nos call centers é “especializado”, que “valoriza os recursos humanos“, que, enfim, é qualificado e qualificante, (quase) toda a gente fica a pensar que, em todos os call centers, os trabalhadores têm boas condições de trabalho, salários compatíveis com as suas habilitações, que se realizam aplicando-as nas suas funções. Que, enfim, o seu trabalho é a antítese de um trabalho desqualificado e desqualificante, alienante.

Será mesmo assim?

Talvez seja necessário pensar um pouco mais sobre… esse pensamento.

É o que faremos na segunda parte deste artigo, a publicar na próxima edição da GAZETA DA BEIRA.

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