João Fraga de Oliveira

O Natal, os ratings e a felicidade paradoxal

Nesta época, é suposto sermos mais felizes, que pelo menos o(s) contexto(s) em que nos inserimos nos induzam felicidade. Claro que o que nisso é mais, digamos, ortodoxo, mais genuíno, é a felicidade que nos pode advir e com que podemos contribuir a partir dos sentimentos de solidariedade, de respeito, de dignidade, de consideração para com os Outros, mormente, de reforço e entrosamento familiar.

Mas, se bem que pouco haja mais sério, mais digno de respeito do que isto, também nada prejudica a (real) felicidade do Natal um bocadinho de ironia, vá lá, pelo menos de tentativa disso. É esse contributo, eventualmente contraproducente, que o que escrevinho neste texto procura dar.

É que há outras fontes de felicidade mais superficiais e dispersas, digamos, mais heterodoxas do que aquela, pura, sã, e genuína, clássica, de algum modo ortodoxa, que referi de início

Por exemplo, a felicidade que nos advém (apenas) da linguagem, pois é nesta altura, que tanto se diz / escreve relacionado (ainda que só linguisticamente, etimologicamente…) com “felicidade”: Feliz Natal! Feliz Ano Novo; Festas Felizes, etc..

Ou a que nos advém da “natureza” que nos rodeia, luxuriante de luzinhas de uma “heterodoxia” cromática cintilante e deslumbrante, a condizer com os maviosos sons celestiais que ouvimos nas catedrais, digo, nos hipermercados e centros comerciais.

Heterodoxa, ainda, aquela felicidade desta época que, a tal ponto heterodoxal é que, até degenera (ou, se quiserem, se sublima) em “felicidade paradoxal” (cito, aqui, o título de um livro de um autor que gosto muito, Gilles Lipovetsky1). Isto na medida em que, especialmente nesta época, de tanto felizes ficarmos com o que (hiper)consumimos, podemos, ao mesmo tempo, paradoxalmente, ficar deveras infelizes com o que, por isso, temos de (hiper)pagar.

Ora, conquanto nesta GAZETA de Natal, inicialmente, tivesse resolvido escrever também (“também”, porque não falta por aí quem fale / escreva sobre o assunto, há tanto por onde lhe pegar…) sobre o caso “Raríssimas”, mudei de ideias (não quer dizer que desista …).

E mudei de ideias, não só porque escrever sobre o caso “Raríssimas” seria de certo modo paradoxal por ser vulgaríssimo (presumo que até aqui, nesta edição da Gazeta, vão encontrar muita coisa escrita sobre isso) mas, também, porque concluí que, nesta altura natalícia, escrever sobre isso seria também (mais) um paradoxo por, numa época na qual a felicidade tão esperada é suposto ser, escrever sobre um assunto tão infeliz (sendo benévolo no termo) como é  o caso “Raríssimas”.

Daí que optasse por aqui escrever sobre algo de que emergisse alguma felicidade. Ainda que no assunto que  escolhi, reconheça que também a felicidade que dele emana é bastante paradoxal. Mas, enfim, encontramos o que não falta por aí são “felicidades paradoxais”. Basta procurarmo-las. O que – aviso – não aconselho muito.

E qual é, então, agora pelo Natal, a razão da minha felicidade … paradoxal? As avaliações das agências de rating!

É ou não motivo de felicidade? Então? Uma “descida da curva da dívida”, dizem os analistas; um fecho do ano com “chave de ouro”, dizem os especialistas; uma seta para cima na fotografia do Sr. ministro Centeno, imprime a imprensa; um “presente de Natal!”, dizem os (tele)comentadores; um “milagre, mais um”, admito até que diga a Srª professora Doutora Teodora Cardoso.

Tudo isto me induz a deixar-me irradiar e eu próprio irradiar por aí felicidade.

E, contudo, lentamente, passei é a erradicar de mim próprio este estado de espírito tão feliz e a perguntar-me se não será toda esta minha felicidade, com as avaliações “positivas” das agências de rating mais uma felicidade paradoxal. Ora vejamos…

“Quem” é “quem” avalia? É pessoa, é fantasma, é um algoritmo? As aspas no “quem” decorrem desta dúvida.

Depois, “quem” avalia,  as tais agências de rating, é “alguém” (a finança, ou quem lhe trata dos interesses) para “quem” o valor (financeiro) do que avalia é inversamente proporcional ao valor (humano e social) que me atribui a mim. Para lhe valer mais aquilo que avalia, tenho eu que passar a valer menos. E vice-versa. Bem sabemos todos disso, ainda foi há tão pouco tempo , de 2011 a 2015, que andamos todos (bem, quase todos…) a ser de tal observadores-participantes.

Assim, é “alguém” que quando avaliou por menos aquilo que avalia, tive eu que não ser “piegas” e passar a aguentar-me no que menos passei a valer (humana e socialmente) em direitos sociais para lhe passar a valer financeiramente mais.

E, vice-versa, é “alguém” que quando, agora, avalia em mais o que avalia, é porque eu tenho que lhe (continuar a) valer menos do deveria (e poderia) valer.

E, contudo, continuo a tentar estar (já não digo ser, pelo menos estar) feliz com as tais avaliações “positivas”. Ainda que, admito, paradoxalmente.

E assim, acendo luzinhas e luzinhas com a felicidade de fechar o ano com esta “chave de ouro”, esta “prenda de Natal”, este “milagre”, esta perspectiva da “descida curvilínea da dívida” por via da avaliação “positiva” de “alguém” tão credível e importante para a  felicidade (pelo menos para a felicidade paradoxal) como são as agências de rating, as eminentes (e sempre iminentes) agências de rating.

Das agências de rating (de rating, hein!) que uns intriguistas ma intencionados que por aí deambulam chamam, insultuosamente, de “notação financeira”. “Financeira”!? Uns difamadores injuriosos.

É certo que “Elas” (por uma questão do devido respeito, há que utilizar a maiúscula) dizem que agora o que avaliam vale mais e eu sinto que continuo a valer menos do que o que valho. E, disso, é também seguro que, se valesse menos o que “Elas” avaliam, eu, de certeza, me sentiria a valer mais.

Mas, apesar disso – é Natal! – tendo para a felicidade.

É um paradoxo? Talvez. Mas já estou na linha do (saudoso) professor Agostinho da Silva (Porto, 13/2/1906 – Lisboa, 3/4/1994): “Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.”

Enfim, é paradoxal, mas … é Natal!

Sem paradoxos, caras(os) leitoras(es), Feliz Natal!

(1) A Felicidade Paradoxal – Ensaio Sobre a Sociedade de Hiperconsumo – Gilles Lipovetsky – Edicões 70 – 1ª edição, Julho de 2010.

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