João Fraga de Oliveira

Dia Mundial dos Pobres… e dos ricos

“Dia Mundial dos Pobres”. Mais um “Dia”, este instituído pelo Papa Francisco como devendo ser o último domingo do ano litúrgico, coincidente, este ano, com o passado domingo, 19 de Novembro.

Já estamos habituados (cansados?…) de vermos decretado um “Dia” para cada coisa. Algumas dessas Coisas, pela sua relevância humana, social, cultural, etc. merecem ser escritas com maiúscula. É o caso, por exemplo, sem dúvida, dos Pobres.

O problema é que até parece que, de tanto nos ser lembrado um “Dia” para cada Coisa (e, às vezes, até um dia para várias), nos esquecemos todos os dias de todas as Coisas.

Mas, dizendo-se isto, não significa, de algum modo, pôr em causa a o relevo do objectivo da instituição de (mais) este “Dia”.

A presunção desse relevo decorre, desde logo, do enormíssimo respeito a quem tal Dia é dirigido.

Mas decorre, também, de quem parte esta iniciativa, alguém que, como o Papa Francisco, tem reorientado (inclusive, pelo que se percebe, com alguma oposição interna e externa …) a Igreja no sentido da sua intervenção social (e, mesmo, política, necessariamente), visando, talvez, que esta “reocupe os espaços de onde nunca deveria ter saído”, como muitas vezes disse e escreveu o “bispo vermelho”, D. Manuel Martins, recentemente falecido.

Contudo, sendo por isso certo que não nos move nenhuma hostilidade para com o Papa Francisco (bem pelo contrário), não se pode deixar de lhe fazer algumas perguntas sobre (mais) este “Dia”.

Pois é, Sr. Papa Francisco, o que nos intriga é “só” para que é que serve o Dia Mundial dos Pobres, quando:

– Se mantém a mesma (se não pior) situação que o senhor descreveu há cinco anos. Ou seja, quando, “hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco”. Quando “o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora”. Quando mantemos um “sistema que tende a devorar tudo para aumentar os benefícios”, em que “qualquer realidade que seja frágil fica indefesa perante os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta”. Quando “esta economia mata” (Exortação Evangelii Gaudium, Novembro de 2013)?

– Se mantém a mesma (se não pior) situação que um seu antecessor denunciou há mais de meio século. Ou seja, quando “o servilismo dos poderes públicos aos interesses de grupo acabou no imperialismo internacional do dinheiro” (João XXIII, Encíclica Mater et Magistra, Maio de 1961)?

– Se mantém praticamente a mesma situação contra a qual se indignou, há quase um século, um ainda mais velhinho antecessor seu. Isto é, quando “à liberdade de mercado, sucedeu a hegemonia económica, à avareza do lucro se seguiu a desenfreada ambição do predomínio, e assim toda a economia se tornou horrivelmente dura, inexorável, cruel” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, Maio de 1931)?

– Enfim, Sr. Papa Francisco, para que é que serve o tal “Dia Mundial do Pobres” quando se mantém com pouca diferença a mesma situação contra a qual se revoltou um muito mais antigo antecessor seu, já lá vão – veja bem! – 126 anos. Quer dizer, quando, “pouco a pouco, muitos trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto com o decorrer do tempo entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada”.  Quando “a usura voraz (…) não tem deixado de ser praticada por homens ávidos de ganância e de insaciável ambição”. Quando “a tudo isto se deve acrescentar o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão de trabalhadores” (Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum: sobre a condição dos operários, Maio de 1891)?

Dirá o Sr Papa Francisco que já lá vão muitos anos, que a situação mudou muito. Mudou?

Como mudou, se se discute em Portugal um salário mínimo de 580 euros e os 25 portugueses mais ricos acumulam 10% da riqueza do país e viram as suas fortuna crescerem este ano para 18,8 mil milhões de euros?

Como mudou, se 1% da população mundial detém tanta riqueza como a dos 99% junta?

Como mudou se 8 (oito, só oito) pessoas detêm tanta riqueza quanta a metade mais pobre da população mundial?

Como mudou, se uma em cada dez pessoas no mundo vive com menos de 1,60€ por dia, 580 euros por ano, e Bill Gates precisa  de 212 euros por segundo, 17 milhões de euros por dia, mais de 6.610 mil milhões de euros por ano?

Como mudou, se grande  parte destas ou de outras imensas fortunas, em vez de fomentarem o desenvolvimento e o emprego (que poderiam ajudar a diminuir a pobreza), se limita a ser utilizada na especulação financeira humana, social e economicamente estéril, se limita a  ser “cama” de “dinheiro a fazer amor com o dinheiro”, como escreveu o saudoso escritor uruguaio Eduardo Galeano (3/9/1940 – 13/4/2015)?

Como mudou, se hoje, em que se mantêm desigualdades sociais gritantes (e especialmente em Portugal), muitos detentores dessas grandes fortunas (parece que até a rainha de Inglaterra) fazem os Outros mais pobres fugindo aos impostos e lavando o dinheiro sujo pela via dos tais Panamá papers e dos paradise paper’s?

Sim, eu sei que o Sr. Papa Francisco não me vai perguntar por e para que é que, a propósito do Dia Mundial dos Pobres, são para aqui chamados os ricos. Até porque, na homilia em que anunciou a instituição deste “Dia”, disse que “infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro”.

Mas até por isso, Sr. Papa Francisco, pela sua concordância implícita neste trecho da sua homilia, não é demasiado “radical” dizê-lo, escrevê-lo: “só há pobres porque há ricos”.

Aliás, para o escrevermos desta forma, não se pode dizer que nos apoiemos em alguém radical mas, sim, em alguém que, com uma vida cívica, académica e politica exemplar, sempre analisou este domínio com lucidez e sustentação científica, bem como com enorme sensatez e sensibilidade humana e social.

Falo do professor Alfredo Bruto da Costa (5/8/1938 – 11/11/2016), ex ministro do Assuntos Sociais, ex-membro do Conselho de Estado e ex-presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz que, entendendo que “se não se actuar na redução das desigualdades sociais, a pobreza continuará”, numa das suas intervenções (entrevista ao DN da Madeira, 30/10/2010), bem sintetizou o que precede: “os pobres são pobres porque os ricos são ricos”.

De qualquer modo, Sr. Papa Francisco, é positiva a instituição de (mais) este “Dia”, o Dia Mundial dos Pobres. Quanto mais não seja para lembrar o que precede.

Mas com certeza que admite, ainda que possa parecer ironia, que (por enquanto…) não se pode falar de pobres sem falar de ricos.

E, por isso, suponho que admite mesmo que, neste contexto e sentido, o Dia Mundial dos Pobres (por enquanto …) é também, de certo modo, perversamente, o “dia mundial dos ricos”.

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