João Fraga de Oliveira

As utopias das associações de pais*

O que é e o que prossegue, na Escola, uma associação de pais e encarregados de educação?

Talvez muita gente (se) pergunte qual é, na e da Escola (em qualquer escola), o “horizonte” dos pais e encarregados de educação (EE) quando, como a Lei possibilita, se organizam em associações de pais.

Claro que os pais e EE visam, assim organizados, poder participar formalmente na (re)construção dos documentos estruturantes (Projecto Educativo, Regulamento Interno, Plano de Actividades) e nos órgãos de administração e gestão da Escola, bem como noutras sedes e órgãos locais, municipais, regionais e até nacionais relacionados com a Educação.

E, evidentemente, para além dessas actividades (mais) formais, esperam, por via associativa, resolver aquelas questões socioeducativas da (na) escola mais imediatas dos alunos, seus filhos e ou educandos: os livros e manuais, o material escolar, a alimentação, os transportes, a segurança, etc.. E, claro, acompanhar o percurso educativo dos filhos e ou educandos.

Mas talvez passe despercebido que os pais (no sentido, lato, de familiares ou pessoa socialmente próxima) não deixam de ser pais por serem encarregados de educação. E, vice versa, não deixam de ser encarregados de educação por quererem ser (sobretudo) pais.

E, que, sendo pais e ou encarregados de educação, não deixam de ser também cidadãos. Ora, nestas condições, é de presumir que tenham uma perspectiva mais social e educativamente alargada e exigente do que esperam da (e na) Escola, que não só aquela que, mais imediata e estritamente, respeita à condição do aluno seu filho e ou educando.

Neste sentido, o que, essencialmente, organizados em associação, os pais e ou encarregados de educação esperam da Escola é, talvez, algo que é muito mais abrangente e projectado.

E porquê? Porque é o que, no percurso educativo dos seus filhos e educandos, sustenta o sucesso do seu desenvolvimento instrutivo, sim, mas também, físico, criativo, cultural, ético e cívico: o Ensino, neste sentido integral e integrado.

Ora, nesta acepção, não basta às associações de pais e EE a resposta para aquelas habituais questões mais correntes (embora também dela não prescindam). Esperam tudo aquilo de que, na Escola (em qualquer escola), o sucesso do (no) Ensino depende. Por exemplo:

* Suficiência e qualidade de competências, recursos, organização e gestão;

* Estabilidade profissional, qualificação, capacidades, organização e condições de trabalho dos professores, técnicos e outros trabalhadores não docentes;

* Focagem do trabalho dos professores no ensino visando a aprendizagem o desenvolvimento da criatividade, sem que este – o ensino – seja prejudicado por condicionalismos organizativos, administrativos, burocráticos ou financeiros;

* Turmas de dimensão pedagógica e social equilibrada.

* Equidade e inclusão socioeducativa;

* Rigor, disciplina e responsabilização comportamental, sim, mas, antes, como disso mais factores que resultados, afectividade, sociabilidade, compreensão, reconhecimento e estímulo;

* Identidade da Escola, assente num ambiente socio-organizacional e educativo solidário, cooperativo, criativo e, para isso, integradamente reflexivo;

E, claro, por definição e por estatuto, as associações de pais e encarregados de educação esperam, como factor (e, ao mesmo tempo, como resultado) de “tudo” o que precede, fluida e consequente relação cooperativa entre alunos, pais e professores.

Daí que, sobretudo como institucionalmente representantes de quem tem essa dupla condição de pais e encarregados de educação, esperam as associações de pais que um filho, para ser aluno, não tenha que de algum modo “deixar de ser” filho (carinhoso, atencioso, disponível, sensível, alegre, feliz…); e que um aluno, para ser filho, não tenha que, de algum modo, “deixar de ser” aluno (com “sucesso” educativo).

Mais, esperam que os alunos, quanto mais filhos forem, mais alunos sejam; e que, vice-versa, os filhos, quanto mais alunos forem, mais filhos sejam.

Tudo isto? Mas é isto “tudo” que, na (da) Escola, as associações de pais querem? Ou, pelo menos – opinião de um pai e encarregado de educação –, podem / devem querer?

Talvez alguém diga que, para as associações de pais, isto é uma “utopia”. Talvez…

Mas, citando (ainda que não textualmente) o grande escritor sul-americano Eduardo Galeano (Uruguai, 3/9/1940 – 13/4/2015), “a utopia está lá no horizonte (…). Este, por mais que caminhemos, jamais o alcançaremos. Mas serve para que não deixemos de para ele caminhar.”

*Este artigo é a adaptação de um texto, com o mesmo título, publicado no Boletim da APAST – Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa (AESCT)

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