João Fraga de Oliveira

O bispo vermelho e as cobras

 

Morreu D. Manuel Martins (20/1/1927 – 24/9/2017), um ex-vizinho meu, no Porto, onde, até há poucos anos atrás em que lá vivi, o via com frequência na rua onde morava, desconhecendo ele o respeito e consideração que, surdamente, sempre lhe dediquei.

Pelo que fez, disse e escreveu (interpretação minha), nunca se deixou adormecer pelas rezas e rituais autómata e mecanicamente repetidos dentro da igreja.

Sempre preferiu sair cá para fora, para o adro e para além dele, para “ocupar espaços de onde a Igreja nunca devia ter saído”. Era até muito por isto que passaram a chamá-lo “bispo vermelho”.

Como, por exemplo, nos 23 anos que passou em Setúbal (cidade de que era bispo emérito), em que denunciou a vida em barracas, a miséria, a pobreza, o desemprego, a fome, o trabalho infantil, em geral, a exploração do trabalho.

Neste último aspecto, a violação dos direitos e a dignidade dos trabalhadores nos locais de trabalho, para o qual, por formação e profissão, o autor deste texto não poderia deixar de estar atento (e, tanto quanto possível, interventivo), sempre se viu no bispo D. Manuel Martins alguém que, com a sua voz e intervenção concreta, foi um importante agente de denúncia (ainda que genérica) das ilegalidades e injustiças, bem como de proposição pública impulsionadoras de reivindicação e exercitação desses direitos nos locais de trabalho.

Isto, sobretudo, numa altura (anos oitenta) em que, regredindo nos princípios de justiça social, o “social” da ciência social que a economia deve ser, tendeu cada vez mais a ser apenas mercantil senão financeiro e, assim (outra vez), a considerar o trabalho (que se consubstancia nas pessoas que o realizam) como mera mercadoria.

Ainda não há muito tempo, sobre o que se passa por aí na área dessa ciência interpretada (e, pior, executada) com cada vez menos consciência, D. Manuel Martins afirmava publicamente que temos “uma economia diabólica, desgraçada, hiper super liberal, que tem lá no alto da pirâmide meia dúzia de homens que mandam no mundo e muitas vezes desgraçam o mundo.”

Nisto, parece que até tinha (tem) mesmo razão, porque o actual Papa não diverge: “O ser humano é considerado, em si mesmo, um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora.” (…) “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os rendimentos da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de zelar pelo bem-comum.” (…) “Neste sistema que tende a devorar tudo para aumentar os benefícios de alguns, qualquer realidade que seja frágil fica indefesa perante os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta” (…). “Esta economia mata” (Exortação Evangelii Gaudium, “A Alegria do Evangelho”, Novembro de 2013, Francisco – Mario Bergoglio).

Aliás, isto não é muito diferente do que escreveu, há já 86 anos, um outro papa. “(…) à liberdade de mercado sucedeu a hegemonia económica, à avareza do lucro seguiu-se a desenfreada ambição do predomínio, e assim toda a economia se tornou horrivelmente dura, inexorável, cruel” (1931, papa Pio XI, encíclica Quadragesimo Anno).

E, preocupante, assemelha-se mesmo muito ao que escreveu um outro papa  – vejam lá! – há 126 anos:“(…) o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito tornou-se o quinhão de um pequeno número de ricos e opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários” (Maio de 1891, A Condição dos Operários – Carta Encíclica Rerum Novarum- Leão XIII – Joaquim Pecci).

Talvez agora (ainda que só agora, e mesmo assim é ser optimista ter essa expectativa…), com a morte de D. Manuel Martins e o reavivar da memória da sua vida e pensamento, (“a morte faz parte da vida” pode não ser só uma frase feita que repetimos mecanicamente, pode significar que quem morre, pela sua memória, deixa referências para a vida dos que ainda ficam…) e relacionando essa sua memória com a destes seus (ex)companheiros de(a) Igreja com quem tinha um pensamento coerente quanto ao essencial da justiça social, se corrijam desigualdades e injustiças sociais, reconhecendo pelo que precede que, neste domínio, em mais de um século, não aprendemos nada e mesmo que, não em pouco, até regredimos. Ainda que sob o “manto diáfano” “da “inovação tecnológica” e do “progresso”.

Ou mesmo que, quando D. Manuel Martins, exortava a Igreja a (re)ocupar os espaços de denúncia e intervenção social (e até política, como foi o caso, mais marcante, de outro bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes) “de onde nunca devia te saído”, pouco vale, anos e anos de sermões e homilias a ouvir “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Evangelho segundo S. Mateus (19:19) se, logo a seguir, no adro ou na rua (ou nos gabinetes ministeriais…), por acção ou omissão, isso é, descarada ou sub-repticiamente, renegado na(s) prática(s).

A justiça social foi, de facto, não apenas pelo discurso e pensamento mas pela prática, pela vida, a ”menina dos olhos” de D. Manuel Martins.

Só por isso, a sua morte é uma grande perda humana e social, porque se há área onde há muito a fazer é na da Justiça, qualquer justiça, mormente a justiça social (se bem que, aliás, de alguma forma, todas as formas de justiça – criminal, comercial, fiscal, do trabalho, etc. – o são, sociais).

É que, se nos distrairmos com a Justiça (seja qual for o foro desta, repito), corremos o risco para o qual muito nos alertou, pagando com a própria vida o quanto também pugnou contra as desigualdades e pela justiça social (e inerentes políticas que, por accção ou omissão, as promoviam ou mantinham) um colega do ora saudoso “bispo vermelho” (monsenhor Óscar Arnulfo Romero, arcebispo de El Salvador, na América Central, assassinado a tiro quando, em 24 de Março de 1980, dizia uma missa), ao avisar: “A justiça é como as cobras: só morde os que andam descalços”.

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