João Fraga de Oliveira

Competitividade, trabalho e vida

No discurso político e sobretudo económico, a propósito de (quase) tudo, a palavra-chave é, agora, a “competitividade”.

Assim, como para tudo sendo pretexto, invoca-se a “competitividade” por “dá cá aquela palha”. Veja-se o que aconteceu com a argumentação patronal contra o aumento do “salário mínimo”, invocando-se a “competitividade” num domínio onde, até pelo que defendem as leis da Economia, não tem que ser chamada, visto que o “salário mínimo” (diversamente do que poderá acontecer, quando muito, com os salários em geral) não tem que depender da “competitividade” mas sim da garantia de que os trabalhadores, mesmo trabalhando, não sejam pobres (sendo, aliás, também por isso que deve depender exclusivamente da decisão política, do Governo).

Mas continua-se a associar esta metáfora desportiva (ou bélica) às condições de que ela depende (a produtividade e a qualidade) e aos seus esperados resultados: o crescimento e, por este, o emprego.

Contudo, à força de tudo olhar pelo prisma da competitividade, corre-se o risco de se escamotear a importância de um outro conceito, nuclear  da Sociedade e da Economia (e que, aliás, é condição básica da competitividade): o Trabalho.

Ora, o trabalho não é uma  mera abstracção, visto que se consubstancia nas pessoas que trabalham.

O trabalho é “um cérebro que pensa, um olho que vê; um músculo que age”. O trabalho é, afinal, “só” aquilo (muito) que as máquinas não podem fazer. O trabalho é, portanto, produto das pessoas.

Mas, reciprocamente, também as pessoas são produto do trabalho. Como escreveu o grande filósofo André Gorz (9/2/1923 -22/9/2007), um analista excepcional das transformações do trabalho (e não só), “trabalhar não é apenas produzir somente riquezas; é também uma maneira se produzir” a si próprio (em Métamorphoses du Travail). Ou, como também escreveu Karl Marx (ainda que não exactamente assim), “pelo trabalho, o homem, transformando a Natureza, transforma a sua própria natureza”.

Assim, se são as pessoas que fazem o trabalho,  também é o trabalho  que faz ou desfaz as pessoas, na medida em que o trabalho seja, para as pessoas: a realização ou a frustração; a participação ou a marginalização; a qualificação ou a desqualificação; a responsabilização ou a alienação; a inclusão ou a exclusão; a saúde ou a doença; a integridade física ou o estropiamento; a vida ou a morte.

Nessa medida, estão associados ao trabalho valores humanos e sociais fundamentais, intrínsecos das pessoas como pessoas, designadamente, a vida, a integridade física, a saúde, a família, a inserção e integração social, a cidadania.

No discurso político e económico, considera-se ainda a competitividade como uma das condições do emprego, ou seja, da garantia de uma vida com trabalho.

Contudo, sendo certo que também  o que aqui está em causa é o emprego das pessoas, também nesta perspectiva da competitividade das empresas como condição do emprego não pode deixar de estar implicada a garantia da qualidade do trabalho, ou seja, sobretudo, a garantia de um trabalho com vida.

Aliás, é a própria competitividade das empresas, a produtividade e a qualidade dos bens que produzem ou dos serviços que prestam, que, afinal, depende de um trabalho com vida, na medida em que um trabalho com vida seja um trabalho vivo (responsabilizante, participado e qualificante) e não um trabalho morto (repetitivo, rotineiro e alienante) ou mortificante (intensificado e stressante).

Enfim, um trabalho que garanta: a produtividade, qualidade e desenvolvimento organizacional das empresas; a remuneração digna e a estabilidade do emprego suportes do viver pessoal, familiar e social; o desenvolvimento profissional e pessoal; a prevenção do risco de morte, lesão ou doença profissional; o bem estar; a vivência da cidadania por parte das pessoas que trabalham;

A Economia é uma ciência social, desde logo porque a sua estrutura institucional e funcional são as empresas e outras organizações onde é realizado trabalho e na medida em que estas sejam também pilares sociais, instrumentos ao serviço da sociedade da qual obtêm os seus recursos e lucros.

Mas é também, e fundamentalmente, uma ciência social, porque, directa ou indirectamente, assenta no trabalho e, por isso, tem, deve ter, como ponto de partida e de chegada aquilo em que, essencialmente, o trabalho se consubstancia: as pessoas que o realizam.

Neste sentido, a todos os níveis (humano, social, económico e, até, legal), não é uma utopia mas uma exigência fundamentada que as pessoas que trabalham, assim ganhando a vida, a trabalhar também ganhem vida.

Ou pelo menos que, quotidiana e invisivelmente, a trabalhar não percam vida (contraindo doenças profissionais) nem, muito menos, de um momento para o outro, percam a vida (num acidente de trabalho).

Por isso, sendo claro, se nos tempos actuais, como se argumenta gestionária e politicamente, a competitividade é uma condição de vida (também) das empresas e dos Estados, não pode a Gestão e a Política, em todos os seus níveis e domínios, deixar de ter em conta as condições de trabalho e, pelo que estas nisso tanto determinam (e são determinadas), as condições de vida das pessoas.

Em resumo, a “competitividade”, a “palavra-chave” que por aí tanto é (ab)usada no discurso económico meramente mercantilista, é, de facto indissociável de duas outras palavras (humana e socialmente) chaves mestras: trabalho e vida.

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