João Fraga de Oliveira

Os flautistas de Marcoussis

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Em que é que havemos de pensar, agora que “vamos” de férias?

Não faltava por aí material “da pesada” para “encher” este número da GAZETA. Para não falar de outros que seria de mau gosto aqui invocar, ainda as “sanções” (sempre, podemos lá viver sem elas?), o “Outono quente” (ainda mais?…) do orçamento para 2017, o sistema banqueiro, digo, “financeiro” e, até a vinda do “diabo” que, à falta de melhor, digo, de pior, é quase todos os dias anunciada pelo Dr. Passos Coelho e pelos seus (tele)pajens.

Contudo, numa altura destas, podia lá a nossa atenção nas férias desviar-se para outra coisa que não fosse a bola, a saga, “heróica” (e, daí, as devidas e abundantes comendas presidenciais), de Marcoussis?

Não pode, até porque é preciso que,  na rentrée, em Setembro, tenhamos ideias mais claras e consequentes … sobre a bola.

Há por aí quem discorde, uns descrentes e “antipatriotas” que dizem que já enjoa tanto futebol e, sobretudo, tanta política futebolística e tanto futebol politiqueiro. Enfim, quem diga que estamos “infestados” de futebol.

Não estou de acordo. O futebol,  por si e em si, (só) como jogo, (só) nos 90 minutos (ou prolongamentos…) em que é jogado, não é uma praga mas um (excelente) desporto como prática e, mesmo quando só presenciado, um bom espectáculo.

O que, isso sim, se está a tornar uma “praga” é o futebolismo (há sempre um “ismo” a etiquetar seja o que for) do “mercado do futebol” (há sempre um “mercado” para se “mercar” seja o que for), o futebolismo, na acepção de degeneração alienante e mercantil  do futebol .

Para além da (tele)relevância “desportiva” ao mesmo tempo entediante e provocante das negociatas em que, quem vive num  país com salários baixíssimos e que “é o mais desigual da União Europeia” (é a OCDE que o diz), ouve falar em verbas absolutamente “pornográficas”, são horas e horas de “trios de ataque”, de “dias seguintes”, de “grandes adeptos”, etc. em que a comunicação comercial, digo, “social” (e a rádio e televisão pública dá o exemplo, por excesso) nos “infesta” de futebolismo palrado num futebolês que, muitas vezes, alterna entre o fastidiosamente “catedrático” e o soezmente insultuoso. Estupidificação futebolística, há muito por aí quem acuse.

E, todavia, sejamos “resilientes” como gosta(va) de dizer o … primeiro-ministro cessante.

É que, “resilientemente”, vêm à ideia umas certas afinidades do futebolismo não só com a “política” (mas isso já sabemos há muito…) mas, até, com  a cultura. Ora, vamos lá a ver…

Muita gente conhece aquele conto “O Flautista de Hamelin”. A sua leitura completa é deliciosa e encerra uma lição de moral sobre o dever de cumprimento dos compromissos. Mas não é tanto por isso (apesar de também…) que tem a ver com “infestações” de bola.

Sinteticamente, o conto versa uma situação ocorrida em 1284, na cidade de Hamelin, na Alemanha, que, então, estava infestada de ratos, deixando desesperados os seus habitantes. Então, apareceu na cidade um “empreendedor” tocador de flauta que se comprometeu a, mediante o pagamento de uma certa quantia, livrar a cidade dos ratos.

O povo da cidade concordou e o flautista, com o toque da flauta, hipnotizou os ratos, que, assim, seguiram  o flautista até um rio, onde acabaram por morrer afogados.

Quando reclamou o pagamento acordado do serviço e os habitantes da cidade se recusaram a pagar, o flautista reagiu e, outra vez com a flauta, hipnotizou desta vez as crianças da cidade, levando-as atrás dele. E só as libertou desse condicionamento quando, finalmente, o povo lhe pagou o prometido.

O conto foi escrito em meados do século  XIX pelos Irmãos Grimm (Wilhelm e Jacob Grimm, que viveram na Alemanha, entre os anos 80 do século XVXVIII  e os anos 60 do século XIX).

Agora, (re)ler esse conto, se bem que nos deleite do ponto de vista literário (há uma maravilhosa versão em verso, de 1842), induz uma certa sensação de inverosimilhança, se não pela infestação de ratos (é o que por aí mais há…), pela necessidade do “empreendedorismo” do flautista.

É que, com prejuízo do mavioso toque da flauta, a praga, agora, resolvia-se com a aplicação de qualquer raticida químico, desde que, claro, com o devido equipamento de protecção e diploma de “Altos Estudos”, digo, do “Curso de Aplicação de Produtos Fitofarmacêuticos”, regulado por um certo decreto-lei que transpõe uma directiva europeia (com as óbvias ameaças de sanções, é claro…).

De qualquer modo, agora e sempre, ler este conto (como, aliás, em geral, ler , ler, ler, seja o que for que se leia…)  é, por si só, um acto de cultura.

Sim, e então? O que é que a “bola” e a política têm a ver com isto? Não têm? Então, então, está-se mesmo  ver!

No século XIII, em 1284, há 732 anos, o flautista era o Hamelin e a flauta era ,… isso mesmo, a flauta.

No século XXI, por exemplo, em 2004, o “flautista” era o Scolari e a “flauta” eram as ridículas bandeirinhas nacionais com que o “flautista”, dizem que bem pago para isso,  a (quase) toda a gente “hipnotizou”. Bem, ridículas, as bandeirinhas, não, longe disso, pelo seu simbolismo nacional genuíno mas pela vulgaridade e banalidade da sua utilização e aproveitamento “futebolísmico”.

Mas, não ficámos, nem vamos ficar por aí, no século XXI (e  per saecula saeculorum…).

Em 2016, o “flautista” é o Presidente da República (em dueto com o primeiro-ministro) e a “flauta” é,  claro, … a televisão.

Neste ano, até o nosso Dia (o “de Portugal”), foi atrás dos sons “futebolísticos” da “(tele)flauta” e dos seus exímios “(tele)flautistas”.

Entretanto, já haverá por aí alguém que pergunte: mas, afinal, nisto tudo, quem são os “ratos”?

Ora, nisso é que o conto deixa aqui de fazer sentido, porque, claro, os portugueses não são “ratos”. Pelo menos, por regra (se bem que, alegoricamente, talvez se possa dizer isso de um ou de outro e, mesmo assim, enquanto “rato” que invoca estar para isso legalmente autorizado …). Quando muito, seremos nestas coisas de futebol, um pouco “crianças”. Mas no bom sentido, positivo,  o de vivermos e rejubilarmos genuína e legitimamente de alegria com os feitos europeus (e talvez não só, já agora…)  da nossa selecção no futebol, no futebol mesmo. “Nem só de pão vive o homem…”.

De qualquer modo, esperemos que, pelo menos nas férias  (nas vossas, caros leitores e nas da GAZETA da BEIRA), deixe de se ouvir / ver tanto o som (e imagem) da “(tele)flauta” político-futebolística e futebolístico-política, até porque, presume-se, os “(tele)flautistas” também vão de férias, porque também eles não dispensam os benefícios físicos e mentais da, sem ofensa, silly season.

O que (nos) permite  a todos maior concentração (e até, se possível, meditação) na reflexão profunda sobre a complexa “problemática” do … (re)inicio da “Primeira Liga”…

Boas férias.Redação Gazeta da Beira

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