João Fraga de Oliveira

“Que tempos são estes em que é necessário defender o óbvio?”

Assembleia-da-RepublicaEsta frase é atribuída a Bertolt Brecht (Alemanha, 1898-1956), o grande poeta e dramaturgo alemão.

Relacionável com os duríssimos tempos (do nazismo, da guerra e da perseguição política) em que Brecht viveu (e sofreu), e sobre os quais muito escreveu (em poesia e em prosa, sobretudo teatro), é quase uma “blasfémia” citar esta frase do “monstro” cultural e político que Brecht foi (é) a propósito da “banalidade” da actual situação política em Portugal.

Contudo, tão flagrante é a inerência que não se resiste a supor que, com esta frase, Brecht se “está” (também) a dirigir ao Presidente da República (PR), Dr. Aníbal Cavaco Silva (e não só…). Pois!…

Depois da decisão, pouco óbvia, de não as antecipar, marcou as eleições legislativas para 4 de Outubro.

Das eleições, resultou a decisão, (relativamente) óbvia, de indigitar como primeiro-ministro (PM) o líder da candidatura mais votada (PàF), Dr. Pedro Passos Coelho. Até aqui, admitamo-lo, tudo respeitando o “óbvio” de então, os “resultados eleitorais” (Artª 187º da Constituição da República Portuguesa – CRP).

Foi também óbvio (alínea d) do Nº 1 do Artº 195º da CRP) que, rejeitado o seu programa na Assembleia da República (AR), o Governo fosse demitido.

Porém, é a partir daqui que … “óbvio sofre”…

É que seria (é) óbvio que, pelas razões óbvias de (já) não poder dissolver a AR por já ter entrado no “ultimo semestre do seu mandato” (Nº 1 do Artº 172º da CRP) e de qualquer outra solução governativa de recurso (governo de “iniciativa presidencial” ou “de gestão”) ser (quase) unânimemente reconhecida (inclusive pelo PM demissionário) nefasta do ponto de vista económico, social e político, seria (é) óbvio – dizia-se – que o PR nomeasse de imediato como PM o líder da segunda candidatura mais votada nas eleições legislativas, tanto mais que esta, o Partido Socialista (PS), assumiu ter para o seu programa o apoio da maioria dos deputados da AR, concretamente, dos que representam o BE, o PCP e o PEV.

Mas, até à data, quase dois meses passados após as eleições, é óbvio que tal tem sido e (ainda) é (até quando?…)  muito pouco óbvio para o PR.

De facto, não se percebe tão demorado “estudo” de quem, tendo “os cenários todos estudados”, nada disto (ainda) não lhe é óbvio, andando, há semanas, quase dois meses, numa demorada “inconsistência” sobre a velha dúvida leninista de há quase 100 anos: “O que fazer?”.

– Foi para a “sua” Madeira, com o risco de, numa altura destas, “o comprimento e o sabor” (excelente, obviamente) das bananas madeirenses, obviar à (mais) rápida resolução, no “contenente”, do vazio (efectivamente) governativo e consequente não satisfação das exigências políticas e económicas implicadas (por exemplo, a apresentação do Orçamento de Estado cujo falta de respectivo “esboço” no Eurogrupo tanto exaspera o presidente deste, cujo arrevesado nome não me atrevo a escrever);

– Ouve, por exemplo, o “seu” presidente da Associação das Empresas Familiares mas esquece outras grandes associações que lhe (nos) são também muito familiares: a associação das famílias de(os) desempregados, a associação das famílias de(os) subempregados e precários, a associação das famílias de(os) emigrantes forçados, a associação das famílias de(os) pobres, a associação das famílias das vítimas das “inverdades” governativas (por exemplo, o mais recente, sobre “reduções” da sobretaxas do IRS), etc.;

– Ouve os “seus” banqueiros, com o risco que pode constituir um conselho de (certos) banqueiros. O risco consistente no facto de, tal como o dinheiro que emprestam, (cert)os banqueiros só nos darem conselhos se provarmos que não precisamos deles;

– Ouve (só) os “seus” economistas, expondo-se à conhecida “inconsistência” de, entre (cert)os economistas, havendo dois, há pelo menos três opiniões;

– E, já a clicar no “enviar” do e-mail para remeter este texto à GAZETA, ouço / vejo que, não obstante tantas audições (trinta e uma, salvo o erro) e de – diz-se – “nunca ter dúvidas e raramente se enganar”, ao PR ainda restam meia dúzia de … dúvidas.

Obviamente que há cada vez mais razões para, como o “saudoso” Jardel, nos interrogarmos: “Por que será?”

Mas por que razão não recorre Sua Excelência à sua famosa teoria dos “consensos” que tão consistentemente tem por aí pregado, “roteiro” atrás de “roteiro”? Permitir-lhe-ia, com certeza, indicações muito óbvias, por exemplo:

– Que entre o “seu” consenso de 2.082.511 votos e o outro (o “duvidoso”) consenso de 2.744.647 votos, a escolha é óbvia;

– Entre o “seu” consenso de 2 (dois) partidos e o outro (o “duvidoso”) de 4 (quatro) partidos, a escolha é óbvia;

– Entre o “seu” consenso de 107 deputados na AR e o outro (o “duvidoso”) consenso de 122 deputados na AR, a escolha é óbvia.

Bem poderia marcar o seu mandato com a inspiração de um candidato a PR que, em 10 de Maio de 1958, em Lisboa (Café Chave d’Ouro), a propósito de um presidente do Conselho homónimo do actual candidato a PM, garantiu, resoluto: “Obviamente demito-o!”. Bastaria que, dadas as circunstâncias, actualizasse essa frase, garantindo, sem perder (mais) tempo: “Obviamente, nomeio-o”.

Afinal, é tudo tão óbvio e, com esta demorada “inconsistência” (e não só…), o PR corre o risco de, em vez de sair por cima, acabar por sair por cima, obviamente, … de si próprio.

Afinal, é tudo tão óbvio e, no entanto, com tantas inconsistências presidenciais, como pergunta o velho grande Brecht, ainda (nos) “é necessário defender o óbvio?”.

Pois então, é óbvio, defendamo-lo.

Obviamente…Redação Gazeta da Beira

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